Capítulo 6: Pelo menos reconheça
— Vou me retirar, Alfa, Beta — despedi‑me das duas pessoas mais importantes da minha matilha ao subir na carruagem.
Os dois assentiram.
— Faça nossa matilha sentir orgulho de você, Euphyllia. — Essas foram as palavras do Beta Rocco antes de a carruagem partir.
Suspirei e fiquei em silêncio por um bom tempo, recostada no banco, antes de fechar os olhos, sentindo um pouco de exaustão.
A convocação do exército real deveria ser a única coisa na minha cabeça enquanto eu arrumava as coisas ao amanhecer, mas aquela única carta bastou para me deixar inquieta a noite inteira.
Eu a tinha lido uma vez, e uma vez foi o suficiente. Mesmo assim, aquelas palavras ficaram gravadas na minha mente, se repetindo sem parar como um disco riscado.
“Que bom que finalmente chamei sua atenção. Você é ainda mais linda de perto do que só de ficar olhando de longe, Lady Euphyllia. Mas não se preocupe. Eu sou uma pessoa paciente. Vou esperar até você estar preparada para me encontrar. E até lá, vou estar observando.”
O pergaminho descansava no bolso do casaco do meu uniforme, como se tivesse todo o direito de ficar ali, encostado no meu peito.
Sem selo. Sem assinatura. Só aquelas palavras, traçadas com uma caligrafia firme e bonita, como se o cavalheiro que as escreveu tivesse se esforçado ao máximo para tornar seu gesto impressionante para a dama.
Um arrepio percorreu meu corpo. Eu sabia que deveria ter jogado aquela carta fora quando cheguei em casa, mas simplesmente não consegui. E eu não fazia ideia se deveria me sentir lisonjeada, ameaçada, ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Era assim que a admiração deveria funcionar? Ou aquilo era uma forma refinada de perseguição?
Era difícil decifrar a intenção da pessoa que tinha sido a autora daquela carta. Mas uma coisa eu conseguia entender: ele se esforçou bastante para provocar a estranha habilidade do Alfa Derrick de sentir intrusos perto das fronteiras da matilha, algo comum para todo Alfa. Além disso, deixar Ives desacordado só para entregar a carta foi de uma imprudência absurda.
Abri os olhos devagar, examinando o único crisântemo na minha mão, que até agora eu ainda segurava.
Essa flor era a minha preferida, entre todas. Como aquela pessoa descobriu isso?
O fato de ele saber de um detalhe tão pequeno, de que essa era a minha flor favorita, me deixava profundamente desconfortável.
Meu pulso acelerou só de pensar nisso. Minhas mãos começaram a suar frio e a tremer por causa de tudo o que estava acontecendo.
Será que eu tinha um admirador e nem sabia? Então, quem poderia ser?
Será que era… Redmund? Impossível! Nunca vi o Redmund se dar a tanto trabalho para escrever uma carta.
Ele sempre foi cuidadoso em relação a qualquer intimidade comigo. Jamais faria algo como me dar qualquer coisa que pudesse levantar suspeitas sobre o que existia entre nós.
Com essa constatação, fechei a mão sem perceber, amassando o crisântemo dentro da palma. Quase o derrubei quando voltei à realidade de repente, olhando para os lados, apavorada com a ideia de que alguém pudesse estar me observando havia mais tempo do que eu imaginava.
Já era tarde demais quando percebi o que tinha feito, e me encolhi, sentindo o golpe das minhas próprias emoções só de pensar no quão tola eu tinha sido em relação ao Redmund.
E agora que eu estava voltando para o quartel‑general do exército real, iria cruzar novamente com Redmund e Lilith.
Só de imaginar encontrar os dois outra vez, depois de alguns poucos dias de licença, meu coração doía por causa da traição deles.
Como se supunha que eu agisse como se estivesse bem quando os visse? Fingir que o ferimento no meu peito não existia? Ou confrontar Redmund e perguntar quais eram os planos dele para nós — se é que havia algum plano — e se eu não estava me agarrando a promessas vazias?
Eu precisava definir muito bem o que faria a seguir antes de encará‑los. Mesmo com o coração sangrando, eu precisava agir como uma guardiã estratégica.
Eu não podia deixar que eles saíssem ganhando nessa…
Mordi o lábio inferior quando minha visão ficou turva pelas lágrimas que caíam. Enxuguei‑as com cuidado, mandando a mim mesma parar de chorar por pessoas que tinham me machucado.
Mas por que era tão difícil? Eram as pessoas que eu mais amava.
Não havia a menor chance de eu conseguir fingir que estava realmente bem.
Esses ainda eram os meus pensamentos quando cheguei ao acampamento. De coração pesado, apresentei‑me ao meu superior, Marlin.
— Desculpe pelo aviso em cima da hora, Euphyllia — disse Marlin quando entrei no escritório dele. — Eu sei que sua licença de férias foi encurtada.
Balancei a cabeça.
— Eu não me importo tanto assim — respondi educadamente, abrindo e fechando a mão, porque Redmund surgiu de repente na minha cabeça sem motivo nenhum. Meu coração voltou a doer por causa disso. — Eu sei que é uma emergência, então o dever militar vem antes de qualquer coisa.
Minhas botas ecoaram pelo corredor quando saí da sala de Marlin. Agradeci a mim mesma por não ter desabado na frente do meu superior; do contrário, teria sido muito difícil explicar o que vinha doendo em mim nos últimos tempos.
Era o meu coração. Não fisicamente, mas emocionalmente.
Quando virei a esquina, parei ao ouvir algumas risadinhas no corredor e avistei as pessoas por quem meu coração estava doendo naquele exato momento.
Lilith... Redmund...
Prendi a respiração ao vê‑los em pé, tão próximos um do outro. Quem eu tinha ouvido rindo baixinho não era outra senão Lilith, a mão dela roçando na manga do uniforme de Redmund, enquanto, por outro lado, Redmund sussurrava alguma coisa no ouvido dela, como se tivesse contado algo engraçado.
Cerrei a mão diante da cena que eu estava vendo. Eu não estava preparada para vê‑los, mas a Deusa da Lua sempre dava um jeito de bagunçar a minha vida.
Meus calcanhares já iam girar para eu dar meia‑volta quando Lilith me notou.
— Euphie!
Meu apelido escapando dos lábios dela cortou meu coração em pedaços.
Pressionei os lábios num traço fino, incapaz de dizer qualquer coisa. Mas meus olhos se demoraram em Redmund, e minha loba ficou despedaçada quando a expressão dele se contraiu num desconforto visível. Mesmo assim, ele não se afastou de Lilith.
Engoli o nó que barrava a minha garganta.
— Lilith. — Assenti, forçando um sorriso para ela antes de me virar para Redmund. Ergui a mão num cumprimento formal. — Capitão Redmund, saudações.
Redmund passou a língua nos lábios, tentando disfarçar o leve tremor antes de assentir.
— Saudações... — ele fez uma pausa.
Cerrei os dentes em silêncio, torcendo para que ele, pelo menos, mencionasse meu nome para Lilith.
Mas ele não o fez.
— Ruinart, senhor. Euphyllia Ruinart.
Por favor, Redmund. Se você se importa comigo, pelo menos diga meu primeiro nome...
— Ah... — Redmund soou como se estivesse me conhecendo naquele instante. — Saudações, Ruinart.
Ah. Isso dói tanto. Eu só queria que ele, ao menos quando estivéssemos a sós, me reconhecesse chamando pelo meu primeiro nome, mas ele não conseguia. Como sempre.
Uma vontade súbita de sair correndo tomou conta de mim. Mas meus pés pareciam pregados no chão.
— E‑Eu não quis atrapalhar vocês dois. — Lancei um olhar de um para o outro. Mas meus olhos baixaram imediatamente para o chão quando começaram a marejar. — M‑Me desculpem. Tem algo que eu preciso fazer agora.
Arranjei uma desculpa para ir embora. Eu não aguentaria ficar mais tempo com eles. Sentia como se fosse desmaiar a qualquer momento.
— Depois a gente se fala, Euphie! — Lilith gritou pelo corredor enquanto eu me afastava deles.
A voz dela veio atrás de mim, mas eu apressei o passo até alcançar meus aposentos. Assim que a porta se fechou às minhas costas, meus ombros desabaram e minha testa encostou na madeira, enquanto eu tentava, com todas as forças, voltar a respirar.
Um soluço escapou dos meus lábios ao lembrar da risada de Lilith, do silêncio de Redmund, da maneira como ele não me reconhecia nem como amante, nem como amiga, mas como uma maldita subordinada.
“Ruinart, senhor. Euphyllia Ruinart.”
Revivi minhas próprias palavras como se eu fosse uma nova recruta se apresentando ao superior. Odiava o fato de ter despertado do meu longo sono e ainda assim querer que ele me reconhecesse, só por me chamar pelo meu primeiro nome.
— Redmund... Eu realmente não sou a fêmea que você queria como par? — solucei num sussurro, chegando a uma conclusão dolorosa.
Arrastando o corpo até a cama, sentei‑me na beirada, encarando a parede por um tempo, até que minha visão periférica captou uma flor branca sobre a mesa.
Era um crisântemo!
Meu estômago afundou. Eu lembrava que não havia nada em cima da mesa quando saí para fazer o relatório ao meu superior. Eu sabia disso.
Eu conhecia todas as minhas coisas e o quão organizada eu era ao arrumá‑las. E se aquele fosse o mesmo crisântemo da noite passada, seria impossível, porque eu o tinha esmagado sem querer com a própria mão mais cedo, durante o trajeto.
— Não me diga que... — Engoli em seco, as mãos tremendo quando estendi os dedos até ele.
Meu coração gelou ao ver outro bilhete pequeno, enrolado e amarrado ao caule. De novo.
Engoli em seco, sentindo os lábios ressecarem, enquanto desdobrava o papel.
“Deve ter doído vê‑los juntos. Você não precisa esconder isso de mim, Lady Euphyllia. Eu vejo você. Eu sempre vejo. Um dia, você também vai me ver. Até lá, lembre‑se... você não está sozinha. Eu vou estar aqui, observando.”
Quase deixei o bilhete cair. Minhas mãos estavam suadas, meu coração disparado. Quem quer que fosse essa pessoa... não só tinha entrado nos meus aposentos, como sabia exatamente pelo que eu tinha acabado de passar, poucos instantes antes.
Isso não era coincidência. Era alguém me seguindo. Me estudando.
Era o comportamento de um possível perseguidor!
Medo e fúria se misturaram no meu peito. Quem era essa pessoa? Há quanto tempo ele estava tão perto assim?
Ó, querida Deusa da Lua, por favor, me ajude!
Primeiro, eu tinha que lidar com a dor de ver Redmund e Lilith juntos.
Depois, me preocupar em cruzar o caminho do Comandante Lucretius.
E agora, isso. Um perseguidor que eu nem sabia que existia, e que surgiu de repente.
Eu tinha problemas demais se acumulando. Será que eu conseguiria sobreviver no exército real?
