Capítulo 2 prólogo 1.1 Giovanna Ribeiro
Minha vida nem sempre foi essa montanha-russa em que estou agora.
Houve um tempo em que tínhamos tudo ou, pelo menos, parecia.
Éramos uma família tradicional, com uma casa cheia de amor, risadas e carinho. Minha mãe sempre atenta, meu pai chegando do trabalho com um sorriso no rosto e um abraço caloroso. Eu era apenas uma criança, mas me sentia segura. Até que, de repente, tudo mudou.
Lembro-me do dia em que o mundo desabou. Eu tinha apenas doze anos quando ouvi meus pais discutindo. Minha mãe havia descoberto as traições do meu pai. Mas o pior não foi isso. O verdadeiro golpe veio quando descobri que ele estava sustentando outra mulher e os filhos dela enquanto esquecia de nós.
Pouco tempo depois, ele fez as malas.
Olhou para nós uma última vez, como quem olha para um objeto velho, e disse:
— Nunca mais vou voltar.
E não voltou.
Aquela frase ficou ecoando dentro de mim como um grito silencioso. O primeiro homem que eu realmente amei, meu pai simplesmente virou as costas.
Naquele momento, senti como se algo dentro de mim tivesse sido arrancado.
— Pai… — murmurei, sem perceber que minhas mãos tremiam — por que você faria isso?
Mas não houve resposta.
Apenas silêncio.
Desde aquele dia, nunca mais o vi.
Nenhum telefonema. Nenhuma carta. Nada. Ele me apagou da vida dele como quem apaga uma lembrança incômoda.
Eu era jovem, mas não tola. Sabia que casamentos podem acabar, que adultos podem cometer erros. Mas um pai… um pai não deveria nos abandonar.
Mesmo sabendo disso, ele nos deixou.
E com ele, deixou uma ferida tão profunda que, mesmo anos depois, ainda sangrava silenciosamente dentro de mim.
Às vezes, fecho os olhos e ainda consigo ouvir minha própria voz de doze anos tentando entender:
— Por que você não me amou suficiente para ficar? Por que nós não fomos suficientes?
E a única resposta que recebo é o eco do vazio.
Depois da separação, tudo ficou mais difícil.
A casa onde morávamos era grande demais para apenas duas pessoas. Cada cômodo parecia vazio, ecoando a ausência dele.
Foi então que minha mãe tomou uma decisão difícil.
— Vamos vender a casa, filha. — disse uma tarde, sentando ao meu lado na sala vazia.
— Mas mãe… e todo o nosso espaço? E meu quarto? — perguntei, com o nó na garganta.
— Não temos escolha. As contas não param de chegar, e eu não posso mais ficar parada.
Com o dinheiro da venda, ela comprou um apartamento menor. Tentei imaginar nossa vida ali, mas era estranho. Tudo parecia menor, apertado.
— Vai dar certo, filha. Vamos nos virar. — ela insistia, tentando sorrir.
Mas não era fácil. As contas continuavam se acumulando, e meu pai não estava para ajudar. Então minha mãe começou a trabalhar em um mercado.
Passava o dia inteiro de pé, carregando caixas, atendendo clientes, cansada, mas sempre tentava chegar em casa com um sorriso. Um sorriso que escondia a fadiga e a dor de tudo o que tínhamos perdido.
Eu aprendi a me virar sozinha.
Cozinhava, limpava, cuidava da casa, escondendo o cansaço para não sobrecarregá-la mais.
— Filha, você está bem? — ela perguntava algumas noites, quando chegava exausta.
— Estou sim, mãe. Não se preocupe comigo. — eu dizia, tentando soar firme, mas a voz tremia.
Nunca reclamei. Pelo contrário, agradecia a Deus por ela ter forças para continuar, por nos manter de pé mesmo quando tudo parecia desmoronar.
Os anos passaram, e o básico nunca faltou.
Eu estudava, ela trabalhava, e assim sobrevivemos. Mas cada conquista tinha um gosto amargo, porque sempre faltava alguém para dividir nossa vida.
— Mãe… um dia isso vai melhorar, né? — perguntei certa noite, olhando para ela com esperança. Ela segurou minha mão e sorriu, com aqueles olhos cansados, mas cheios de determinação:
— Vai sim, filha… Vai melhorar. A gente só precisa continuar firme, um dia de cada vez.
E foi assim que aprendemos a sobreviver, juntas, mesmo que o mundo parecesse conspirar contra nós.
Nossa vida era simples, mas segura. O condomínio era humilde, porém tranquilo. Minha mãe, depois de um tempo, começou a sorrir de novo. Tentava reconstruir o que o abandono do meu pai havia destruído.
E eu? Eu estava ali, sempre torcendo para que ela conseguisse. Porque, no fundo, tudo o que eu queria era ver minha mãe feliz outra vez.
Foi nessa época que minha mãe conheceu o Roberto.
No começo, ele parecia o homem perfeito: atencioso, gentil, cheio de presentes e surpresas. Levava minha mãe para sair, fazia questão de agradá-la em tudo. Aos finais de semana, começou a dormir lá em casa, e minha mãe parecia realmente feliz por ter encontrado alguém novamente.
Eu tinha apenas dezesseis anos quando comecei a perceber algo diferente, um olhar dele que me incomodava.
Não pense que eu usava roupas curtas ou provocantes, porque não usava. Minhas roupas sempre foram largas: camisas folgadas, calças compridas... vestidos eram raros, e short então, quase nunca. Não me sentia bem com esse tipo de roupa. Mesmo assim, o olhar dele... era estranho.
Logo vieram os presentes. Eu nunca gostei de aceitá-los, mas minha mãe insistia:
— Filha, é feio recusar um presente. Ele lembrou de você, seja educada.
Eu apenas sorria de canto, mas por dentro desejava que ele simplesmente me esquecesse.
As dormidas de fim de semana foram se tornando mais frequentes. Aos poucos, ele foi ficando, primeiro três dias, depois quatro, até que, quando percebi, ele já morava conosco.
Eu tentava evitar ao máximo qualquer contato ia da escola direto para casa e me trancava no quarto. Quando ele chegava do trabalho, eu já tinha jantado, e dizia à minha mãe que precisava estudar. Era a minha desculpa para não sair do quarto.
Nos fins de semana, eu inventava mil tarefas domésticas limpava, organizava, fazia qualquer coisa para me manter ocupada e longe dele.
Quando ele e minha mãe viajavam, era um alívio.
Nesses dias, eu finalmente conseguia respirar, circular pelo apartamento sem medo, sem aquele peso constante me observando.
Aline me convidou para passar o fim de semana com ela e sua família na casa de praia.
Foi a primeira vez em muito tempo que senti empolgação de verdade.
Minha mãe hesitou, claro. Disse que eu ainda era nova, que não gostava da ideia de eu ficar fora. Mas depois que a mãe da Aline ligou e garantiu que cuidaria de mim, ela acabou cedendo.
Aqueles dias foram como respirar depois de tanto tempo presa embaixo d’água. A brisa do mar, o riso despreocupado, o som do vento batendo nas janelas tudo parecia leve.
A família da Aline me tratava com um carinho que eu mal lembrava como era. Eles diziam que eu era educada, gentil, uma menina “de ouro”. E eu sorria, mas por dentro doía... porque era assim que eu queria que a minha mãe me enxergasse também.
Mas desde que o Roberto entrou em nossas vidas, ela parecia olhar para mim através de um vidro embaçado.
Tudo o que antes era “nós” virou “eles”.
E eu comec
ei a desaparecer aos poucos, como uma sombra no canto da casa.
