Capítulo 9: Amor e sacrifício unilaterais

Pelo bilhete do Redmund, o que ele quis dizer com mesma hora e mesmo lugar era que eu me encontrasse com ele no jardim antigo, à meia-noite. Nosso encontro amoroso normalmente acontecia ali, o ano inteiro.

Aquele lugar tinha se tornado nossa testemunha de como eu amava Redmund com todo o meu coração e de como eu faria qualquer coisa para agradá‑lo. No entanto, havia uma coisa que eu não podia dar a ele, por mais que me implorasse com jeitinho, algo que acabei dando ao tio dele, e do qual Redmund não fazia a menor ideia.

Enquanto eu fitava o céu estrelado, tendo chegado um pouco mais cedo, meu peito ainda doía só de pensar em como eu iria confrontar Redmund sobre o que tinha visto e ouvido. Achei que ele nunca mais falaria comigo, mas, quando ele se mexeu, tive a sensação de que aquele poderia ser o nosso último encontro.

Meus olhos percorreram o lugar assim que a brisa fria tocou minha pele. Tudo parecia solitário, com o cheiro forte de musgo e de rosas murchas. Alguns bancos de pedra rachados se erguiam na escuridão, como se dissessem que meu coração estava exatamente assim quando flagrei a traição dos dois.

Meu pulso disparava enquanto eu avançava para o fundo do jardim antigo, mas eu não esperava que Redmund tivesse chegado antes de mim; eu sempre achei que deveria ser mais pontual do que ele. Minha respiração falhou ao vê‑lo recostado no arco quebrado, como ele sempre fazia quando nos encontrávamos ali.

Apertei mais forte as pregas da capa ao lembrar de como, antes, eu teria corrido na direção dele, pedindo, sem palavras, permissão para abraçá‑lo. Agora, a ficha caiu. Percebi que tudo o que eu queria fazer com a gente dependia da permissão dele; eu não podia simplesmente beijá‑lo na bochecha ou nos lábios, nem mesmo abraçá‑lo, se ele não deixasse.

Havia tantas restrições, e mesmo assim eu achava que o nosso amor era perfeito.

Quando me aproximei, meu coração vacilou assim que vi Lilith ali, atrás dele.

Ela surgiu por trás das costas dele, acenando para mim.

— Oi, Euphie. Você anda fugindo de mim ultimamente. Não precisava, sabia? — Ela piscou os cílios e deu um passo à frente.

Eu recuei, sem esperar encontrá‑la ali.

— P‑Por que você está aqui? — perguntei, e minha voz soou ferida.

Eu queria falar com Redmund a sós, confrontá‑lo, mas por que ela estava ali? Eles iam mesmo esfregar o relacionamento deles na minha cara, não iam?

— Fui eu que pedi para ela vir, Euphyllia. — Foi Redmund quem respondeu à minha pergunta.

Olhei de um para o outro, sentindo meu coração se despedaçar.

Entendi. Agora eu já conseguia ver que eles iam exibir o relacionamento deles.

As duas pessoas que eu mais amava estavam ali para me contar sobre a traição delas. Eu tinha vindo para confrontar Redmund sobre tudo, planejando terminar com ele, mas parecia que a Deusa da Lua tinha me ajudado.

Era realmente como matar dois coelhos com uma cajadada só.

Quando prendi meu olhar em Lilith, perguntei:

— Então, você quer o Redmund, afinal, Lilith? — Meus lábios tremiam ao enfim dizer as palavras que eu queria dizer. — Você me contou que nunca gostou dele pra mim, mas eu não sabia que tinha motivos ocultos pra roubá‑lo de mim...

Agradeci a mim mesma por ter sido corajosa o bastante para falar. E eu não sabia de onde vinha essa coragem, mas minha loba uivava de dor ao ver, diante de nós, a confirmação de tudo.

— Você era minha melhor amiga, e está fazendo isso comigo? — minha voz saiu rouca.

Lilith sibilou com um sorriso irônico enquanto cantarolava baixinho:

— Ah, Euphie. Não faz biquinho. — Ela deu um passo à frente e se inclinou. — Você devia ser mais grata a mim, sabia? Eu deixei você ficar com ele por um ano. — Ela piscou devagar, enquanto minhas sobrancelhas se franziram em confusão.

— Como assim? — Olhei de um para o outro, mas meu olhar ficou mais tempo em Redmund, implorando por uma explicação. — Do que ela está falando, Redmund?

Eu achei que veria arrependimento e culpa estampados no rosto dele, mas não havia nada disso.

— Antes de conhecer você — ele começou —, Lilith e eu estávamos namorando escondido, Euphyllia.

Senti meu mundo implodir com a resposta dele.

— A gente, sinceramente, estava esperando a hora certa para assumir o nosso relacionamento, mas aí... você apareceu — Redmund continuou. — E eu fiquei confuso com os meus sentimentos, quis testar as águas com você, mas ainda assim, a Lilith é quem eu queria. — Ao dizer isso, ele desviou os olhos para Lilith e tomou a mão dela, levando-a aos lábios.

Levei a mão à boca, enjoada, tentando me manter firme. Minhas mãos tremiam por causa da resposta dele; eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir.

Lembrando de tudo, desde a reação da Lilith quando contei que Redmund era o meu mate, ela tinha dito que não gostava dele para mim por causa da reputação da família dele. No fim, tudo aquilo era só a forma dela tentar me dizer que eu tinha roubado o que deveria ser dela, mas eu não percebi os sinais.

— P-Por que você não me contou a verdade? — Dessa vez, virei-me para Lilith, meus lábios tremendo quando o sorriso dela ficou vazio. — Lilith... você era minha irmã... minha melhor amiga. Minha única família neste mundo...

A expressão dela enrijeceu, o sorriso zombeteiro desaparecendo aos poucos.

— Porque eu sabia que você não ia largar ele — respondeu simplesmente, como se a traição dela fosse a escolha mais lógica. — E eu sabia muito bem o quanto você queria encontrar o seu mate. Vê? Eu fui até generosa de dividir o que era meu desde o começo. — Ela balançou a cabeça, com um meio sorriso cravado nos lábios. — O Redmund nunca foi seu, meu bem. Dá pra ver como ele nem se importa com o laço de mate entre vocês dois. — Ela se aproximou mais. — Você já devia ter percebido por que ele queria manter o relacionamento de vocês em segredo.

As palavras dela cortaram mais fundo que qualquer lâmina afiada. Minhas pernas fraquejaram, cederam. A qualquer momento, eu podia sentir que ia desabar sobre a pedra coberta de musgo embaixo de mim.

Cambaleei em seguida, e Redmund nem se mexeu para me ajudar; só ficou me olhando na minha miséria. Não havia um pingo de culpa grudado no rosto dele. Só uma expressão indiferente.

Apertei o peito, como se pudesse, à força, manter meu coração inteiro. O silêncio e a reação de Redmund gritavam mais alto do que as palavras de Lilith.

Minha loba choramingou dentro de mim, dilacerada entre a raiva e o desespero. Nós duas sabíamos agora que o nosso mate nem queria reconhecer isso.

Então, o nosso relacionamento era só um sentimento de uma pessoa só, no fim das contas... Isso... era um destino cruel demais para mim.

— Redmund. — Minha voz saiu rouca, com um toque de desespero. — É verdade? Você... você nunca sentiu nada? P‑Por mim? P‑Pelo nosso laço de parceiros? — Minha visão começou a ficar turva por causa das lágrimas.

A expressão dele continuou a mesma. Não havia calor nenhum ali, mas quando ele olhava para Lilith, era diferente.

— Eu senti curiosidade, Euphyllia — ele respondeu por fim. — Afeição, talvez. Mas amor? Não. Por isso, nosso laço de parceiros é inútil. — O polegar dele acariciou o dorso da mão de Lilith, como se quisesse enfiar a faca ainda mais fundo. — Sempre foi ela.

— E‑Então isso quer dizer que v‑você só me usou pro seu próprio benefício? Porque você sabe que, se não fosse por mim, você não teria virado um dos capitães há seis meses... — joguei na cara dele a maior mudança da vida dele.

O olho de Redmund tremeu. Foi só por um instante, mas eu sabia que minhas palavras tinham atingido um ponto fraco.

Dei um passo à frente, com as lágrimas despencando pelo meu rosto.

— Nem ouse negar, Redmund. Você sabe exatamente tudo o que eu fiz por você. Até a Lilith sabe disso! — Lancei um olhar fulminante para Lilith antes de voltar a encarar ele. — Eu sou só uma guardiã tática, e eu sei que minha voz não significa nada no conselho de guerra, mas eles me ouviam quando eu falava, porque eu conquistei o respeito deles. Fui eu que indiquei você quando todo mundo duvidava das suas habilidades, Redmund. Lembra disso. E fui eu que passei inúmeras noites em claro elaborando estratégias que você até proclamou como suas na frente dos seus superiores. — Apontei o dedo para o peito dele, deixando claro o quanto eu tinha ficado frustrada naqueles tempos. — Eu me esforcei tanto só pra você se destacar, Redmund, porque eu tinha esperança de que um dia você fosse decidir que o nosso relacionamento não seria mais um segredo! Eu acreditei em você!

Minha voz falhou enquanto a verdade jorrava de mim, me deixando incontrolável. Agora eu não conseguia mais parar. Eu precisava dizer tudo isso antes de me afogar na desgraça.

— Eles me disseram que você era imprudente, sem disciplina, que nunca estaria pronto para o comando. Mas mesmo assim eu te defendi, Redmund! Eu disse pra eles que você tinha o que era preciso pra liderar, que eles deviam te dar uma chance de se provar. E foi por minha causa! Por causa da minha fé em você que eles te promoveram!

Meus punhos vacilaram enquanto eu os batia fracamente contra o meu peito.

— E o que foi que eu recebi em troca? Mentiras. Traição. E ela! — rosnei, lançando outro olhar furioso para Lilith antes de erguer a mão na direção dela.

— Sua vadia! — Lilith cuspiu, furiosa, também levantando a mão.

Virei o rosto antes que a mão dela alcançasse minha bochecha, e minha mandíbula caiu quando eu ergui o olhar e vi que era Redmund, com o maxilar tenso.

— Você não tem o direito de machucar a Lilith. Tá me ouvindo? — Depois ele se virou para Lilith, cujos olhos começavam a marejar. — Tá doendo, meu amor? — perguntou baixinho, acariciando o rosto dela com delicadeza.

A amargura tomou conta de mim por inteiro com o jeito carinhoso como ele a chamou. O ciúme começou a me devorar.

Lilith fungou.

— U‑Um pouco — murmurou. Ela fez um biquinho e se virou pra mim. — Euphie, você ficou ousada. Você não precisava levantar a mão pra mim...

Meus dentes rangiam com o que eu estava vendo. Eu nunca imaginei que a Lilith seria assim. Eu sabia que ela podia ter um gênio ruim, mas eu não sabia que ela ia usar isso contra mim.

Minha boca quase se abriu para soltar algumas palavras maldosas quando Redmund falou.

— E você exagera, Euphyllia — ele disse, sem expressão, olhando para mim com indiferença. — Sua influência foi... útil, sim, mas não se iluda achando que foi por causa disso que eu me tornei capitão. Foram as minhas próprias habilidades que me levaram até lá. Não seja tão cheia de si.

Lilith se agarrou ao braço dele.

— Amor, acho que a minha melhor amiga acha que você me devia alguma coisa. Isso é realmente adorável, não é? — O olhar malicioso dela se voltou para mim, a sobrancelha se arqueando.

— Você foi conveniente, Euphyllia. Nada mais — Redmund acrescentou. — Eu, Redmund Franciosa, rejeito você, Euphyllia Ruinart, como minha parceira.

As palavras dele me feriram, principalmente agora que ele tinha acabado de declarar que rejeitava o nosso laço de companheiros. Eu sabia, no fundo, que estava perdendo aquela batalha. Minha loba uivava em agonia, arranhando por dentro, mas, apesar disso, alguma coisa se quebrou dentro de mim.

— Conveniente, é?... — repeti, sentindo o amargor da palavra na língua. Olhei diretamente nos olhos dele. — Eu, Euphyllia Ivara Ruinart, aceito a rejeição do meu parceiro, Redmund Franciosa. — A aceitação atingiu bem o centro do meu coração enquanto o ódio me afogava. — Que a Deusa da Lua traga o karma que você merece. Um dia, você vai se arrepender de ter jogado a sua parceira fora, Redmund.

Sem esperar resposta, ergui a cabeça e girei nos calcanhares para ir embora. O velho jardim se tornou um borrão diante dos meus olhos, enquanto as lágrimas ameaçavam cair e o ar ao meu redor parecia sufocante.

Meu coração continuava sendo apunhalado por mil flechas e agora estava deixado para apodrecer. Eu não deixaria que eles me vissem quebrar. Não aqui. Não na frente deles.

No momento em que meus pés alcançaram a borda dos alojamentos, minhas pernas cederam. Meus passos vacilaram, meus joelhos viraram gelatina quando virei para a direita.

Mas senti meu corpo bater contra algo sólido — talvez uma parede. Ou alguém. Eu já não sabia mais.

Mãos fortes e calejadas me firmaram antes que eu caísse, e minha visão embaçada começou a clarear.

— Cuidado — murmurou uma voz grave, em tom de barítono.

Minha visão ainda estava turva, mas, através dos olhos marejados, distinguia o contorno de ombros largos, um peito inclinado para a frente e o aroma amadeirado familiar. E o luar ajudou a revelar melhor aquela pessoa.

Um maxilar forte e conhecido e aqueles olhos cor de avelã que tinham me hipnotizado naquela noite.

Prendi a respiração.

Não era Redmund.

Não era um estranho. Era alguém que eu já tinha conhecido e com quem tinha jurado a mim mesma nunca mais cruzar caminho.

Era o Comandante Lucretius.

— D-desculpa — sussurrei, engasgada com as próprias palavras. Minha garganta se apertou enquanto as frases de Redmund e Lilith ecoavam na minha mente. Soluços escaparam dos meus lábios. — Eu... eu... — eu mal conseguia formar outra frase.

Dói... O que eles fizeram comigo doeu de verdade... A dor era insuportável para mim, mas eu reconhecia muito bem a pessoa à minha frente.

Eu nunca poderia perdoá-los. Eu nunca perdoaria, nem no dia da minha morte!

A batalha perdida pela qual eu tinha acabado de passar era pesada demais para eu aguentar, então me agarrei a ele e enterrei o rosto em seu peito. Eu não me importava mais se ele era o homem com quem eu tinha dormido.

Tudo o que eu queria agora era despejar o conteúdo do meu coração despedaçado. E, naquele momento, o Comandante Lucretius era o único que podia me consolar.

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