Capítulo 4 Prólogo 1.3 Giovanna Ribeiro

Quando tudo veio à tona, o mundo pareceu desabar dentro da nossa casa.

Minha mãe finalmente sabia quem era o homem com quem dormia todas as noites. Sabia o porquê de eu não conseguir respirar quando ele estava por perto, o porquê de eu me encolher toda vez que ele se aproximava.

Ela me olhou e naquele olhar havia horror, culpa, arrependimento... e algo que doía ainda mais: desespero.

As lágrimas começaram a cair antes mesmo que ela dissesse qualquer palavra.

— Gio... meu Deus... o que ele te fez? — a voz dela saiu trêmula, sufocada.

Eu não consegui responder.

Só chorei.

Ela se ajoelhou diante de mim, as mãos tremendo, o rosto devastado.

— Me perdoa, filha... por favor... — ela soluçava. — Eu fui cega... eu trouxe um monstro pra dentro da nossa casa!

— Mãe... eu tentei te avisar... — minha voz mal saía, rouca, despedaçada. — Eu juro que tentei.

— Eu sei, eu sei... — ela dizia, apertando minhas mãos com força, como se quisesse arrancar a dor de mim. — E eu não te ouvi... Deus, o que eu fiz com você?

Ela encostou a testa nas minhas pernas, chorando como uma criança. E eu, mesmo com o peito em ruínas, não consegui odiá-la.

A dor dela também era minha.

— Ele nunca mais vai te tocar — ela sussurrou, num tom de promessa. — Eu juro, Giovanna, nunca mais.

Aquele dia, fomos à delegacia.

Foram horas de perguntas, exames, palavras que me cortavam como lâminas. Eu respondia o que podia, mas minha mente estava longe. Era como se eu tivesse saído do meu próprio corpo.

Cada luz fria, cada olhar curioso, cada clique de caneta me fazia querer desaparecer. Eu não conseguia sustentar o olhar de ninguém. Sentia vergonha, medo, nojo... como se eu tivesse feito algo errado, mesmo sabendo que não era culpa minha.

Minha mãe permaneceu ao meu lado o tempo todo, calada, chorando baixinho. E pela primeira vez em muito tempo, ela me olhou de verdade. Sem dúvidas, sem negação, sem cegueira. Só com a dor de quem finalmente enxerga, mas tarde demais.

Quando saímos da delegacia, Roberto estava preso.

Não era a primeira vez que isso acontecia. Ele já havia sido denunciado outras duas vezes, mas sempre acabava solto por “bom comportamento”.

Eu me sentia imunda, suja por dentro, sem vontade de viver.

Foi a pior coisa que poderia ter me acontecido. Precisei de acompanhamento psicológico, porque simplesmente… eu não queria mais existir.

Os anos foram passando, e eu tive que tentar reconstruir minha vida. Minha mãe, porém, afundou em uma depressão profunda. Tudo o que ela viveu as decepções, as culpas, o abandono, parecia pesar sobre ela de uma vez só.

Passei a cuidar de tudo: trabalhava, limpava a casa, fazia o possível para manter minha mãe estável.

Até que veio a pior notícia.

Uma amiga da minha mãe a encontrou na rua e contou, quase sem fôlego:

— Ele foi solto... o Roberto está solto.

Minha mãe entrou em desespero. O medo tomou conta da casa. E, infelizmente, ela tinha razão em temer.

Não demorou muito para ele reaparecer.

Na primeira vez, bateu na minha mãe.

Por sorte, os vizinhos viram tudo e chamaram a polícia. Mas, como sempre, ele conseguiu fugir antes de ser preso.

Foi então que minha mãe tomou a decisão mais difícil:

— A gente precisa ir embora daqui. — disse ela, com os olhos marejados. — Se ficarmos, ele vai acabar com a gente. Eu não vou deixar isso acontecer de novo.

Eu sabia que ela estava certa. Sair da cidade significava perder tudo o que tínhamos construído. Mas o que era uma casa comparado à nossa segurança?

Ela comentou que tinha uma irmã que morava em outra cidade, longe o suficiente para que Roberto jamais nos encontrasse.

Conversaram por telefone, e minha tia prontamente nos acolheu.

Viajamos durante a madrugada, em silêncio, com o medo nos acompanhando a cada quilômetro.

Passamos quase doze horas dentro de um ônibus, praticamente só com a roupa do corpo, levando junto o que sobrou: o trauma,

a vergonha e a vontade de recomeçar.

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