Capítulo 6 Capítulo 2.0 Giovanna Ribeiro
Chegamos à cidade onde minha tia mora já era noite. Estávamos exaustas, física e psicologicamente, tristes por deixar tudo que tínhamos para trás. A sensação era de estar fugindo, como se fôssemos as culpadas, as vilãs da história por termos que escapar de um ser humano tão sujo.
Minha mãe disse que entraria em contato com uma imobiliária para vender o apartamento, assim não ficaríamos sem dinheiro. No meu trabalho, meu chefe não entendeu nada quando pedi a demissão. Tive que inventar uma história para que ele liberasse os dias que ainda me restavam, além de instruir que, se alguém perguntasse, mantivéssemos a mesma versão. Eu tinha pouco dinheiro na conta, e não poderíamos sobrecarregar minha tia, que já estava fazendo um favor imenso nos acolhendo em sua casa.
A casa era linda, com um estilo rústico e muito acolhedor. Eles viviam muito bem. Eu tinha mais três primos, o que me deixou animada finalmente não seria a única jovem na família.
O mais velho, Daniel, já estava noivo e em breve se casaria com Joice, uma pessoa que gostei muito de conhecer; ela me tratou com tanto carinho. O do meio, Danilo, dizia que nunca se casaria, que ainda era jovem e adorava a vida que levava. A caçula, Daiane, tinha a minha idade, 20 anos, mas parecia mais madura que eu.
Todos nos acolheram de forma calorosa e compreensiva. Contamos a eles tudo que havia acontecido, o motivo da nossa chegada.
O esposo da minha tia, um delegado aposentado, garantiu que estaríamos protegidas ali. Caso o Roberto tentasse nos encontrar, ele daria um jeito de prendê-lo para que não saísse mais, pois tinha os contatos certos para isso.
Foi naquele momento que comecei a sentir que tudo poderia mudar para melhor. Uma ponta de esperança começou a surgir.
Casa nova, vida nova. Eu já procurava trabalho, e minha mãe conseguiu emprego na doceria da minha tia, que também tinha uma pequena fábrica. Nossas vidas finalmente começavam a seguir um caminho mais tranquilo, mais animado, aproveitando momentos só nossos.
Meus primos sempre alegres me incluíam em tudo: saídas, passeios, resenhas. Eu me mantinha contida, ainda receosa, pois não tinha muitos amigos e tinha medo de me abrir. Desde que saí da minha cidade natal, o desconhecido me assustava. Mas com eles, sentia que poderia começar a me sentir em casa.
Minha mãe estava com outro ar, nem parecia aquela mulher depressiva que chegou aqui. Acredito que estar perto da irmã a ajudou bastante. Já saía com minha tia para passeios, e aos poucos o brilho nos olhos dela começava a voltar e, sinceramente, também parecia iluminar a mim.
Depois da venda do nosso apartamento, conseguimos um bom dinheiro. Minha mãe quis ajudar a tia, mas ela recusou, dizendo que não precisava. Foi então que minha tia contou que uma amiga tinha uma casa à venda, bem na mesma rua, o que seria ótimo, assim não ficaríamos longe uma da outra.
Fomos conhecer a casa, e me apaixonei imediatamente. Era perfeita, do jeito que minha mãe sempre sonhara: não muito grande, duas salas, cozinha com conceito aberto, três quartos com suítes, um banheiro no corredor e um jardim no fundo. Conversamos e o esposo da minha tia nos ajudou a regularizar toda a documentação.
Finalmente tínhamos nossa própria casinha. A antiga dona se mudaria para longe e não levaria muitos móveis, deixando alguns para nós. Perfeito. Com o passar dos meses, poderíamos decorar e deixar tudo com a nossa cara assim que eu começasse a trabalhar.
Já estávamos instaladas quando recebi a noticia que teria uma entrevista na segunda-feira. Foi uma amiga da minha tia quem conseguiu para mim uma vaga como recepcionista no empresarial. Eu estava empolgada!
Na sexta-feira, meus primos quase me arrastaram para uma boate que estava super em alta. Eles tinham ganhado entradas do irmão da Joice, que ia comemorar o aniversário bem playboy, pode acreditar!
No começo, tentei resistir:
— Ah, não sei se quero ir… — disse, cruzando os braços.
Mas Joice não deixou:
— Você faz parte da família, Giovanna! — falou com aquele tom firme de quem não aceita um “não” como resposta. — Precisa se divertir, conhecer gente nova, se soltar… e quem sabe beijar uns carinhas?
Suspirei. “Será que eu conto ou deixo ela na expectativa de que ainda sou Bv?” pensei, e decidi deixá-la curiosa. Melhor assim!
Desde que comecei a trabalhar, meu estilo mudou um pouco. Crescer exige parecer mais responsável, então investi em roupas novas, e até em alguns saltos algo que raramente uso, para ser honesta.
Dona Daiane, claro, não perde uma chance de me encher:
— Giovanna, esse vestido tem a sua cara! — dizia, segurando roupas como se estivesse tentando me hipnotizar.
Minha tia suspira, rindo:
— Ela só faz isso para convencer o pai a liberar mais grana para ela comprar mais roupas.
Balancei a cabeça, sorrindo, mas não pude evitar sentir gratidão. Meu guarda-roupa até então era bem limitado, e aquelas roupas novas me faziam sentir… diferente, especial. Talvez, finalmente, eu estivesse pronta para a noite que me esperava.
Deixei meus cabelos crescerem, agora eles batem logo acima da cintura. Estão pretos, ondulados e, embora deem um pouquinho de trabalho, nada que uma boa escova não resolva!
Hoje eu sairia com a turma, e Daiane tinha me presenteado com um vestido preto maravilhoso. A parte de trás era trançada, moldando sutilmente as minhas curvas. Escolhi um salto baixinho conforto em primeiro lugar e já havia hidratado os cabelos. Eles estavam lindos, macios e cheirosos, exatamente do jeito que eu gosto.
Peguei uma bolsa, coloquei um gloss, celular e carteira, nada de sair desprevenida! Nunca fui muito de usar batons coloridos; no máximo, um tom clarinho.
Me olhei no espelho e gostei do resultado. Nem tive tempo de admirar muito, porque Daniel já estava buzinando lá fora, me apressando. Apenas borrifei meu perfume favorito e fui em direção à sala.
Quando minha mãe me viu, os olhos dela brilharam.
— Você está ainda mais linda, minha filha! — disse, com um sorriso orgulhoso que me deixou toda sem graça.
— Obrigada, mãezinha.
— Agora vá, antes que o Daniel desperte a ira da vizinhança com essa buzina irritante! Aproveite a noite, filha! — brincou.
— Farei isso, mãe. E não se preocupe, estou levando a chave! — avisei, para que ela não ficasse me esperando até tarde.
Saí de casa e logo começaram os elogios, que só serviram para me deixar mais envergonhada.
— Hoje só se permita, prima! Você está ainda mais linda! — disse Daiane, toda empolgada.
— Tenho que concordar! — Danilo completou, provocando.
— Obrigada, mas parem com isso ou eu volto pra casa! — reclamei, tentando conter o sorriso.
— Só vamos passar na casa da Joice pra buscá-la e seguimos pra boate! — anunciou Daniel, o mais centrado de todos nós.
