Capítulo 3 Prólogo 1.2 Giovanna Ribeiro

Quando voltei da viagem, trouxe comigo uma paz que durou pouco.

Nos primeiros dias, até tentei me convencer de que as coisas estavam voltando ao normal. Mas logo aquela sensação voltou, a de estar sendo observada.

Minha janela estava sempre fechada, as cortinas cerradas, a porta trancada.

Mesmo assim, eu sentia.

Um arrepio constante na nuca.

Olhares invisíveis atravessando a pele.

Achei que estava enlouquecendo.

Até que, um sábado qualquer, enquanto limpava a estante, vi algo pequeno entre os livros. Uma minicâmera. O meu coração quase parou.

— Não... não é possível... — sussurrei, sentindo o chão sumir.

Revirei o quarto inteiro, gavetas, armário, até o colchão. Nada.

Mas aquele único objeto bastava. E só um nome vinha à minha mente: Roberto. Ele era o único que entrava no meu quarto sem pedir.

E aquele sorriso... aquele sorriso nojento e maldoso me dava vontade de gritar.

Esperei minha mãe chegar. Ela estava cansada do trabalho, o uniforme ainda cheirando a detergente.

Mas eu não podia esperar.

Corri até ela, tremendo.

— Mãe... eu encontrei uma câmera no meu quarto.

— O quê? — ela riu, cansada. — Que bobagem é essa agora, filha?

— Eu tô falando sério! — insisti, mostrando a câmera nas mãos. — Alguém colocou isso na minha estante!

— E você acha que foi o Roberto, é isso? — o tom dela mudou, frio.

— Só ele tem acesso, mãe! Ele vive entrando lá... ele me olha estranho, eu juro...

— CHEGA! — ela gritou, com os olhos marejados de raiva. — Você está sendo egoísta! Igual ao seu pai!

— Eu só quero que a gente volte a viver como antes! — gritei de volta, chorando. — Eu tenho medo dele!

— Eu mereço ser feliz! — ela rebateu, a voz trêmula, mas firme. — Você quer que eu fique sozinha pra sempre? É isso?

Aquela frase me atravessou como uma faca. Ela não me ouvia.

Não via o desespero nos meus olhos.

Só via o medo de perder o homem que fingia amá-la.

— Eu não tô mentindo, mãe... — minha voz saiu baixa, engasgada. — Eu só queria que você acreditasse em mim.

Ela desviou o olhar.

E naquele instante, eu entendi: a mulher que sempre foi meu abrigo agora era o muro que me prendia.

Eu queria ir embora.

Queria sumir daquele apartamento sufocante, onde até o silêncio parecia me vigiar. Mas ainda faltava pouco para eu completar dezessete anos. Não tinha trabalho, nem dinheiro, nem para onde ir.

Eu estava presa e o pior era saber que ninguém acreditaria em mim.

Aline foi a única pessoa a quem consegui contar tudo. Nos encontramos na praça perto da escola, o vento gelado batendo nas árvores, e eu tremendo não só de frio, mas de medo.

— Gi, você tá pálida... o que tá acontecendo? — ela perguntou, preocupada.

Eu demorei pra responder. Olhei em volta, como se alguém pudesse estar ouvindo.

— É o Roberto... — sussurrei. — Eu acho que ele colocou uma câmera no meu quarto.

— O quê?! — os olhos dela se arregalaram. — Você tá brincando, né?

— Eu queria estar. Mas encontrei escondida entre os livros. Eu sei que foi ele, Aline. Eu sinto.

Ela ficou em silêncio por um tempo, tentando processar.

Depois, segurou minhas mãos.

— Gi, você tem que contar pra sua mãe! Isso é sério!

— Eu tentei... — engoli o choro. — Ela disse que eu tô mentindo. Que tô com ciúmes dele.

— Não... — ela balançou a cabeça, indignada. — A sua mãe não pode achar isso.

— Achou, Aline. — minha voz saiu quebrada. — Disse que eu sou igual ao meu pai. Que quero destruir o namoro dela.

Aline ficou sem palavras. Eu vi a raiva e a impotência brilhando nos olhos dela.

— E se a minha mãe conversar com ela? — sugeriu. — Ela sempre gostou da sua mãe, talvez consiga fazê-la entender.

Balancei a cabeça, rápido.

— Não... eu não posso envolver vocês nisso. A sua família já faz tanto por mim. Se ele descobrir que eu contei, vai dar um jeito de virar tudo contra mim.

— Você tá com medo dele? — ela perguntou, num sussurro.

— Eu tô com pavor, Aline. — minhas mãos tremiam. — Eu sinto os olhos dele em mim o tempo todo. Às vezes acordo no meio da noite com a sensação de que tem alguém me observando.

Ela respirou fundo, segurando minhas mãos com força.

— Gi, você não tá sozinha, ouviu? — disse firme. — Se ele fizer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, você vem pra minha casa. A minha mãe não vai te deixar desamparada.

Meus olhos marejaram.

— Eu só queria que a minha mãe me olhasse assim... como você tá me olhando agora.

Aline me abraçou forte, como se tentasse me proteger do mundo inteiro.

E naquele instante, entre o medo e o carinho, eu percebi o quanto estava quebrada.

Porque tudo o que eu queria era um lar.

E o meu havia se transformado num lugar onde até respirar doía.

Os dias foram passando...

Até que um dia, Roberto estava de folga. Eu não sabia que minha mãe ainda não tinha voltado do trabalho.

Quando cheguei, ele estava na sala, assistindo TV.

Passei direto, sem dizer uma palavra, indo para o meu quarto. Fiz minha vistoria de sempre olhando cada canto, como quem procura um fantasma e depois me preparei para tomar banho.

Entrei no banheiro e fechei a porta.

Tomei um banho rápido, como de costume.

Sempre saia vestida, por precaução.

Mas, naquele dia, assim que abri a porta...

Ele estava lá. Parado no corredor.

O olhar fixo em mim, gelado.

Um arrepio percorreu meu corpo inteiro e, pela primeira vez, eu entendi o verdadeiro significado da palavra medo.

Entrei em Pânico e acabei desmaiando...

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