Capítulo 10 O menino com o chaveiro correspondente

Estudante do ensino médio não tinha fim de semana de verdade. Especialmente no último ano. A maioria das escolas de Bayview liberava no sábado à tarde e, no domingo à noite, você já era esperado de volta para a sala de estudos. Dava exatamente uma noite em casa por semana.

Mesmo assim, os alunos aguardavam o sábado como quem espera chuva em época de seca. Um naco de carne ainda era carne; meio dia de folga ainda era folga.

Julie queria encerrar a situação com Ryan Acker do jeito mais rápido e limpo possível. Sem perder o ritmo, ligou para a mãe e mentiu na cara dura.

— A Tania e as meninas querem comer alguma coisa fora do campus e comprar uns livros de preparação de AP. Você e o pai não precisam me buscar. Vou pegar o ônibus pra casa.

— Tá bom. E não fica na rua brincando até tarde. Se não estiver em casa até as dez da noite, você vai se ver comigo.

— ... — Julie tentou retrucar. — Linda, eu literalmente acabei de dizer que vou comprar guias de estudo. Eu não vou ficar brincando.

Gengibre velho é sempre mais ardido. Hettie Carven soltou um riso frio e debochado do outro lado da linha e desligou.

Julie suspirou. Hettie Carven. Dez anos depois, a eficiência brutal dela não tinha mudado nem um pouco.

Tania, parada ali perto com uma expressão perfeitamente calma, agiu como se não tivesse acabado de ser usada como álibi.

— Não se preocupa. Se a sua mãe me ligar, eu sei como te cobrir.

Antes que Julie conseguisse expressar toda a gratidão que sentia, Tania hesitou.

— Mas o que exatamente está acontecendo entre você e o Ryan?

Durante o verão, Tania tinha encontrado os dois no cinema. Naquela época, tudo parecia perfeitamente bem.

— Não aconteceu nada. — Julie não fugiu de assumir a culpa. Disse com sinceridade: — Ele é um cara legal. Eu só percebi que não gosto mais dele.

Ela não ia negar que o relacionamento da vida passada tinha sido real.

Mas não dá para sustentar uma relação só com a insistência de uma pessoa. Se você já não ama mais, forçar só machuca os dois.

Tania abriu a boca, claramente sem entender, mas isso não a impediu de ficar do lado da melhor amiga.

— Bom... tá, então.

Julie tinha combinado de encontrar Ryan no shopping mais popular do distrito. Naquele momento, vivia lotado de gente circulando. Daqui a dez anos, seria um shopping fantasma, mas, por ora, guardava algumas das lembranças mais profundas do seu tempo de escola.

Havia um ônibus direto saindo de fora dos portões da escola.

Tania e Beth moravam na direção oposta. Mas quando Julie se espremeu com força para entrar no ônibus lotado, sufocante de tão quente, ficou pasma ao ver Warren Gale bem ali, no meio do corredor!

Ela usou imediatamente o corpo pequeno para se esgueirar pela multidão, até parar bem ao lado dele. Ele estava de fone. Deve ser bom ser alto, pensou, com inveja. Ele alcançava com facilidade a alça acima da cabeça.

Warren não a percebeu de primeira. Estava totalmente imerso na música.

Ela teve que cutucar o braço dele de verdade. A voz familiar atravessou direto a melodia nos ouvidos dele. “Warren! Que coincidência, você também faz esse caminho?”

Warren virou a cabeça. Ao vê-la, a têmpora latejou. Ele se resignou ao destino, tirando um fone de ouvido. “...Hum.”

“Você vai descer em qual ponto?”

“Bem longe.”

Julie não insistiu. Não era que não se importasse, mas o ônibus estava tão lotado que conversar exigia ou gritar ou falar sussurrando bem no ouvido de alguém. Ônibus de sábado eram famosamente brutais. Toda vez que o motorista freava de uma vez ou acelerava, ela era jogada para a frente e para trás.

Depois de alguns pontos, ela ficou espremida, desconfortavelmente perto de Warren.

Warren conseguia sentir nitidamente a perna dela pressionando a calça de moletom dele.

Ele tentou se deslocar para o lado, mas o homem de meia-idade ao lado dele imediatamente rosnou: “Para de empurrar! Tá cego? Não tem onde ficar!”

A testa de Warren franziu. “Tá gritando com quem?”

No exato mesmo segundo, Julie rebateu: “Tá gritando com quem, porra?!”

Os dois congelaram, olhando um para o outro.

Em menor número e diante de um sarcasmo superior, o homem resmungou entre dentes e desviou o olhar, engolindo a raiva.

Warren inclinou levemente a cabeça. Julie estava se segurando no encosto de um banco. Sentindo o olhar dele, ela ergueu os olhos, e os dois se encararam. Ela sorriu, oferecendo um olhar de solidariedade. “Em dois pontos, vai esvaziar.”

Exatamente como ela previu, dois pontos depois, o corredor finalmente respirou aliviado.

Um assento bem ao lado de Warren ficou vago. Ele chamou o nome dela, esticando as pernas compridas para impedir que alguém pegasse.

Com uma naturalidade treinada, Julie se enfiou por baixo do braço que ele mantinha apoiado na janela e se jogou no banco. Olhou para ele, sorrindo. Notando a mochila pesada, ofereceu: “Warren, quer que eu segure sua mochila?”

“Não precisa.”

Warren segurou o celular com uma mão e ficou rolando a tela sem rumo, deliberadamente aparentando estar ocupado. Era o sinal universal de “já deu de conversar”.

Julie entendeu o recado alto e claro. Não forçou. Tirou o próprio celular da bolsa. Uma mensagem do Ryan apareceu: [Onde você está? Tem certeza de que não quer que eu vá te buscar?]

Ela digitou uma resposta rápida: [Não, já estou no ônibus.]

Mais um ponto se aproximou.

A garota sentada no banco da janela ao lado de Julie sussurrou: “Com licença, preciso descer.”

Julie puxou as pernas para dentro, virando de lado para deixar a garota passar. Então ela escorregou para o banco da janela, estendeu a mão e puxou com força a alça da mochila de Warren. “Rápido, Warren! Senta!”

Warren foi pego completamente desprevenido.

Antes que conseguisse entender direito o que estava acontecendo, ele já estava sentado. Encarou à frente, meio desnorteado. O que acabou de acontecer?

Sentada bem ao lado dele, sorrindo para ele, estava Julie. Ela usava um short jeans claro e puído, com as pernas pálidas e de tom uniforme à mostra. Enquanto o ônibus balançava, o joelho dela roçava de leve na calça de moletom cinza dele.

De repente, Warren Gale não fazia a menor ideia do que fazer com aquelas pernas compridas.

Eles estavam na mesma turma havia quase dois anos, mas era a primeira vez que se sentavam juntos, tão perto assim. A música martelando no fone parecia caótica. Aquela proximidade súbita e intensa estava fritando completamente os circuitos dele.

Quando o interfone anunciou a próxima parada, ele se levantou de repente.

O movimento brusco assustou Julie, que estava enrolando uma mecha de cabelo no dedo. Ela ergueu os olhos para ele, os grandes olhos expressivos perguntando em silêncio o que havia de errado.

Warren manteve a voz baixa. “É a minha parada.”

Julie piscou e então fez um aceno pequeno e fofo. “Tchau, até amanhã~”

Warren soltou um “Mn” engessado. O motorista pisou no freio. Ele estava completamente desnorteado e tropeçou de leve antes de se segurar no corrimão. No segundo em que as portas de trás se abriram com um chiado, ele praticamente saiu correndo do ônibus.

Ele parou numa esquina desconhecida. Não havia táxis à vista. Todos os que passavam estavam ocupados. Não teve escolha a não ser esperar o próximo ônibus.

Baixou os olhos e mandou uma mensagem para o melhor amigo: [Vou me atrasar. Se estiver com fome, come primeiro. Não me espera.]

Dentro do McDonald’s no primeiro andar do shopping, Hugh Nixon encarava o celular com atenção, completamente absorto num jogo. De repente, uma sombra bloqueou a luz. Adivinhando quem era, ele nem levantou a cabeça. “A partida tá quase acabando. Senta aí.”

Warren se sentou à frente dele, com a expressão completamente vazia. Não o apressou, mas também não pegou o próprio celular.

Só quando Hugh chamou seu nome é que Warren voltou à realidade.

“Com fome?” Hugh perguntou, lançando um olhar de leve desgosto para a pilha de embalagens de hambúrguer na mesa ao lado. “Quer comer aqui?”

“Qualquer coisa. Tanto faz.”

Hugh tirou alguns cupons da bolsa e passou os olhos por eles rapidamente. Nada parecia apetitoso. Deu de ombros. “Ah, dane-se. É um raro dia de folga, e eu tô de saco cheio da gororoba da cantina. Vamos subir e ver o que tem no quarto andar.”

Warren não se importava com o que iam comer. Pesado com os próprios pensamentos, ele se levantou e seguiu Hugh para fora do McDonald’s, entrando na escada rolante.

Hugh ainda estava decidindo que restaurante escolher quando olhou para trás e percebeu a testa de Warren profundamente franzida. Ergueu uma sobrancelha. “Tá pensando em alguma coisa?”

Eles tinham crescido juntos, embora agora estudassem em colégios diferentes.

A escada rolante subia devagar.

As luzes brilhantes do shopping banhavam o rosto de Warren, tornando sua distração dolorosamente óbvia. Se Gary Blacker tivesse perguntado, Warren não teria dito uma única palavra — principalmente porque isso envolvia uma garota da turma deles.

Mas Hugh era diferente. Ele estudava em outra escola, e Warren mantinha os lábios firmemente fechados.

Hugh continuou em silêncio.

Isso só o deixou ainda mais curioso. Espera, então existe mesmo um problema? Ele não insistiu, com medo de irritar o cara a ponto de ele se calar para sempre.

“Tem alguém agindo de um jeito estranho”, Warren murmurou por fim, mantendo a voz baixa quando chegaram ao segundo andar. Ele parecia profundamente irritado. “Fica me procurando pra falar um monte de merda aleatória.”

Aquilo era o máximo que ele estava disposto a admitir.

Ele não podia exatamente dizer ao melhor amigo que a garota parecia estar rastreando suas preferências pessoais, até a marca específica do leite local que ele bebia.

“Uma garota?”, Hugh perguntou.

Embora tivesse formulado como pergunta, seu tom era de absoluta certeza. Então ele franziu a testa. “Espera, isso não faz sentido. Você lida com esse tipo de coisa o tempo todo.”

Warren não era espalhafatoso, mas tinha todos os traços pelos quais as garotas costumavam ficar obcecadas. Tirando o fato de ser quieto e um tanto intimidador, ele era inegavelmente bonito e ridiculamente inteligente. Não tinha defeitos de verdade. Muitas garotas gostavam dele, e mais de algumas tinham coragem suficiente para se declarar na cara dele.

Logicamente, ele deveria ser um especialista em lidar com isso. Então por que estava agindo como se fosse a primeira vez que alguém tivesse uma queda por ele?

Warren apertou a ponta do nariz, com um fundo de completo desamparo na voz. “Ela é da minha sala.”

“O Gary não disse que uma garota da sua turma te deu chocolates no primeiro ou no segundo ano?” Por que aquilo não irritou ele na época, mas agora ele está praticamente tendo uma crise existencial? Ele conseguia lidar com isso quando era calouro, mas no último ano de repente ficou indefeso?

Se a curiosidade de Hugh estava em dez por cento antes, agora disparava para oitenta.

Warren: “...”

Ele explicou devagar: “Em primeiro lugar, não dá ouvidos às merdas que o Gary fala. Em segundo, eu já te disse, a gente é da mesma sala—”

A escada rolante chegou ao quarto andar.

Aquele andar era quase todo de restaurantes. Como era sábado, estava lotado, com filas se formando do lado de fora de quase todas as portas.

Sentada num banco do lado de fora de um dos restaurantes, uma garota bonita estudava um cardápio colorido com intensa concentração. Um cara de camisa preta e jeans se aproximou dela, segurando uma casquinha de sorvete mesclado. Ele se inclinou, sorrindo, e entregou a ela.

Ao lado deles, havia duas mochilas, ambas com chaveiros combinando idênticos.

Um era um porquinho rosa.

O outro era um porquinho cinza.

“Tá, eu sei que vocês são da mesma sala, e aí? Continua”, Hugh insistiu, ficando impaciente. Por que ele simplesmente parou de falar?

Ao lado dele, Warren lentamente desviou o olhar do casal.

Ele fez uma pausa por três segundos agonizantes.

“Finge que eu não disse nada hoje.”

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo