Capítulo 5 Capítulo 1.0 Ethan Brassard

Quando vi a Bonnie pela primeira vez, senti algo diferente, algo que ainda não conseguia identificar. Eramos adolescente quBdo nos conhecemos na época, e ela acabou de entrar na escola onde eu estudava.

Aos poucos, fui conhecendo-a melhor e percebi que ela mexia profundamente comigo.

Não havia outras meninas; só ela conseguia tirar meu sono.

Gostava de conversar com ela, admirar a forma como ficava tímida quando estava perto de mim e dos meus primos. Era encantador.

Quando tomei coragem, dei nosso primeiro beijo. Para minha surpresa, ela não apenas aceitou, como pareceu gostar. Minha irmã me aconselhou a ir com calma, dizendo que Bonnie era especial. Eu não queria magoá-la nem fazê-la triste com algo que eu pudesse fazer de errado.

Lembro-me como se fosse hoje daquele primeiro beijo, do nervosismo ao pedi-la em namoro, da vergonha doce que ela sentiu, e das tardes assistindo filmes juntos. Ela sempre foi atenciosa, carinhosa, e quase tudo que fazíamos, fazíamos juntos.

Com o passar dos anos, nosso namoro se tornou cada vez mais sério. Nunca tocamos no assunto casamento, por sermos muito jovens, mas tínhamos sonhos de viajar juntos, descobrir o mundo e viver aventuras. Bonnie sonhava em fazer uma excursão pelos redor do mundo, e adorei a ideia, desde que fizéssemos tudo juntos. Assim que completamos 18 anos, começamos a planejar essa viagem, estudando idiomas nativos para aproveitar ao máximo cada destino.

Hoje chamei a Bonnie para sairmos só nós dois. Queria fazer uma surpresa. Já faz três anos que estamos namorando, e nosso relacionamento se tornou sério. Com a ajuda do meu pai, comprei um anel de compromisso. Vou pedi-la em casamento. Sei que somos jovens, mas quero mostrar a ela que penso em nós a longo prazo. Ainda teremos tempo para o casamento, mas nossas vidas já estão cheias de planos juntos.

Dois meses atrás, não conseguimos esperar mais e tivemos nossa primeira vez. Conversei com meu pai antes, e ele apenas me aconselhou a nos prevenir, já que ainda éramos jovens. Bonnie disse que falaria com a mãe dela para começar a tomar anticoncepcional. O que eu não sabia era que, depois da nossa primeira vez, ela me confessou que ainda não estava tomando o remédio, porque não tinha coragem de falar com a mãe. Sugeri que ela falasse com a minha mãe ou com uma das minhas irmãs, para não se sentir tão sozinha, mas ela relutou. Teimosa como sempre, decidiu comprar o remédio do dia seguinte por conta própria. Eu não estava confiante, mas ela fez do jeito dela, determinada a não deixar nada atrapalhar nossas decisões.

Eu só não esperava descobrir hoje que Bonnie estava grávida.

Mas esse nem era o verdadeiro problema. O pior era o estado em que ela se encontrava, histérica, fora de si. Tive que levá-la para longe da lanchonete onde havíamos parado, tentando fazê-la respirar, entender o que estava acontecendo.

Nunca imaginei que ela reagiria assim por causa de uma gravidez. Nós sabíamos que isso podia acontecer. Tínhamos conversado, combinado… se ela tivesse seguido o plano, nada disso estaria acontecendo.

— Eu não sei o que fazer, Ethan! Meus pais vão me matar! — Bonnie gritava, a voz embargada pelo desespero. Ela tremia, os olhos vermelhos, como se estivesse diante do fim do mundo.

— Calma, meu amor, a gente vai resolver isso — tentei dizer, segurando suas mãos frias.

— Vamos conversar com seus pais, juntos. Não fica assim, você pode prejudicar o bebê…

— Eu não quero ficar grávida, Ethan! — ela gritou mais alto, empurrando minhas mãos. — Eu sou nova demais! Eu tenho uma vida pela frente! Eu devia ter tomado o remédio duas vezes, era pra ter tomado! — ela soluçava, descontrolada. — Eu não quero esse bebê!

Meu peito doía com cada palavra. Eu nunca a tinha visto assim. A Bonnie doce, calma, estava completamente tomada pelo pânico.

— Bonnie… por favor, tenta respirar — falei, me aproximando. — Já aconteceu, meu amor. Agora a gente precisa pensar com calma, encontrar um jeito, tudo bem? Eu tô com você…

Mas, antes que eu pudesse abraçá-la, ela começou a me empurrar, a me bater com força.

— Eu te odeio, Ethan! — gritou, as lágrimas caindo sem controle. — Eu te odeio! Eu não quero esse bebê! Eu prefiro morrer!

— Bonnie! Não fala isso! — tentei segurar seus braços, desesperado. — Me ouve, por favor!

Mas ela se desvencilhou de mim e saiu correndo.

— Bonnie! Espera! — gritei, o coração acelerado. — Não faz isso, pelo amor de Deus, volta aqui!

Foi tudo muito rápido.

Um farol, um freio, o som estridente de pneus no asfalto… E o corpo dela voando diante dos meus olhos.

O mundo parou.

Corri até ela, sem sentir minhas pernas. Bonnie estava caída do outro lado da pista, imóvel, o rosto pálido, o corpo frágil.

— Não, não, não… — murmurei, caindo de joelhos ao lado dela. — Bonnie, fala comigo, por favor! — minhas mãos tremiam enquanto eu tentava acordá-la. — Não faz isso comigo, meu amor… acorda! Por favor, acorda!

Ninguém me ouvia, o barulho ao redor era distante. Só o som da minha voz e o silêncio dela.

— Eu te amo, Bonnie… me ouve, por favor… fica comigo! — implorei, com lágrimas escorrendo sem controle.

A ambulância chegou. Alguém me puxou, mas eu não conseguia soltar o corpo dela. Senti braços me afastando à força, e tudo o que consegui foi chorar, gritar o nome dela enquanto a colocavam na maca.

Não sei quanto tempo se passou. Só lembro do sangue, do cheiro de asfalto, e da sensação de que algo dentro de mim tinha morrido junto com aquele impacto.

Liguei para o meu pai.

A voz falhou.

Contei apenas onde eu estava.

Quando ele chegou ao hospital, eu estava sentado no corredor, pálido, as mãos tremendo, o olhar perdido.

— Filho… o que aconteceu? — perguntou, ofegante.

Eu apenas o abracei, forte, como se tentasse me segurar em algo real. As lágrimas voltaram com força.

— Pai… — consegui dizer, a voz falhando. — A Bonnie… aconteceu uma coisa horrível…

Ele me olhou nos olhos, e naquele instante, eu soube que nada voltaria a ser o mesmo.

— Pai, deu tudo errado... Eu estava com a Bonnie, e ela descobriu que está grávida. Começou a brigar comigo, dizendo que não queria esse bebê. Eu juro, pai, que tentei acalmá-la, mas ela estava diferente... agressiva, fora de si. Gritava o tempo todo que não queria estar grávida. Eu tentei, pai, juro que tentei, mas ela saiu correndo... e quando alcancei... ela já estava caída no chão. Pai, eu não quero que ela morra... eu não posso perder ela... — confesso com a voz embargada, sentindo uma dor que rasga por dentro. Eu só queria a minha Bonnie viva…

— Calma, meu filho, vamos esperar o médico chegar. Tudo vai ficar bem... — meu pai diz, mas não consigo acreditar. As palavras dele soam distantes, vazias.

Não sei quanto tempo se passou. Meus sogros chegaram acompanhados da minha mãe. Meu pai explica por alto o que aconteceu, e ficamos todos ali, presos na espera de uma notícia que parece nunca vir. Quando penso em ir atrás do médico, ele surge chamando pela família da Bonnie.

Nesse momento, eu travo.

Meu pai e meu sogro se aproximam, fazem as perguntas que eu não consigo formular. E então, recebo a pior notícia da minha vida.

Bonnie não resistiu.

Depois disso... tudo se apaga.

O som, as vozes, o mundo... tudo vira um breu.

— Bonnie! — grito ao acordar.

Mais uma vez, o mesmo

pesadelo.

O mesmo dia me persegue há três anos.

Olho ao redor e percebo que estou no meu apartamento. Três anos desde a tragédia... desde que perdi o amor da minha vida e o nosso filho.

Meu peito dói como se fosse ontem.

Tento acalmar o coração e estou todo suado e vou direto para o chuveiro. Preciso de um banho gelado. Às vezes, ainda sonho com ela... e isso está acabando comigo. 

Saí até do condomínio onde meus pais moram, mas nada adianta. 

Tudo, absolutamente tudo, me lembra a Bonnie.

Depois do banho, sento-me na cama, ainda com a toalha na cintura. Abro a gaveta e pego a pequena caixa de veludo. Dentro, o anel de compromisso que eu havia comprado pra ela. Ninguém mais vai ter nada meu. Nem mesmo um filho.

Após o acidente, entrei em colapso. Minha vida acabou ali. Sem meus pais saberem, procurei um médico e fiz uma vasectomia. Ele tentou me dissuadir, disse que eu era jovem demais, que poderia me arrepender... mas eu já tinha decidido. Paguei o que fosse preciso para que ele fizesse. Não queria mais nada. Nenhum risco, nenhum recomeço.

Desde então, minha vida é vazia. 

Não tenho paciência para relacionamentos. Quando quero uma mulher, eu pago. Sacio o desejo e pronto. Nada de envolvimento, nada de apego.

Às vezes, até acabo ficando com alguém em alguma festa, mas é raro. Não tenho paciência para preliminares, nem para promessas. Eu só quero esquecer e, no fundo, sei que nunca vou conseguir.

Me tornei frio depois da morte da Bonnie.

Os únicos que ainda conseguem arrancar um sorriso de mim são meus sobrinhos a única alegria que ainda me permito sentir. 

Nem mesmo sair com minhas irmãs ou a família eu consigo mais. Tudo me lembra ela... de como estávamos sempre juntos, de como a vida parecia ter sentido quando ela estava ao meu lado.

Acho que encontrei o meu próprio mundo um lugar gelado, silencioso, onde as palavras perderam o valor e o riso virou um luxo.

Hoje, falo o mínimo possível, até mesmo com a minha família. Infelizmente, foi nesse homem que me transformei depois que a perdi.

Esse sou eu agora: Ethan Bellerose Brassard, CEO da TechnoTrends, o homem que aprendeu a viver sem sentir.

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