Capítulo 4 “O teste de matemática e a crise existencial”

Julie Carven estava realmente rezando para todos os deuses de que conseguia se lembrar, mas era completa e tragicamente inútil.

O sinal estridente tocou, e a professora de matemática entrou na sala a passos firmes. Tinha uma pilha grossa de provas bem presa debaixo do braço e uma garrafa térmica na mão. Seu olhar de gavião varreu a sala cheia de adolescentes exaustos e largados nas carteiras. — A aula começa agora!

— Bom dia, professora — a turma respondeu em coro, sem entusiasmo. Pelo menos metade da sala parecia praticamente um bando de mortos-vivos.

A professora tinha passado uma quantidade brutal de simulados, e aquele dia era exclusivamente para revisar as respostas. Julie baixou os olhos para a folha, depois ergueu o olhar para o quadro, completamente perdida. Podia muito bem estar ouvindo latim antigo. Seu corpo, porém, reagia por puro instinto animal de sobrevivência. Toda vez que os olhos da professora passavam pela parte da sala onde ela estava, a cabeça de Julie baixava no mesmo instante para encarar a carteira.

Ela queria desesperadamente acompanhar a explicação. Mas nem tinha conseguido processar o primeiro passo da equação quando a professora já passava para o problema seguinte.

Quarenta e cinco minutos de puro sofrimento.

Com o coração afundando, Julie percebeu que tinha subestimado gravemente aquilo. Na vida corporativa, reuniões longas eram dolorosas, mas pelo menos ela podia se desligar mentalmente e ficar sonhando acordada. Ali, precisava forçar o cérebro a absorver informação ativamente.

Foram os quarenta e cinco minutos mais longos de toda a vida dela.

Quando o sinal do fim da aula finalmente tocou, soou como um coral de anjos. Julie reviveu na hora e se inclinou para o lado, cutucando com o cotovelo a colega de carteira. — Você entendeu alguma coisa daquilo?

Beth Meier se espreguiçou preguiçosamente, estalando os ombros. — Se eu tivesse entendido tudo aquilo, você acha mesmo que eu ainda estaria sentada do seu lado?

Julie mordeu o lábio. Justo.

A professora regente não fazia caridade. Os lugares na sala eram definidos estritamente pelas notas nas provas. Os alunos do topo não eram santos de coração mole; mal tinham tempo para dar conta da própria carga absurda de estudos, quanto mais para ficar dando aula particular para o pessoal do meio da tabela. Por causa disso, Julie e Beth basicamente viviam grudadas todo semestre, sentadas lado a lado ou uma na frente da outra.

Vendo a expressão de Julie amarga como limão espremido, Beth deu um sorrisinho. — O que deu em você? Está pensando em entrar na linha e virar uma estudiosa?

Julie teve vontade de xingar os céus. Se era para renascer, por que não podia ter voltado no dia seguinte ao SAT?

— Vou lavar o rosto — murmurou ela, levantando-se de repente.

Ela não podia fracassar. Se fosse um desastre completo no SAT, os pais dela literalmente a matariam, e ela também não conseguiria viver com a humilhação. A partir daquele momento, decidiu que lavaria o rosto com água gelada depois de cada aula, sem falta, para dar um choque no próprio sistema. Estava se dando exatamente um mês para colocar de volta em funcionamento seu QI de ensino médio. Se não conseguisse, ia morrer ali mesmo.

Enquanto Julie saía da sala a passos firmes, com uma expressão pesada e sombria, Dan Butler espiou por cima da mesa atrás deles.

— O que deixou a Julie assim?

Beth deu de ombros.

— Cuida da sua vida.

No corredor lotado, Julie seguiu em direção ao banheiro. Sempre a impressionava o quanto os adolescentes conseguiam fazer em dez minutos de troca de aula. Em meio aos alunos rindo e correndo, ela flutuava como um fantasma miserável.

Ela parou diante da pia, abriu a torneira de água fria e jogou água no rosto, molhando os cabelinhos finos da testa.

— Julie!

Alguém se aproximou da pia ao lado, chamando seu nome com surpresa genuína.

Julie virou a cabeça, forçando um sorriso educado.

— Ah, oi. Que coincidência.

Era Erica Darshi. No primeiro ano, antes de as turmas serem separadas, elas tinham ficado na mesma sala de referência e dividido um chalé durante o retiro de integração dos calouros. Tinham sido próximas, mas, depois que Erica foi para a trilha de Humanidades AP e Julie foi para STEM, naturalmente se afastaram.

— Você está sozinha? — Erica perguntou.

— Só estava me sentindo um pouco sufocada — Julie suspirou, enxugando o rosto. — Precisava de água gelada.

— Está absurdamente quente hoje — reclamou Erica, esfregando tinta de caneta das mãos. — Você não faz ideia de como os meninos da minha sala fedem. Eu literalmente tenho que passar Vicks embaixo do nariz só pra conseguir respirar sem engasgar!

Vicks?

Os instintos corporativos de sobrevivência de Julie despertaram na mesma hora.

— Isso realmente te ajuda a ficar acordada?

— Arde nas narinas, mas é um milhão de vezes melhor do que o cheiro de suor de adolescente — Erica fez uma careta exagerada. — Juro que eles nem tomam banho. É nojento.

Julie riu.

— Então fala isso pra eles.

— Eles dizem que é o “cheiro viril” deles — Erica revirou os olhos dramaticamente.

Julie não conseguia se identificar com isso. Ela sempre tinha gostado de garotos que praticavam esportes, mas eles estavam sempre impecavelmente limpos perto dela. O gosto dela para homens era incrivelmente específico e totalmente inabalável: altos, de pernas longas, atléticos e meio simplórios. Uma vez, a prima dela resumiu seu tipo com crueldade em duas palavras: idiotas adoráveis.

— Até mais, Julie! — Erica acenou quando as próprias amigas a chamaram.

Julie guardou aquilo mentalmente. Não sabia se a loja de conveniência do campus vendia Vicks, mas com certeza podia perguntar por aí. Mesmo que não conseguisse entender o professor de matemática, ela precisava forçar os olhos a ficarem abertos e se concentrar.

Ela fez o caminho mais longo de volta para a Turma Três, se incentivando para a próxima aula.

Como estava tão mergulhada nos próprios pensamentos, não percebeu a atenção que atraía ao passar pelas outras salas. As hierarquias do ensino médio costumavam ser rigidamente divididas. Os alunos de STEM não se importavam com quem era o melhor aluno de Humanidades, e vice-versa. Mas uma garota bonita era uma moeda universal.

—Quem é ela? —sussurrou um garoto encostado na parede, cutucando o amigo com o cotovelo.

—Acho que é do Terceiro Ano.

O grupinho de caras entediados começou a secá-la sem pudor, com os olhos demorando nas pernas e na curva suave da cintura. Um deles abriu a boca para fazer um comentário—

E, no mesmo instante, engasgou com o próprio ar.

O grupo inteiro enrijeceu quando uma figura alta e imponente passou por eles. O passo de Warren Gale diminuiu só um fiapo. Ele não disse uma palavra. Não precisava. Apenas virou a cabeça, e seus olhos escuros cortaram os garotos com um olhar frio, sem vida.

Era um olhar com um peso real, sufocante. Garotos adolescentes geralmente não demoravam a se armar diante de um olhar atravessado, mas, sob o olhar de Warren, toda a briga simplesmente escorreu deles.

—Qual é o problema dele? —sibilou um deles depois que Warren se afastou.

—Cala a boca, aquele é o Warren do Terceiro Ano —murmurou o amigo, encolhendo-se.

Alguns representantes de turma eram ferozmente protetores dos seus. Ouvir caras de outra turma objetificando abertamente uma garota da sala dele obviamente tinha passado dos limites.

—Tanto faz. Eles estão namorando ou alguma coisa?

—Nem ferrando...

Os melhores alunos eram os tesouros supremos dos professores. Mesmo que tivessem quedas secretas, a administração da escola esmagaria qualquer romance com agressividade no último ano.

—Então por que diabos ele tá encarando a gente? —resmungou o primeiro garoto, embora estivesse pálido. Eles se dispersaram depressa antes que algum professor os pegasse vadiando.

De volta à carteira, Julie não fazia ideia de que seu futuro chefe acabara de “executar” em silêncio um grupo de caras em nome dela. Pegou a caneta e, com solenidade, começou a escrever um plano de sobrevivência num pedaço de papel.

  1. Vicks (mandar mensagem pra mamãe comprar na farmácia, pegar no fim de semana).

  2. Café instantâneo e uma garrafa térmica opaca.

  3. Exercício acorda o cérebro. Dar voltas correndo na pista toda manhã ou à noite.

Era um plano brilhante, infalível.

Exatos dez minutos depois do começo da segunda aula, ela começou a cochilar.

A colega de carteira dela, Beth, era uma mestre em fazer mil coisas ao mesmo tempo. Sentada com a testa franzida, parecia completamente absorvida pela explicação do professor. Mas, por baixo da carteira, o lápis dela voava por um papel de rascunho, e o som suave de risca-risca era surpreendentemente tranquilizante.

Julie se inclinou um pouco, com os olhos sonolentos atraídos para o papel.

Na vida passada, ela tinha mantido contato com Beth, mandando mensagens aleatórias algumas vezes por ano. Julie não conseguia lembrar de que Beth tinha se formado de fato, mas com certeza não era nada ligado à arte. Depois de trabalhar dois anos num emprego corporativo miserável para “manter os sinais vitais”, Beth surtou de vez. Pediu demissão, se mudou para uma cidade remota e barata e virou artista em tempo integral.

Especificamente, uma artista que desenhava putaria altamente explícita e incrivelmente popular.

Beth nunca revelou exatamente quanto ganhava com suas encomendas online, mas com certeza era o bastante para bancar uma vida muito confortável e luxuosa.

Julie se inclinou para olhar melhor o esboço, sua eu interior de vinte e sete anos praticamente ofegando. A diferença de altura. Meu Deus, sim.

Por enquanto, era só uma arte de linhas, bruta e sem rosto. Um cara alto e de ombros largos abraçava uma garota menor por trás. As mãos fortes dele estavam firmemente enroladas na cintura dela, prendendo-a completamente numa gaiola de braços, enquanto o queixo dele repousava inocentemente no topo da cabeça dela.

Quem não iria querer isso?

Beth sentiu Julie encarando. Ela parou o lápis e lançou para Julie um olhar enviesado e presunçoso. “Nada mal, né?”, articulou em silêncio.

“Incrível”, Julie sussurrou de volta em inglês.

Se Julie tivesse mesmo dezessete anos, talvez tivesse corado. Naquela época, ela era tão inocente que ler uma descrição vaga num romance sobre “ondulações num copo d’água na mesa de cabeceira” já a fazia esconder o rosto no travesseiro.

Mas agora? Se um romance não pisasse fundo no acelerador, ela não tinha interesse.

Sinceramente, a arte da Beth tinha moldado completamente o gosto de Julie por homens. Ela adorava caras de ombros largos e porte forte, imponente, mas sem aquele visual musculoso exagerado. Todos os caras com quem ela já tinha saído se encaixavam naturalmente exatamente nesse perfil.

Beth sorriu, profundamente satisfeita com o maior elogio que sua melhor amiga podia oferecer.

Mas o que Julie não sabia era que todo artista precisava de uma musa. No primeiro semestre do segundo ano delas, Beth estava sentada na arquibancada durante a aula de educação física, procurando inspiração. Seus olhos tinham se fixado numa garota de rabo de cavalo balançando, inclinando a cabeça para trás para olhar para um garoto alto e indiferente.

“Warren, juro que estou me sentindo tão mal”, a garota havia reclamado, batendo os cílios. “Se eu correr os 800 metros, eu vou literalmente desmaiar.”

O garoto olhou para ela de cima por um longo e pesado momento antes de fazer um único aceno curto e seco com a cabeça. Livre da tortura, a garota saiu correndo na mesma hora, esquecendo completamente de fingir que estava doente, parecendo leve como o ar.

O lápis de Beth tinha atingido o papel instantaneamente, capturando de forma agressiva a tensão crua e a enorme diferença de altura entre os dois.

“Mas...”, Julie murmurou, verificando com cuidado se a professora de matemática ainda estava escrevendo no quadro-negro. Ela se inclinou mais para perto, baixando a voz para um sussurro cúmplice. “Seja mais ousada. Não deixa só o queixo dele apoiado na cabeça dela. A pose está rígida demais.”

Julie bateu de leve no papel. “Faz ele enterrar o rosto bem no pescoço dela.”

Respiração quente roçando na pele sensível... ah, sim, por favor.

Os olhos de Beth se acenderam na mesma hora com um fogo criativo sombrio. “Porra, sim!”

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