Capítulo 1

— Não vamos aprovar esse reembolso.

O ar-condicionado do escritório financeiro na filial de Los Angeles estava no máximo.

A diretora Linda tamborilou um dedo com esmalte vermelho-vivo sobre um recibo e, em seguida, empurrou-o de volta na minha direção, por cima da mesa, como se fosse lixo.

Era um itinerário de passagem aérea de mil dólares.

Eu estava de pé diante da mesa dela, e o cansaço de quatro dias seguidos de trabalho ininterrupto foi reduzido pela metade num instante diante do absurdo daquilo.

Franzi a testa e encarei Linda.

— O cliente mudou o local da reunião em cima da hora, o que me deixou preso na freeway e fez eu perder o voo original. Para não atrasar o cronograma da cadeia de suprimentos na manhã seguinte, paguei do meu próprio bolso o próximo voo disponível. Tudo foi enviado corretamente pelo sistema de viagens. Com base em quê isso está sendo negado?

— Com base em quê? — Linda se recostou na cadeira de couro, entrelaçou os dedos e curvou os lábios num sorriso de deboche. — Porque a sua atitude no trabalho é o problema.

Não respondi. Meu olhar esfriou enquanto eu a via encenar aquele teatrinho.

Todo mundo no escritório sabia o que significava quando um colega dizia que você tinha “problema de atitude”.

Significava que estavam procurando um jeito de te perseguir.

Sob meu olhar firme, indecifrável, Linda pareceu sentir um lampejo de pressão. Ela ergueu a voz para disfarçar.

— Ethan, você não precisa me olhar desse jeito! Se o cliente se atrasou, isso é problema do cliente. Mas se você perdeu o voo, isso significa que seu cronograma foi mal planejado e que sua atitude com o trabalho não foi séria o suficiente. Do contrário, como é que você teria perdido?

— Então o que você está dizendo é que eu deveria ter passado a noite sentado no aeroporto de Dallas e, então, perdido a auditoria na fábrica na manhã seguinte — a mesma que poderia ter rendido um lucro enorme para a empresa — só para economizar o custo de uma passagem? — Minha voz não estava alta, mas eu falei rápido, cada ponto afiado e preciso.

— Não distorça a questão! — Linda retrucou. Ela agarrou a pasta sobre a mesa e a jogou para o lado com força. — Não pense que, só porque você é um gerente sênior de negócios, pode gastar o dinheiro da empresa como bem entender. O financeiro tem regras. Esse atraso foi causado pela sua própria negligência, então você vai pagar do próprio bolso. Sinceramente, mesmo que isso suba de instância, eu ainda estaria certa. Já passou da hora de alguém ensinar uma lição a um sujeito cheio de si como você.

Uma lição.

Ouvir aquelas palavras saindo da boca de uma contadora obcecada por centavos era, ao mesmo tempo, risível e irritante.

Eles não queriam gente que realmente resolvesse as coisas. Queriam funcionários que obedecessem sem questionar e que pudessem ser consumidos como material de escritório.

Olhei para o rosto duro e maldoso dela e não perdi a cabeça nem implorei como outros funcionários teriam feito.

Só gente fraca despeja as próprias emoções.

Eu fiz uma coisa só. Peguei o itinerário, dobrei-o com cuidado e o enfiei no bolso interno do paletó.

— Então essa é a sua lição. — Olhei para ela com frieza. — Ótimo. Vou relatar tudo exatamente como aconteceu ao Richard. Vamos ver como o chefe avalia o custo dessa “lição”.

Dito isso, virei as costas e saí do financeiro, deixando para trás o resmungo furioso da Linda, abafado pela porta de vidro.

O escritório particular do CEO, Richard Davis, ficava no fim do corredor.

Quando se tratava de parasitas de escritório como a Linda, o melhor jeito de lidar com eles era esmagá-los com o poder que vinha de cima.

Segui a passos firmes pelo corredor. Mas, quando eu estava a apenas cinco passos da sala do chefe, o celular no bolso da calça começou a vibrar de repente, num impulso agudo e urgente.

Era o alerta especial que eu tinha configurado para aquele “cliente grande” de primeira linha.

Parei e puxei o aparelho. Um e-mail seguro de um fornecedor multinacional piscou na tela:

“Ethan, terminamos de confirmar os dados de capacidade de produção da linha de montagem a montante. Estamos prontos para avançar com a confirmação final de intenção a qualquer momento.”

No instante em que li aquela frase, minha mão — que já alcançava a porta — parou no ar.

Esse projeto era o resultado de um mês inteiro de viagens sem dormir, visitas a fábricas, pesquisas de mercado e construção de relacionamento ao longo de toda a cadeia de suprimentos.

Assim que a carta de intenções fosse assinada e o contrato entrasse em vigor, eu, como responsável principal pelo negócio, receberia 40% da comissão prevista no acordo.

Dois milhões de dólares.

Parado à sombra do corredor, percebi minha mente estranhamente lúcida, apesar do cansaço que me moía até os ossos.

Se eu entrasse agora e discutisse com o Richard por causa de uma passagem de avião de mil dólares, então, conhecendo a natureza gananciosa e míope dele — e o quanto ele detestava funcionários “criando problema” em momentos críticos —, provavelmente ele não culparia a Linda em nada. Pior: concluiria que eu estava fazendo tempestade em copo d’água e que não enxergava o quadro geral.

E, mais grave ainda, uma vez criada essa impressão negativa, havia uma chance bem real de ele usar “instabilidade emocional” como desculpa para interferir no meu controle do projeto antes que o cliente de dois milhões estivesse totalmente garantido. Talvez até colocasse alguém na conta para me vigiar.

Ninguém sabia se aproveitar do caos melhor do que o capital.

Ergui a cabeça e, pela fresta das persianas, observei a silhueta difusa do Richard atrás do vidro fosco.

Ele estava sentado, tranquilamente, fumando um charuto.

Devagar, puxei a mão de volta da maçaneta.

Mil dólares de orgulho, ou o controle total de dois milhões.

Fechei os olhos e inspirei fundo.

O recibo no bolso interno do meu paletó parecia irradiar calor.

— Aproveite enquanto dura — murmurei.

Então me virei, dei as costas ao escritório do chefe sem pensar duas vezes e fui direto para o departamento de vendas.

Por esse dinheiro, eu podia deixar passar.

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