Capítulo 8: Reunião da Assembleia
— Senhorita Euphyllia, onde a senhora se meteu? — perguntou Cerys quando me sentei na cadeira ao lado dela, as sobrancelhas se franzindo em confusão.
Meus lábios se curvaram num sorriso torto.
— Eu estava no toalete — respondi, tentando me acalmar ao perceber que minhas outras companheiras já estavam ali. — Achei que a comandante Rachelle seria a porta-voz hoje — mudei de assunto, ignorando a figura alta à frente.
Eu não queria. Recusava-me a olhar para ele, mas toda a atenção se voltou para o porta-voz de pé sobre a plataforma.
Cerys deu de ombros.
— Pelo visto, a comandante Rachelle ainda não chegou ao acampamento. E talvez demore alguns dias pra ela voltar das férias também.
Antes que eu pudesse expressar minha decepção por a comandante Rachelle — a pessoa que eu mais reverencio por causa de seu ato heroico — não estar ali, o salão silenciou. Mesmo assim, não deixei de notar o quanto minhas companheiras ficavam animadas ao ver o porta-voz lá na frente.
Foi então que meus olhos dispararam até ele; sua presença imponente era a mesma daquela noite na taverna. De repente, a lembrança daquela noite atravessou minha mente.
O comandante Lucretius deu um passo à frente, as botas ressoando no piso polido. Seus olhos avelã salpicados de sardas varreram a multidão como se procurassem alguém. Fui me encolhendo aos poucos na cadeira, mantendo a cabeça levemente abaixada enquanto ainda acompanhava seus movimentos, mas as palavras do bilhete amaldiçoado voltaram à tona.
“Olhe pra mim. Só pra mim.”
Isso fez minha postura se endireitar do nada, um arrepio percorrendo minha espinha, o que chamou a atenção dele quando o olhar finalmente pousou em mim.
De novo.
E aquele olhar me fez prender a respiração ao me lembrar daquela noite, fazendo-me agarrar a borda da cadeira até os nós dos dedos ficarem brancos.
Merda! Por que nossos olhos se encontraram de novo? Já era a segunda vez!
Inclinei a cabeça como se estivesse alcançando algo nas minhas botas, xingando em silêncio, querendo me esconder do olhar dele outra vez. Não podia ser possível que ele ainda se lembrasse de mim, certo?
Era impossível. Talvez ele conseguisse identificar que eu era uma soldado real, mas não havia nenhuma chance de ele saber quem eu realmente era.
Não havia chance de o tio de Redmund dar atenção pra mim, embora eu me sentisse culpada por ter entregado minha virgindade, o que eu tinha de mais precioso, a um homem que mal conhecia.
— Soldados — a voz grave dele ecoou pelo salão. O tom firme e autoritário fez meus olhos se fecharem involuntariamente, como se ele estivesse bem ao meu lado, sussurrando coisas sombrias pra mim. Abri os olhos à força, assustada com o absurdo do que eu acabara de imaginar, e belisquei minha própria coxa para me castigar.
Conserte-se, Euphyllia!
— Auritaurie está atualmente em estado de confinamento. Relatórios confirmam que os renegados não estão mais agindo como lobos dispersos sem propósito.
Um murmúrio se espalhou pelo salão; todos ficaram mais contidos e apreensivos, trocando olhares inquietos.
O Comandante Lucretius fez uma pausa, inclinando a cabeça de um lado para o outro. Como sempre, bastava um único gesto simples para ele continuar deslumbrante. Seu olhar percorreu o salão mais uma vez, e eu podia jurar que seus olhos demoraram em mim por tempo demais antes de seguir adiante.
— Eles formaram um bando de guerra. Organizado. Estratégico. Perigoso. O líder deles atende pelo nome de Magnius Lothim.
Os queixos de todos despencaram ao ouvir aquele nome. Até tive tempo de olhar para Marlin e para meus companheiros, e nem mesmo os cochichos dos outros cessaram.
Aquele nome tinha se tornado infame. Ele era um líder de renegados ousado o bastante para desafiar o parlamento.
Cerys se inclinou para mais perto de mim.
— Magnius... não é ele o que massacrou vários Alfas anos atrás?
Assenti de leve, um arrepio subindo pela minha espinha.
— É ele, sim...
Minhas mãos se agitavam sem parar, porque aquele homem foi o responsável pela morte do meu pai e do pai do nosso Alfa.
Eu não conseguia acreditar que estava ouvindo o nome dele de novo depois de tantos anos.
Magnius Lothim era a desgraça de todo súdito aqui no Reino de Waevalon. Qualquer um ficava inquieto só de ouvir esse nome.
O silêncio foi rompido pela voz do Comandante Lucretius:
— Magnius Lothim está reunindo as alcateias divididas sob a liderança dele. Ele se espalha mais rápido do que imaginávamos, e as informações indicam que está chegando perto das fronteiras de Auritaurie. Se tiver sucesso, o resultado será uma guerra que reduzirá reinos a cinzas, e não apenas incursões.
O salão de assembleias ficou mergulhado em um silêncio ensurdecedor. O peso no ar era tão intenso que respirar dava a sensação de sufocar.
Mas os olhos dele... Droga! Aqueles orbes avelã salpicados de sardas se cravaram na minha direção. De novo!
Aquilo já não era mais acidente. Eu sabia.
Só podia significar que ele se lembrava de mim naquela noite. Do jeito que ele olhava para mim desde que cheguei aqui, era como se fosse um predador que finalmente encontrou sua presa, e eu era essa presa!
Meu pulso disparou, e minhas coxas se apertaram uma contra a outra, por reflexo. Era como se eu sentisse a respiração dele no ponto mais sensível entre minhas pernas, de tão intensa que era a forma como a atenção dele me queimava do outro lado do salão.
Ó, querida Deusa da Lua... Por que eu estava me sentindo assim? Ele nem era o meu par destinado, mas só o fato de ele continuar me olhando já era suficiente para me deixar excitada.
Isso não era bom. Isso não era nada bom.
Isso podia significar que o Comandante Lucretius realmente se lembrava de mim. Eu achei que ele fosse o tipo de homem que esquece fácil a mulher com quem dormiu, como eu tinha ouvido nos boatos.
Obliguei-me a olhar para o chão, como se fosse a obra de arte mais interessante que eu já tinha visto.
— Não subestimem Magnius. Ele se alimenta do medo. Ele se alimenta da hesitação. E se nós vacilarmos, ele vai tomar Auritaurie de nós. Cada soldado aqui precisa entender que vocês são a primeira e a última linha de defesa.
As palavras dele ecoaram pelo salão, mas para mim elas reverberaram de outro jeito.
A ordem firme, o aviso severo... Eram a lembrança constante daquela noite. O jeito que ele rosnava no meu ouvido, a dominância no tom de voz, como se pudesse me fazer obedecer a ele, e o calor da respiração dele espalhado pela minha pele nua... era impossível esquecer.
Mexi-me no assento para voltar à realidade, me esforçando tanto que acabei amassando a barra do meu uniforme.
Ah, por favor. Você pode parar de olhar pra mim? Você não devia se lembrar de mim!
Eu queria gritar naquele exato momento.
Cerys me cutucou com o cotovelo e sussurrou:
— Sou só eu? Ou o Comandante Lucretius não para de olhar pra você?
Olhei para ela, sem acreditar.
— I-i-isso é absurdo — sussurrei de volta, sentindo meu coração quase explodir. Então eu não era a única que tinha percebido como ele continuava me olhando. — Talvez seja pra galera atrás da gente — arrisquei, tentando me defender.
— Dentro de uma semana, Sua Majestade, o Rei Alfa Claudian, vai voltar do treinamento. De acordo com as ordens que foram repassadas pelos generais, todos os soldados devem ser treinados de forma rigorosa. E também, Marlin — ele chamou o meu superior.
Marlin se levantou, prestando continência diante dele.
— Sim, comandante?
— Traga os registros dos anos do reinado de terror de Magnius Lothim, junto com o mapa de Auritaurie e os últimos relatórios que a inteligência te passou ontem, e entregue tudo ao General Cairo.
Marlin assentiu.
— Entendido, comandante.
Quando a resposta de Marlin pareceu satisfazê-lo, o Comandante Lucretius se virou para o General Simon, que estava sentado na plataforma lateral, e inclinou a cabeça diante dele.
— General, terminei a reunião.
O General Simon assentiu e deu um tapa de leve nas costas dele antes de se virar para nós.
— Muito bem. Todos podem voltar para seus postos agora. Lembrem-se das palavras do Comandante Lucretius. Entendido?
Todos nós nos levantamos e saudamos nossos oficiais de alta patente.
— Senhor, sim, senhor!
Quando a reunião foi encerrada, todos os soldados e o pessoal administrativo começaram a se dispersar. Juntei minhas coisas depressa e me distraí quando algumas mulheres gritaram perto do palco.
— Comandante Lucretius! Percebe a gente, por favor!
Minha respiração falhou quando não consegui evitar olhar na direção delas, sabendo o quão popular ele era. Mas meu coração quase saltou pela boca quando vi que ele estava cercado pelos nossos colegas, só para, no instante seguinte, prender o olhar em mim.
Foi aí que desviei o olhar na mesma hora.
— C-Cerys! — chamei, tentando alcançá-la.
Boa Deusa da Lua, por que ele também estava me olhando?
Eu me enfiei no mar de gente quando uma figura passou ao meu lado com uma facilidade calculada. Então, senti uma mão calejada e firme escorregar algo na minha palma, fazendo meus passos vacilarem quando olhei de lado.
Redmund.
Meu coração já acelerado se despedaçou de vez ao cair a ficha. De repente, o nervosismo que eu sentia em relação ao tio dele simplesmente sumiu por causa da presença de Redmund. O rosto dele estava indecifrável, a postura continuava casual, como se nada tivesse acontecido.
Redmund apenas inclinou a cabeça, me alertando para não reagir. Esse gesto me fez apertar o pergaminho dobrado que ele tinha enfiado na minha mão antes, escondendo-o rapidamente.
Meu movimento pareceu natural e nada aconteceu, porque eu já tinha feito isso tantas vezes ao longo daquele ano em que nós dois descobrimos que éramos mates um do outro.
— Depois — ele murmurou, baixo o suficiente para só eu ouvir, antes de desaparecer no meio da multidão.
Engoli em seco quando a lembrança dele beijando Lilith voltou à minha mente. A dor veio de novo, como se mil facas trespassassem meu peito, antes de eu puxar do bolso interno do paletó do uniforme o bilhete que ele tinha me passado.
“Me encontre depois. Mesmo lugar. Mesma hora.”
Era só o que dizia. Curto e direto, como sempre eram os bilhetes que ele me mandava. Soava vazio — e, normalmente, eu ficaria satisfeita com algo simples assim.
Eu sabia que deveria estar profundamente decepcionada, mas uma coisa me impedia de sentir isso, por outro motivo.
Porque havia algo errado...
A caligrafia...
A letra do Redmund sempre foi bagunçada, torta, como se ele escrevesse às pressas, sem nenhuma paciência. Era tão diferente das notas anônimas que vinham me assombrando nesses últimos dias. Essas eram escritas de forma bonita e inclinada, mas dava pra perceber que também tinham sido feitas às pressas.
Ainda assim, permaneciam elegantes e cuidadosas.
Um arrepio percorreu minha espinha.
Se não era o Redmund que estava deixando aquelas mensagens pra mim... então quem era?
