Capítulo 2
Por fim, a extenuante viagem de negócios de quatorze dias tinha acabado.
Em apenas duas semanas, eu e minha equipe usamos táticas de negociação brutalmente agressivas para arrancar de toda a cadeia de suprimentos uma redução de quinze por cento em relação ao preço mínimo deles.
A carta de intenções assinada já estava trancada dentro da minha maleta.
Aquele cheque de comissão de dois milhões de dólares agora estava a apenas um último processo interno de pagamento de distância.
Afrouxei a gravata e peguei uma xícara de café preto recém-passado.
Antes mesmo de conseguir dar um gole, a porta de vidro do departamento de vendas se escancarou.
— Pessoal, larguem o que estiverem fazendo e deem as boas-vindas ao astro da empresa!
O CEO, Richard Davis, entrou a passos largos, segurando o charuto que parecia nunca estar disposto a acender de verdade.
Seu rosto exibia um sorriso exagerado, e atrás dele vinha um homem num terno azul-claríssimo feito sob medida, o cabelo lambido de tanto gel que brilhava.
Mason Collins.
Richard veio direto até a minha mesa e largou, ao lado do meu teclado, um sanduíche de posto de gasolina ainda embalado.
— Ethan, você trabalhou duro nessas últimas duas semanas. Pedi para alguém pegar um café da manhã pra você. — Richard deu um tapão pesado no meu ombro, forte o bastante para parecer de propósito. — Li seu relatório. Trabalho excelente. Mas…
Ele mudou o tom no meio da frase e, deliberadamente, elevou a voz para que todos no escritório aberto ouvissem.
— Considerando que este projeto está prestes a escalar exponencialmente e, para aliviar sua carga de trabalho, decidi promover o Mason a gerente de projeto. A partir de hoje, ele vai trabalhar ao seu lado na liderança do núcleo do negócio deste projeto!
O ar congelou.
Ao nosso redor, dedos pararam de digitar enquanto colegas olhavam, incrédulos, de um para o outro, entre Mason e eu.
Todo mundo sabia o que “trabalhar ao seu lado” significava no ambiente corporativo.
Significava dividir autoridade — ou tirar a sua.
E Mason era um contratado a dedo que estava na empresa havia menos de três meses e ainda não tinha fechado nem um pedido decente.
Eu não olhei para o sanduíche patético e não demonstrei raiva nenhuma.
Só me recostei na cadeira, entrelacei as mãos e encarei Richard.
— Trabalhar ao meu lado? — Meu tom era calmo, mas, no silêncio do escritório, cada palavra caiu como uma pancada. — Richard, você sabe muito bem que aqueles fornecedores de Dallas só seguem o cronograma que eu montei. O Mason não consegue nem reconhecer metade dos códigos de peça deles. Então o que exatamente ele vai fazer? Servir meu café?
O sorriso no rosto de Richard ficou duro.
Era claro que ele não esperava que eu retrucasse tão diretamente na frente de todo mundo.
— Ethan, não seja hostil. — Richard franziu a testa. — Nós somos uma família. O Mason tem ótimas habilidades interpessoais. Ele pode te ajudar a lidar com boa parte daquela coordenação bagunçada entre departamentos e com o trabalho de relacionamento com a alta gestão. Você precisa pensar maior!
Depois de dizer isso, ele evitou meu olhar e se virou, indo em direção ao próprio escritório.
Só quando Richard sumiu é que a diretora de Operações, Sarah Jenkins, ergueu os óculos de armação preta e correu até a minha mesa.
—Ethan, você enlouqueceu? O Richard está cortando uma fatia da sua torta bem na frente de todo mundo. —Baixando a voz, Sarah me entregou um relatório de dados e murmurou por trás do documento: — Enquanto você esteve fora nessas últimas duas semanas, o Mason ficou no gabinete do chefe todos os dias. Cuidado. Aquele cara é um abutre.
—Eu sei. —Dei uma olhada no relatório e soltei um resmungo frio. —Mas, enquanto eu controlar os fornecedores, ele não passa de enfeite.
Foi então que uma nuvem forte de colônia chegou até mim.
Mason se aproximou com um sorriso colado no rosto. Portava-se com uma humildade ensaiada; chegou a puxar uma cadeira por conta própria e se sentou ao meu lado, levemente curvado.
—Ethan, eu entendo como você está se sentindo agora. —Mason baixou a voz, num tom de confidência. —Sinceramente, eu bati de frente quando o Richard tocou nesse assunto mais cedo no escritório. Eu sei o meu lugar. Você quase se matou para fechar esse acordo. Que direito eu tenho de ser gerente?
Olhei para a expressão humilde dele e não disse nada, esperando o resto.
—Eu só estou aqui para te apoiar. Arquivar papelada, fazer recados, montar apresentações… deixa todo o trabalho sujo comigo. —Mason esfregou as mãos e sorriu como um recém-contratado ansioso para aprender. —Vou precisar da sua orientação daqui para frente. Você fica com a carne; se no fim sobrar um caldinho para mim, eu já vou ser mais do que grato.
Não havia nada, à primeira vista, de errado na forma como ele se colocava por baixo.
Para alguém como eu, que valorizava a eficiência acima de tudo, se ele realmente estivesse satisfeito em ser um assistente glorificado, cuidando do trabalho braçal, então não seria impossível tolerá-lo.
—Se você quer mesmo aprender —eu disse, abrindo a gaveta da mesa e puxando uma pilha grossa de formulários de reembolso de viagem—, então comece ajudando a equipe.
Naquela pilha, misturados aos altos gastos de hotel e entretenimento das últimas duas semanas, o documento bem no topo era o mesmo reembolso de passagem de mil dólares que a Linda, do Financeiro, tinha rejeitado de má-fé ontem.
Eu estava prestes a me levantar e ir eu mesmo ao Financeiro para pressionar a Linda quando Mason foi rápido e pressionou uma mão sobre a pilha.
—Ethan, se você for ao Financeiro, vai acabar discutindo com a Linda. Isso só vai deixar tudo mais feio. —Mason pegou a papelada com naturalidade, trazendo para si, e bateu de leve no próprio peito. —Deixa essa coisinha comigo. Eu e a Linda nos damos muito bem. Eu mesmo vou conseguir o reembolso para você e vou garantir que cada centavo caia na sua conta. Vai cuidar do cronograma —é isso que mais importa.
Fitei-o por alguns segundos.
No mínimo, qualquer um disposto a assumir voluntariamente o trabalho sujo de lidar com o asqueroso Financeiro merecia uma pequena melhora na minha opinião, naquele momento.
Um líder precisava mesmo de subordinados especificamente para lidar com tarefas desagradáveis.
—Tá bom. —Eu cedi e disse, seco. —Só não esquece: nenhum dado central do projeto sai daqui, e nada é visto sem a minha autorização.
—Com certeza, entendido! —respondeu Mason. Em seguida, ele se virou e foi em direção ao Financeiro com a pilha de documentos nos braços.
