Capítulo 3 “Não olhe, não pense, não sinta”
Tania estava totalmente concentrada na tigelinha de macarrão à sua frente, praticamente engolindo tudo até a dor aguda da fome matinal finalmente diminuir. Ao desacelerar, percebeu pelo canto do olho que Julie não tinha dado uma única garfada.
Ela ergueu o olhar. Julie estava com o queixo apoiado nas mãos, praticamente brilhando com um sorriso secreto, prestes a desabrochar.
— No que você está pensando? — perguntou Tania, casual. Ela parece uma flor prestes a abrir.
Desde que acordara naquele pesadelo adolescente, Julie vinha entrando em espiral. Não era exatamente como se estivesse pulando de alegria agora, mas um peso enorme tinha saído do seu peito. Sabia que isso a deixava um tanto patética perto das heroínas viajantes do tempo dos romances, mas não se importava. Se não se desse algum tipo de recompensa psicológica, ela literalmente ia morrer de estresse no terceiro ano.
Ela conhecia todos os clichês de livro didático: Na vida, não existem atalhos.
Tudo bem. Ela não ia pegar atalho. Mas mudar para uma estrada direta, asfaltada, não era ilegal, certo?
— Nada — respondeu Julie, o apetite de repente voltando com tudo. Ela deu uma grande garfada no macarrão e soltou um suspiro dramático. — Meu Deus, isso tá tão bom!
Como ela não tinha percebido que a comida do refeitório era, na verdade, decente?
Uma tigela perfeitamente equilibrada de massa barata acertava em cheio de um jeito que almoços caros e pretensiosos no centro jamais acertavam. Como a escola era subsidiada, os preços eram rigidamente controlados — nada de taxas escondidas, nada de ficar revirando o caldo em desespero para achar uma fatia microscópica de carne, como se estivesse garimpando ouro.
Era a perfeição absoluta.
Tania riu.
— Você provavelmente só sentiu falta durante as férias de verão.
O calor do fim do verão ainda era pesado, e a sopa quente fez uma fina camada de suor brotar no nariz de Julie. Sempre cuidadosa, Tania enfiou a mão no bolso e lhe entregou um lenço. Agora que estavam satisfeitas, o próximo passo natural era pegar algo para beber. A lojinha de conveniência do campus ficava bem ao lado do refeitório e, embora o prédio acadêmico tivesse bebedouros, a umidade praticamente exigia alguma coisa bem gelada.
Elas entraram na loja. Mesmo tão cedo, estava lotada de estudantes.
— Warren! — uma voz alta gritou por cima do burburinho.
Julie e Tania viraram a cabeça ao mesmo tempo. Warren Gale, ainda com um leve suor do basquete da manhã, acabara de pegar uma garrafa d’água na geladeira. Ao reconhecer um colega de classe, fez um aceno seco e parou.
— Vocês vão pegar bebida? Espera aí, eu pago tudo.
Era só aquele grupinho no corredor.
— Ah, não precisa — o garoto sorriu, embora suas palavras fossem totalmente falsas. Na mesma hora, ele se virou para as garotas. — Anda logo! O Warren vai pagar pra gente. Peguem as coisas caras.
A expressão de Warren não mudou. Ele ficou de boa ao lado dos refrigeradores, puxando o celular do bolso para olhar a tela. A saída do ar-condicionado bem acima dele bagunçava seus cabelos escuros, deixando-o com um ar naturalmente — irritantemente — descolado.
Tania não ia recusar água de graça. Ela compraria uma para ele na próxima. Pegou uma Coca-Cola e olhou para Julie.
— O que você quer? — perguntou.
Julie vasculhou a geladeira. “Chá de mel com jasmim.”
“Peguei”, disse Tania, estendendo a mão para a garrafa. Mas sua mão congelou no meio do caminho. Ela se inclinou, baixando a voz para um sussurro preocupado. “Você não devia tomar chá gelado. Pega em temperatura ambiente.”
Julie piscou. “...”
Ela não tinha absolutamente nenhuma lembrança do seu ciclo menstrual de dez anos atrás.
Vendo a preocupação totalmente sincera de Tania com uma mentira que ela tinha tirado do nada para explicar o ataque de pânico mais cedo, Julie se apressou em inventar uma desculpa. “Ah, talvez não. Sinceramente, eu nem consigo lembrar.”
“Você é tão desligada”, Tania ralhou. Ela tinha certeza de que Julie só queria a bebida gelada, mas não insistiu. Afinal, Tania tinha comido escondida um picolé durante a própria menstruação no mês passado quando o calor ficou insuportável. A mãe tinha avisado que comer coisas geladas ia deixá-la infértil. Se eu ficar infértil, tanto faz, Tania tinha se revoltado na própria cabeça.
“Tá. Você quer o gelado?”
“Quero!” Julie assentiu, animada. Ela queria dizer a Tania que, em dez anos, ela seria o tipo de psicopata corporativa sem piedade que bebia café gelado com gelo extra nas manhãs congelantes de inverno. Uma garrafa de chá só um pouco gelada não era nada. Além do mais, ela tinha duas aulas seguidas de matemática pela frente. Se não tomasse alguma coisa gelada, ela literalmente ia desmaiar e morrer.
Warren lançou um olhar rápido, os olhos escuros passando por elas sem se deter, enquanto o outro garoto pegava a bebida dele. O grupo caminhou até o caixa. Warren foi na frente, tirando uma nota de vinte dólares da carteira, entregando ao atendente e enfiando o troco de volta no bolso.
“Valeu, Warren!”, o garoto gritou quando saíram da loja.
Warren respondeu com um murmúrio baixo de confirmação. Levantou a mão e, com facilidade, desenroscou a tampa da garrafa d’água, inclinando a cabeça para trás. O pomo de Adão subiu e desceu num movimento seco enquanto ele engolia metade da garrafa de uma vez, sem respirar.
“Obrigada, Warren.”
Julie deu dois passos calculados na direção dele. Seguindo o exemplo de Tania, abriu um sorriso amplo e agradecido. “A gente te paga da próxima.”
Ao contrário dos representantes de turma empolgados demais das salas ao lado, Warren Gale quase nunca falava a menos que falassem com ele. Fora do grêmio estudantil, ele não parecia particularmente próximo de ninguém. Quando, no segundo ano, dividiram a turma entre as trilhas de Humanas AP e Exatas, a professora responsável simplesmente o nomeou representante porque ele era o primeiro colocado da escola — uma regra silenciosa e absoluta. Se as notas dele não fossem assustadoramente altas, provavelmente seria totalmente invisível.
Warren claramente encarou a promessa dela como mera gentileza vazia. Não ia discutir nem dizer “Não precisa”.
Encontrou o olhar dela por um segundo, fez um aceno curto e rosqueou a tampa de volta com firmeza. Não tinha interesse nenhum em conversa fiada. “Vou voltar.”
“Até mais”, Julie cantarolou.
Warren não reagiu, indo embora com passos longos e constantes. Quando ele e o amigo já estavam fora de alcance, Tania se inclinou, bem perto. “É melhor você não estar bajulando ele só pra fazer ele aprovar um atestado falso. Ele é totalmente impiedoso.”
Julie a encarou, sem entender, por um segundo, até que finalmente caiu a ficha do que Tania queria dizer.
A posição de Warren não era só um título vazio. Ele tinha poder de verdade. Quando o professor responsável pela turma não aparecia, era ele quem podia autorizar saídas rápidas dentro do campus. Ele distribuía as tarefas semanais de limpeza. E, mais importante, o professor tinha entregado a ele um caderno que a turma inteira chamava de “Livro dos Mortos”. Se alguém causasse confusão durante a aula ou matasse o estudo dirigido mais cedo, Warren anotava o nome da pessoa.
Ninguém pegava birra dele por causa disso, principalmente porque ele não era um tirano. O “Livro dos Mortos” costumava ficar vazio, a menos que alguém realmente enfurecesse um professor a ponto de fazer a pressão subir.
Julie ficou sem palavras. “...”
Ela acha mesmo que eu sou tão superficial assim?
Tá, tudo bem. No segundo ano, de vez em quando ela tinha puxado o saco dele para conseguir um atestado e escapar das voltas correndo na Educação Física.
Mas agora eles estavam no último ano. Ela não ia mais fazer essas idiotices — embora tivesse certeza de que hoje à noite ia bocejar até deslocar o maxilar no estudo dirigido da noite.
“Tá, tá”, resmungou Julie, sem nem se dar ao trabalho de se defender do próprio prontuário de crimes.
As duas voltaram caminhando para a sala com as bebidas na mão. Elas tinham quarenta minutos entre o estudo dirigido da manhã e a primeira aula oficial. A rádio do campus já estava despejando pop do começo dos anos 2000 nos alto-falantes. Melhores amigas passeavam de braços dados ao redor do prédio acadêmico; meninos jogavam umas partidas improvisadas nas quadras.
Cercada por aquela energia crua e jovem, Julie não conseguiu evitar um sorriso.
Ela precisava enxergar o lado bom. Ser aluna não era um pesadelo completo. Ela ainda achava que vinte e sete era infinitamente melhor do que dezessete, mas pelo menos não precisava mais lidar com os pais pressionando agressivamente para ela se casar!
Ela ainda não entendia quem tinha se ofendido com o fato de ela estar solteira aos vinte e sete. Pelo visto, parecer independente demais irritava as pessoas.
A recusa dela em “assentar” tinha sido exatamente o motivo de ela ter terminado com o ex.
Quando se conheceram, ela ficou completamente apaixonada. Ele era lindo, exatamente do jeito que agradava ao gosto dela. Mas, com exatos três meses de relacionamento, a fantasia morreu. O imbecil realmente a pediu em casamento, desesperado para prendê-la num matrimônio. Três meses! Não era nenhum romance verdadeiro, único na vida. Ela mal sabia quem o cara era de verdade — quanto mais se as personalidades deles combinariam pelos próximos cinquenta anos. Era pura insanidade.
Julie inclinou a cabeça para trás e inspirou fundo o ar fresco da manhã, como se limpasse os pulmões.
Graças a Deus. Eu não vou ter que ouvir essa merda por pelo menos mais dez anos.
O sorriso desapareceu no exato segundo em que ela cruzou a porta da sala.
Ela se jogou na cadeira, conferindo o relógio. Oito minutos até a primeira aula. Desenroscou a tampa do chá gelado, deu um gole desesperado para acordar o corpo e varreu a sala com os olhos, sem pressa.
Havia quarenta e dois alunos espremidos na sala. Apesar do barulho, uma excitação secreta vibrava no peito dela. Tirando as pessoas com quem mal falava, ela basicamente conhecia o futuro de metade da sala. Era uma tortura não poder fofocar sobre isso. Se começasse a prever o futuro ali mesmo, arrastariam Julie até a sala da orientadora e presumiriam que a pressão do último ano finalmente tinha acabado com a sanidade dela.
— O que você está olhando? — Beth Meier, sua colega de carteira, largou um pacote de Cheetos sobre a mesa de Julie. — O celular descarregou?
O corpo de Julie reagiu por puro instinto. Ela agarrou o pacote e o abriu num movimento só. — ...É. Valeu por me lembrar. Preciso colocar no silencioso.
Dez anos atrás pareciam a idade das trevas, mas ainda existiam smartphones. Como todo mundo morava nos dormitórios, os professores geralmente faziam vista grossa. Mas, se você fosse burro o bastante para mexer nele durante a aula e fosse pego pelo coordenador disciplinar rondando os corredores, estava morto. Ser confiscado era o menor dos seus problemas; iam ligar para os seus pais.
Os celulares eram inteligentes, mas a memória e a qualidade da câmera eram um lixo comparadas às do futuro.
— Então por que você está aí meditando? — Beth suspirou, se jogando na própria cadeira.
— Pensando em dois tempos de matemática... — Julie comprimiu os lábios. — Eu não posso viver assim!
— Você pelo menos olhou a grade da tarde? — Beth sussurrou como uma verdadeira demônia. — Dois tempos de biologia, dois tempos de física e um teste durante o estudo noturno, segundo os boatos.
Julie quase caiu no choro.
Ela não conseguia suportar esse tipo de sofrimento. Preferia ficar acorrentada à sua baia fazendo hora extra não remunerada!
Ela e Beth eram irmãs acadêmicas na desgraça. Permaneciam firmes na faixa médio-alta do ranking da turma. Era um lugar assustador de se estar, porque as notas delas oscilavam violentamente, enquanto os melhores alunos e os fracassados absolutos não saíam nem um centímetro do lugar.
Julie perdeu o apetite na mesma hora. Virou-se e despejou o pacote de Cheetos sobre a carteira logo atrás dela.
O garoto atrás dela abriu um largo sorriso, enfiando um punhado na boca. — Obrigado pela bênção, Julie.
Julie puxou o livro de matemática e as provas. Só de encarar as equações, já ficava enjoada. Desesperada por uma distração, deixou o olhar passear pela sala, até se fixar em Warren Gale.
Ela encarou Warren atentamente, até ser atingida por uma percepção profundamente deprimente.
O pagamento da empresa caía no dia dez.
Ela tinha viajado no tempo no dia nove.
Por que eu não podia ter voltado só três dias depois?!
Aff!
Pensando bem, não. É só me mandar de volta agora! Eu fico com o emprego!
Warren estava completamente concentrado em resolver um problema, surdo ao caos ao redor. Mas, no instante em que a caneta dele deixou o papel, seus instintos aguçados entraram em ação. Ele sentiu o peso inconfundível de alguém o encarando.
Virou a cabeça, os olhos escuros vasculhando a sala, mas não flagrou ninguém olhando.
Quando recolheu o olhar, avistou Julie sentada algumas fileiras adiante. Era impossível ignorá-la. Ela estava sentada rigidamente à carteira, com os olhos bem fechados e as mãos fortemente unidas diante do rosto, como se estivesse rezando desesperadamente por salvação.
