Capítulo 5: Invocação repentina
Na manhã seguinte, ocupei-me cumprindo minhas funções de Gamma no campo de treinamento. Fui recebida pelo som de aço se chocando, guerreiros duelando enchendo o ar, enquanto outros se preparavam para o treino fazendo escalada em rocha. Depois, ajudei a ajustar a tira do cinto de segurança de um dos guerreiros da matilha e ensinei como fazer aquilo de um jeito melhor.
Como eu ainda estava de férias e não conseguia decidir o que faria nos próximos dias, tinha resolvido ajudar no treinamento. Não só por isso, mas também para me distrair.
Era difícil esquecer o que eu tinha presenciado entre Redmund e Lilith. Até agora, eu ainda sentia a amargura roendo por dentro, inclusive por ter dormido com o Comandante Lucretius.
Pelo canto do olho, vi o Alfa Derrick parado perto do campo de treinamento, braços cruzados enquanto observava o progresso dos guerreiros. A presença dele era calma, mas ao mesmo tempo imponente. Ele era uma das pessoas que eu mais respeitava.
Se não fosse por ele ter aprovado a entrada de algumas mulheres aqui na guarda real, eu não estaria nessa posição. Ele também admirava a Comandante Rachelle Simon pela coragem, o que o levou a finalmente promover algumas mulheres a Gamma também.
Quando me aproximei, ele se virou para mim, e os olhos afiados suavizaram ao me reconhecer.
— Saudações, Alfa — cumprimentei, fazendo uma reverência.
— Euphyllia. — Ele inclinou a cabeça, me reconhecendo.
— O que o traz aqui, Alfa? — perguntei educadamente. Pelo que eu sabia, ele estava resolvendo alguns assuntos na cidade com o nosso Beta.
Não que eu fosse julgar o motivo de ele ter vindo ao campo de treinamento, mas eu tinha a sensação de que ele não apareceria ali sem motivo. Notei que o Beta Rocco não estava com ele. Talvez tivesse alguma outra tarefa, o que fez o Alfa vir pessoalmente.
Ele me analisou por um instante antes de falar:
— Dois assuntos. Primeiro: as patrulhas encontraram rastros recentes de renegados perto da serra leste. Quero a sua avaliação. Você sempre teve um bom olho pra esse tipo de coisa.
Endireitei a postura, sentindo-me honrada com o que ele dissera.
— Vou verificar isso imediatamente. Se eles estiverem perto, não podemos correr o risco de eles darem a volta.
Eu sabia que vinha me sentindo em baixa ultimamente, mas, com o Alfa Derrick pedindo a minha opinião, senti-me energizada e respondi sem hesitar. Ser uma guardiã tática tinha sido um ótimo investimento.
O Alfa Derrick assentiu, satisfeito com a minha resposta, mas então a expressão dele mudou. Dessa vez, pareceu mais pesada e cautelosa.
— O segundo assunto é… menos simples. — Ele enfiou a mão no bolso interno da jaqueta e tirou uma carta lacrada. Quando a colocou nas minhas mãos, o ar me faltou por um instante ao ver o selo em vermelho-escarlate da guarda real. — Chegou hoje de manhã, por falcão mensageiro. É pra você.
Ao encará-la, senti meu coração disparar. Eu estava no meio das minhas férias, e o fato de receber uma carta da guarda real… isso podia significar que alguma coisa tinha acontecido.
Hesitei por um momento, sem querer tirar conclusões precipitadas, toquei o pergaminho e quebrei o lacre rapidamente.
“A todos os soldados alistados sob a Ordem da Guarda Real:
Vocês estão, por meio desta, convocados a retornar à capital imediatamente. Suas licenças estão suspensas. A presença é obrigatória.”
Minha garganta se fechou. Eu sabia. Uma convocação repentina só podia significar uma coisa… Poderia haver uma guerra. Ou talvez, algo pior.
Será que era por causa da facção de renegados que vinha causando problemas nos últimos meses que estavam nos chamando de volta?
Dobrei a carta devagar, fazendo o possível para manter a compostura enquanto encontrava o olhar do Alfa Derrick.
Forcei um sorriso.
— Estou sendo convocada de volta para a guarda real o mais rápido possível, Alfa — contei a verdade. — Talvez eu tenha que partir amanhã.
Com esse tipo de carta de convocação, sair amanhã era a melhor solução.
Ele assentiu.
— Entendo. E eu sempre apoio o caminho que você escolheu, Euphyllia — disse ele, pousando a mão no meu ombro. — Vá e deixe nossa matilha orgulhosa.
Meu peito apertou com as palavras dele. Senti também meus olhos ficarem marejados. O Alfa Derrick sempre apoiou as mulheres a seguirem caminhos diferentes, não só ficar em casa cuidando das tarefas. Ele também apoiou nossa Luna, Olivia, que montou o próprio negócio. Ele nunca teve vergonha disso. É por isso que eu e os demais membros da matilha amamos tanto o nosso querido Alfa e a nossa Luna da Matilha das Sombras Estreladas.
Guardei a carta na bolsa de couro e me endireitei.
— Vou cuidar dos renegados na crista norte antes de partir, Alfa — prometi. — Devo isso à minha matilha.
O Alfa Derrick fez um leve gesto com a cabeça, um pequeno sorriso se abrindo nos lábios.
— Falou como uma verdadeira Gamma agora.
Inclinei a cabeça diante dele, em sinal de respeito, embora algo naquele dia estivesse me incomodando.
Por que parecia que eu já tinha vivido aquilo antes? Por que tudo não parecia novidade, e sim incômodo?
Talvez eu realmente devesse resolver isso por encerramento… Se é que era assim que eu devia chamar.
Naquela noite, eu me preparei para a missão que o Alfa Derrick tinha me confiado. Prendi o equipamento, amarrei o cabelo para trás e segui para a fronteira norte, para o patrulhamento da crista. A lembrança dos lábios de Redmund nos de Lilith cruzou minha mente, e minha loba uivou de dor, mas eu a forcei a se calar, a esquecer.
Dever em primeiro lugar, Euphyllia. Não podemos deixar que essa traição vire um peso!
Enviei dois guerreiros da matilha para explorar a floresta ao norte.
— Abram em círculo e peguem pelos lados opostos. Se sentirem qualquer coisa estranha, não entrem em combate. Voltem e reportem. Entendido?
Eles assentiram.
— Sim, Gamma Euphyllia.
Com isso, sumiram nas sombras.
Soltei um suspiro, me sentindo um pouco melhor por poder exercer meu papel de gamma ali. Meus companheiros Gammas não estavam presentes, cada um com sua própria função. Eu era a única disponível no momento, por isso o Alfa Derrick tinha me pedido para cuidar daquilo.
Os minutos passaram, e o pio distante das corujas e a brisa suave da floresta viraram a música em nossos ouvidos. Fui alertada pelos guardas da fronteira quando alguém se aproximava, e meu estômago revirou ao ver apenas um batedor, em forma de lobo, surgir da linha das árvores, ofegante quando reassumiu a forma humana.
Sozinho.
— Onde está o Rivan, Ives? — perguntei, mantendo a calma e o controle.
Nos meus tempos de treinamento, tanto como Gamma em formação quanto como soldado do exército real, antes de escolher o caminho de estrategista, uma lição foi martelada acima de todas: manter a compostura, entender a situação e avaliá‑la com cuidado.
Ives balançou a cabeça, o pânico estampado nos olhos.
— E-Ele não chegou ao ponto de encontro, Gamma. A gente se separou na crista, mas… mas eu não ouvi luta nenhuma. P-Parecia que ele tinha sumido.
Praguejei entre dentes.
— Fique aqui. — Dei um tapa firme no ombro dele. — Se eu não voltar em trinta minutos, avise o Alfa Derrick imediatamente — ordenei. — Isso é uma ordem, Ives — enfatizei, lançando um olhar duro quando ele pareceu prestes a protestar.
Me transformei em loba, meus ossos se rearranjando sem sinal de dor quando minhas quatro patas tocaram o chão. Inclinei a cabeça, aproximando o focinho do solo para captar o cheiro do meu companheiro de matilha antes de disparar pela floresta.
Enquanto eu desviava das árvores, o luar se tornou meu guia. Olhei para cima, vendo como a lua brilhava lindamente. Era quase como se ela estivesse me conduzindo até onde o guerreiro da minha matilha estava.
Foi assim que encontrei Rivan, apoiado contra o tronco de uma árvore, não muito longe da crista. Meu coração despencou e corri até ele.
— Rivan! — Levei a mão ao pulso dele, apertando atrás da veia para sentir o pulso, enquanto a outra mão ia até o nariz, em busca da respiração.
— Ele está inconsciente — murmurei, aliviada ao soltar o ar preso. — Graças à Deusa da Lua. Ele está bem.
Em seguida, verifiquei se havia sinais de ferimentos ou de luta, porque a situação me parecia suspeita. Foi então que notei pétalas de um rosa intenso, familiar, e percebi que era um crisântemo espiando do bolso do peito da camisa dele.
Ao puxar a flor com cuidado, franzi a testa ao ver um pequeno pergaminho enrolado e amarrado ao caule. Meu coração martelou ao desdobrá‑lo.
Por um segundo, prendi a respiração ao ler as palavras escritas com tanta elegância:
“Que bom que finalmente consegui chamar sua atenção. Você é ainda mais bonita de perto do que quando eu só a observava de longe, Lady Euphyllia. Mas não se preocupe. Sou uma pessoa paciente. Vou esperar até que você esteja pronta para me conhecer. Até lá, vou estar observando.”
Um arrepio percorreu minha espinha, me deixando imóvel.
— O que… O que diabos é isso? — murmurei, em choque.
