Capítulo 8 Capítulo 3.0 Ethan Brassard

Meu dia não começou bem.

Minha secretária não me avisou sobre uma reunião importante, uma daquelas que podem revolucionar nossa tecnologia. Eu estava em alerta total, e quase perdi a cabeça. Fui salvo porque minha irmã Olívia iria participar dessa reunião e, antes mesmo de eu perceber, ela me mandou uma mensagem perguntando onde eu estava.

Finalize a reunião com o setor jurídico e saí da minha sala direto para a sala de reuniões, fervendo de raiva. Não era a primeira vez que ela errava comigo. Dois compromissos marcados praticamente ao mesmo tempo, bagunçando minha agenda… isso eu não admito. Errar uma vez até relevei e apenas chamei atenção, mas agora?

Agora, a incompetência seria paga. Eu não poderia ter uma secretária assim! Consegui resolver a questão da reunião, apesar de toda a bagunça que ela causou. Ainda assim, tentei manter a calma na frente da minha irmã, que observava cada gesto meu durante toda a reunião.

Quando cheguei à minha sala, minha secretária estava com o semblante claramente assustado, pelo menos percebeu a gravidade do erro. Nem cheguei a me sentar quando Olívia entrou sem cerimônia e se sentou em frente a mim, me analisando com aquele olhar curioso e perspicaz.

— Ethan, o que está acontecendo? Você não parece bem… — disse ela, com preocupação.

Eu sei que às vezes sou egoísta e não gosto de mostrar meus sentimentos, mas não queria deixá-la preocupada. A verdade é que, depois do pesadelo com a Bonnie naquela madrugada, não consegui pregar o olho, e tudo voltou à minha mente como se fosse ontem.

— Não está acontecendo nada. Só o normal. — falei por cima, tentando parecer indiferente, mas sabia que ela não desistiria fácil.

— Irmão, por que não vamos almoçar na casa da mamãe? Garanto que dona Maya ficaria feliz em ver o caçulinha dela. — Olívia sorriu, fazendo graça para quebrar o clima.

— Não posso. Tenho um almoço de negócios com um dos nossos advogados. Assunto sério e urgente.

— Ethan, você precisa sair dessa bolha! Estamos sentindo muito a sua falta, cacete! — ela falou firme, quase me arrancando do lugar. — Não percebe que esse luto que você carrega já sugou demais de você? Até os pais dela estão tentando viver. E você… você fica aí, jogado no canto, com a vida parada, só trabalhando e nada mais!

Suas palavras me irritaram, mas não consegui rebater. Havia uma verdade incômoda nelas, e eu sabia.

— Olívia, eu não estou de luto! — gritei, a voz saindo mais alta do que eu pretendia. — Estou vivendo a minha vida da forma que acredito ser o melhor. Agora pare de se meter na minha vida e cuide da sua! Ela ficou me olhando, espantada. Nunca tinha ouvido eu falar assim com ela.

— Não venha dizer que não está, porque você está, sim! — retrucou com firmeza, sem baixar o tom. — Parece que no dia em que enterramos a Bonnie, enterramos você também! Porque esse homem que está aí... — ela apontou para mim, os olhos marejados — …não é o meu irmão. E não adianta levantar a voz, porque eu te amo, e vou lutar quantas vezes forem necessárias para te trazer de volta à vida!

Engoli em seco, mas ela continuou, sem me dar tempo de reagir:

— Você vive há três anos como um morto-vivo, Ethan! Até uma múmia é mais viva que você! Nós te amamos, e todos estamos preocupados! Não percebe que essa distância, esse isolamento, só está te destruindo?

Cada palavra dela me cortava como uma lâmina. E quanto mais verdade havia nelas, mais raiva eu sentia.

— Você não sabe o que está falando, Olívia. — respondi, gelado, tentando manter o controle. — Agora, se me permite, preciso trabalhar.

Ela me encarou por alguns segundos, respirou fundo e, antes de sair, disse:

— Eu só queria que aparecesse uma mulher capaz de colocar um pouco de brilho nesses seus olhos outra vez…

E saiu, batendo a porta com força.

Que merda. Lá vinham de novo as cobranças. Já estava até demorando.

Fui até o banheiro, joguei água fria no rosto, tentando aliviar a irritação e clarear a mente. Eu precisava focar.

Antes de encerrar o expediente, chamei minha secretária. Já havia acionado o RH para buscar uma substituta, mas precisava encerrar esse assunto pessoalmente. Ela entrou, nervosa, parando diante da minha mesa.

— Senhorita, sabe o motivo pelo qual a chamei? — perguntei, em tom neutro, quase cortante.

— Sim, senhor Ethan — respondeu, sem me encarar.

— Você cometeu um erro grave. Eu até relevei da última vez, mas hoje… hoje foi longe demais. Por sua falta de atenção, quase perdi uma negociação que venho acompanhando há dias. E eu não posso aceitar isso. Está dispensada.

— Senhor, eu prometo que isso não vai se repetir. Por favor, me dê mais uma chance.

— Não — cortei, firme. — A sua demissão não está em discussão. Pode ir. Boa sorte.

Ela respirou fundo e, pela primeira vez, ergueu o olhar para mim.

— Todo mundo pode errar, senhor. Prometo que não acontecerá novamente. O senhor sequer quer saber o porquê disso ter acontecido? Eu sou um ser humano, não um robô. Espero que um dia o senhor aprenda com os próprios erros… e entenda que nem sempre julgar sem dar o benefício da dúvida é o caminho certo.

E saiu, com passos firmes, deixando-me sozinho com a consciência pesada e a irritação latejando na têmpora. “Agora essa”, pensei, massageando a cabeça. Eu já tinha dado uma chance. Não estou aqui para brincar isso é uma empresa, não um parque.

Peguei minhas coisas e desci até a garagem. A dor de cabeça estava piorando. Quando o celular vibrou, o nome da minha mãe brilhou na tela. Suspirei antes de atender.

Ligação online!

— Filho, como você está? Estou com saudades! — minha mãe sempre começa assim, como se quisesse arrancar um sorriso mesmo à distância.

— Oi, mãe, estou bem! E a senhora, como está? Também estou com saudades — respondi, ouvindo-a suspirar do outro lado da linha.

— Filho, vem jantar aqui em casa, não aguento passar tanto tempo sem te ver — ela disse, e eu engoli um nó que se formou na minha garganta.

— Mãe, a senh—

— Filho, só vem! Vou te esperar para jantarmos juntos — ela me interrompeu, desligando sem me dar chance de responder.

Fechei os olhos com força.

O peso da distância, de fazer eles sofrerem por eu me manter afastado, me apertava o peito. Respirei fundo e tomei uma decisão: eu iria até eles.

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