Capítulo 5 “Arte obscena e instintos de sobrevivência”

“Todo mundo entendeu?”

A professora de matemática bateu com força na lousa com o giz. Distraída, Julie Carven abandonou na hora os pensamentos bagunçados e inapropriados sobre a arte obscena de Beth e fixou o olhar na lousa. As fórmulas pareciam vagamente familiares, mas ela ainda assim não conseguia decifrar nenhuma.

Um coro espalhado e fraco respondeu de volta:

— Sim...

Julie se sentia uma completa analfabeta em desespero, mas não ia levantar a mão e admitir que não fazia a menor ideia do que estava acontecendo. A ansiedade disparou. No exato segundo em que o sinal de saída tocou, ela pulou da carteira e saiu correndo direto para a lojinha de conveniência do campus.

Ela podia não entender a matéria, mas a atitude precisava estar perfeitamente alinhada.

A lojinha do campus podia ser pequena, mas tinha de tudo. Julie passou os olhos pelas prateleiras e logo avistou o Vicks. Era claramente um dos mais vendidos entre os alunos do último ano. Pegou uma latinha e a apertou na palma da mão. O metabolismo de um veterano do ensino médio era assustador; depois de só duas aulas, ela já sentia como se nem tivesse tomado café da manhã. Pegou também um pacote de bolacha água e sal, por precaução.

Enquanto ia em direção ao caixa, viu de relance, pelo canto do olho, umas costas largas e familiares.

Warren Gale.

Julie quase deu um tapa na própria testa e apressou o passo para entrar na fila bem atrás dele.

— Warren, deixa que eu pago o seu!

Ela tinha prometido retribuir depois do horário de estudo da manhã, mas não esperava que a chance aparecesse tão rápido.

Ao ouvir a voz dela, clara e animada, Warren virou a cabeça, os olhos escuros pousando no rosto de Julie. Ele estava revisando mentalmente o último problema da prova de química avançada e nem tinha notado quem estava atrás. Arrancado daquele raciocínio complicado, apenas murmurou:

— Não precisa.

— Eu insisto!

Pagar ativamente por algo é completamente diferente de pagar passivamente por algo, lembrou-lhe o cérebro corporativo de Julie.

Uma colega que se sentava ao lado dela no escritório vivia reclamando do antigo gerente. O cara era famoso por ser mão de vaca. Pedia que ela pedisse comida para ele, comia feliz o almoço cheiroso e depois “esquecia” magicamente de devolver o dinheiro.

Agora, Julie estava mais do que feliz em pagar a conta.

Bajular o futuro chefe era uma coisa; reembolsá-lo pela água da manhã era só o básico da boa educação no networking.

Julie ergueu os olhos para ele, com o olhar quase brilhando.

— A gente já combinou, não foi?

Warren ia pegar um pacote de balas de menta do expositor. Ao ouvir a insistência, recolheu a mão e olhou para a garrafa de água que tinha colocado no balcão. Dois dólares.

Ficou em silêncio por alguns segundos e então não recusou de novo.

Julie colocou o Vicks e as bolachas no balcão. Ao se mover, seu braço nu roçou sem querer no dele. Ela nem percebeu; virou-se para o caixa com um sorriso.

— Vou pagar o dele também.

Warren mudou o peso do corpo, dando um meio passo discreto para a frente.

Julie estava de jeans justo naquele dia, então a carteira não cabia; ela só enrolou um pouco de dinheiro e enfiou no bolso. Os três itens deram exatamente dez dólares.

Depois de pagar, ela pegou a garrafa de água pelo meio e estendeu para ele, oferecendo um sorriso doce.

— Aqui, Warren.

Warren pegou, e os dois saíram da loja um atrás do outro.

Aí veio a parte constrangedora. Eles eram colegas de classe. Os dois tinham que voltar para a mesma sala. Andar lado a lado parecia íntimo demais, mas ir em fila, como estranhos, era bizarro.

Julie vasculhou a mente desesperadamente, tentando se lembrar de como era a dinâmica entre eles na vida passada.

Nessa idade, todo mundo já tinha seu grupinho de amigos bem estabelecido. Os melhores alunos não andavam só com outros melhores alunos, mas, ao longo dos três anos do ensino médio, ela e Warren mal tinham trocado uma palavra — tirando as poucas vezes em que ela implorou, com certa agressividade, para ele aprovar um atestado.

Se ela fosse de fato a Julie ingênua de dezessete anos e trombasse com ele na loja, provavelmente só teria soltado um “oi” rápido e fugido. Com certeza não teria tentado puxar conversa fiada.

Mas agora?

Se ela não tivesse voltado no tempo, encontrar o CEO fora do trabalho teria provocado nela um ataque de pânico instantâneo. Ela não ia querer conversar; não ia nem querer fazer contato visual. Mas a situação era completamente diferente agora. Warren Gale ainda não era o chefe dela. Ela planejava pegar carona no sucesso dele. E não precisava primeiro preparar um pouco o terreno?

Se continuassem completos estranhos, como ela poderia aparecer do nada quando ele abrisse a empresa de tecnologia na faculdade e dizer: “Ei, me deixa trabalhar pra você”?

Um plano não passa de fantasia se você não colocar em prática, ela lembrou a si mesma.

Julie parou de hesitar. Quando Warren parou por uma fração de segundo, claramente esperando que ela seguisse em frente, ela caminhou com naturalidade até ficar bem ao lado dele, acompanhando o passo com perfeição.

— Warren, a gente tem prova no estudo dirigido de hoje à noite?

Warren: “...”

Uma leve onda de confusão passou por ele. Ele realmente não entendia o que estava acontecendo.

Mas, ao olhar para baixo e ver a expressão ansiosa de Julie, completamente atenta, ele logo chegou a uma teoria lógica. Toda vez que eles tinham interagido antes, era porque ela queria alguma coisa dele — geralmente uma autorização pra sair do corredor.

— Tem — ele assentiu.

Pelo que Julie se lembrava, o estudo dirigido à noite era basicamente um campo de batalha. Os professores distribuíam uma pilha de provas, obrigavam a turma a fazê-las em silêncio e depois corrigiam as respostas sem nem sequer dar nota. Era um mar puro e implacável de folhas de teste. Se você faltasse meio dia por doença, voltava na manhã seguinte e encontrava pelo menos três provas em branco esperando na sua carteira.

Pelo menos não era uma prova formal de meio de semestre.

Ela soltou um suspiro baixo e pesado. Pensar nas provas a fez lembrar que, em exatamente um mês, a escola faria seu primeiro simulado gigantesco de preparação para o SAT. Depois disso, eles aconteceriam todos os meses. Ela não fazia a menor ideia de como ia sobreviver ao SAT de verdade. Só de pensar nisso, o céu parecia ficar cinzento.

Warren já conseguia prever o próximo passo dela. Ela provavelmente ia piscar os cílios e dizer: “Warren, não estou me sentindo bem hoje à noite... posso faltar ao estudo dirigido?” Ele lançou um olhar de lado, esperando. Não disse uma palavra.

— Warren... — Julie começou, desesperada, agarrando-se a qualquer coisa para manter a conversa viva. — Eu vi você jogando basquete hoje. Você sempre toma café da manhã antes do estudo dirigido de manhã cedo?

As sobrancelhas de Warren se franziram num cenho quase imperceptível. Por instinto, ele acelerou o passo, esperando chegar mais rápido à sala.

Julie acompanhou a velocidade sem esforço, grudada nele como cola.

Quando pisaram na escada que levava ao prédio das salas de aula, ele deu uma resposta seca, indiferente:

— Sempre.

— Isso é cedo pra caramba — Julie se espantou.

Acordar às seis quase tinha matado ela hoje, e ainda assim ela mal conseguiu chegar a tempo na aula. Que horas ele acordava? Para tomar café, revisar as anotações com a cabeça limpa e ainda ter tempo de arremessar na quadra antes do primeiro sinal?

Esse homem nasceu pra ser bilionário.

— Malhar de manhã deixa mesmo o cérebro mais afiado? — ela insistiu.

Warren definitivamente não achava que eles tinham intimidade suficiente para esse papo prolongado, mas, com aqueles olhos enormes e atentos totalmente fixos nele, sentiu-se estranhamente obrigado a responder. Ele fez um único aceno contido.

— Deixa.

Então exercício realmente funciona, Julie observou para si mesma.

Se não servisse para mais nada, pelo menos aumentaria sua resistência física. Antigamente, as pessoas literalmente caíam mortas de exaustão por causa dos estudos; então, se ela conseguisse melhorar o fôlego, talvez estudar não parecesse tão agonizante.

Ela decidiu implementar oficialmente o terceiro item da sua lista de sobrevivência.

Amanhã de manhã, ia correr voltas na pista. Quando o campo estivesse vazio, poderia recitar em voz alta seu vocabulário de inglês e as fórmulas de matemática.

O tempo estava acabando. Ela não podia se dar ao luxo de continuar reclamando.

— Sério? — Julie perguntou, fingindo estar profundamente fascinada com a rotina dele. — Warren, você nunca fica cansado durante o dia?

— Não.

Julie: “...”

Ela sabia que era uma conversa dolorosa e forçada. Mas, por outro lado, a menos que duas pessoas tivessem química instantânea, não começavam todas as amizades com um papo constrangedor? Você conversa uma vez, conversa duas, e, no fim, já existe familiaridade. Ela sabia que tecnicamente não precisava fazer aquilo — podia simplesmente ficar de olho na carreira dele e se candidatar a uma vaga quando a empresa dele fosse lançada oficialmente. Mas ela tinha renascido! Por que alguém viajaria no tempo só para se contentar com um cargo inicial de “funcionária comum”?

Ela precisava ser ousada!

O quão ousada ela poderia ser... bem, isso ela descobriria depois.

Os dois entraram pela porta dos fundos da sala exatamente ao mesmo tempo.

A maioria dos alunos exaustos nem levantou a cabeça, mas alguns com certeza notaram. Um deles era Gary Blacker, melhor amigo e colega de carteira do Warren.

Gary estava arrumando suas anotações bagunçadas. Quando Warren se sentou, Gary perguntou, casualmente:

— O que a Julie Carven queria com você?

Warren hesitou por uma fração de segundo.

— Nada.

E realmente não era nada. Só um monte de conversa aleatória e inútil.

— Passa aqui — exigiu Gary, estendendo a mão.

Os dez minutos do intervalo entre as aulas eram incrivelmente preciosos. Os alunos que não dormiam o suficiente desabavam com a cara na carteira, enquanto outros tentavam, desesperados, enfiar comida na boca. Alguns ouviam música. Gary usava o tempo para ler revistas de esportes, gastando toda a mesada nas edições mais novas.

Quando viu Warren indo à loja mais cedo, tinha pedido que ele comprasse umas balinhas de menta.

Warren abriu o livro, a voz perfeitamente calma.

— Esqueci.

Gary virou a cabeça devagar para encarar Warren, com um olhar profundamente traído.

— Você esqueceu??

Que desperdício total de emoção. Ele praticamente já estava pronto para chamar Warren de sugar daddy.

Warren enfiou a mão no nicho da carteira, puxou um único chiclete de hortelã-verde e jogou sobre a mesa de Gary.

— Masca isso.

Gary revirou os olhos com tanta força que quase viu o próprio cérebro.

— Eu desisto de você. Como é que eu vou sobreviver à próxima aula com um pedacinho de chiclete?!

As notas do Gary eram incrivelmente desequilibradas. As pontuações dele em inglês eram um lixo absoluto em comparação com o resto da turma. Se as notas de matemática e física não fossem praticamente de nível genial, a colocação geral dele teria despencado.

Gary estava sofrendo.

Julie, por outro lado, estava praticamente radiante.

A aula de inglês da manhã finalmente tinha lhe dado um fiapo de confiança. Na vida passada, ela tinha passado no College English Test Band 6. Claro, depois de se formar, tinha deixado o idioma de lado por alguns anos, mas voltou a usar inglês quando entrou no mundo corporativo. Chamar aquilo de retorno à “vila do tutorial” era exagero, mas, se ela se esforçasse, inglês definitivamente seria sua zona de conforto.

Ela fez as contas rapidamente, de cabeça.

Ela não podia entrar em pânico nem sair correndo sem rumo. Um mês era pouco demais para fazer um milagre. Sua primeira prioridade precisava ser maximizar seus pontos fortes e esconder suas fraquezas. Ela ia se concentrar totalmente nas três matérias principais: Literatura AP, Matemática e Inglês.

A maioria dos calouros e alunos do segundo ano era de estudantes que iam e voltavam todos os dias, mas, no terceiro ano, quase todo mundo morava no campus. Mesmo assim, durante o intervalo do almoço, alguns veteranos desesperados pulavam o refeitório para caçar comida de verdade do lado de fora dos portões.

Julie estava arrumando a mesa, pegando com hesitação um livro de matemática para revisar antes da soneca da tarde. Tania se aproximou com a carteira na mão. “O Gary e os amigos dele vão dar uma passada na rua de trás. Quer que tragam alguma coisa?”

Beth fez um gesto de desdém com a mão. “Não.” Eles tinham voltado das férias de verão ontem; ainda não estavam desesperados por comida de fora.

Tania riu. “Eu estava com vontade de um hambúrguer mais cedo, mas agora nem quero mais.”

“Eu preciso de alguma coisa!” A cabeça de Julie se ergueu num estalo. Os olhos dela se fixaram na hora na silhueta larga de Gary do outro lado da sala.

Julie não tinha sido próxima de Gary no ensino médio, mas na vida passada eles tinham virado amigos bem próximos.

Gary também tinha ido para uma universidade na capital. Ele e Warren não estudaram exatamente na mesma instituição, mas continuaram incrivelmente unidos. No fim, Gary se tornou um dos sócios fundadores da empresa de tecnologia de Warren, embora corresse o boato de que ele havia entrado por último e ficado com a menor porcentagem de ações.

Como eram colegas de turma, todo mundo mais ou menos sabia da situação familiar uns dos outros. Diziam que a mãe de Gary era uma funcionária do governo em cargo alto.

Os executivos do alto escalão da empresa de Warren costumavam ser bem pés no chão. O próprio Warren mantinha um perfil assustadoramente discreto, vestindo-se de forma casual e raramente usando terno, a não ser quando era absolutamente necessário. Mas o único executivo que brincava abertamente e batia papo com os funcionários comuns era Gary Blacker.

Sempre que Julie esbarrava em Gary no escritório, eles paravam para conversar.

Pouco antes do renascimento dela, Gary tinha até ameaçado, em tom de brincadeira, arrumar um encontro às cegas para ela.

“Gary Blacker!”

Ao ouvir a voz de Julie, Gary parou no meio do caminho e se virou. Warren, bem ao lado dele, também parou.

Gary piscou, totalmente atônito. Ela está me chamando?

“A Tania disse que vocês vão sair?”, Julie perguntou, indo até eles a passos rápidos, fazendo questão de oferecer primeiro a Warren um sorriso breve e educado.

“...É”, respondeu Gary, se recuperando depressa do torpor. “Você quer que eu traga alguma coisa?”

“Pra onde vocês vão?”

Gary coçou a nuca. “Pra rua de trás, almoçar.” Ele apontou o queixo para Warren. “O Warren precisa comprar outro livro de preparação.”

Julie, honestamente, já nem lembrava quais restaurantes tinha na rua de trás. A única lembrança era de um lugar que vendia macarrão azedo e picante e de uma churrascaria barata. Ela pensou por um instante. “Se vocês passarem por um café, pode perguntar se eles vendem café gelado? Se venderem, por favor, traz um pra mim. Com bastante gelo.”

“Tipo um Frappuccino?”, Gary perguntou.

Aquilo não era dez anos no futuro, quando existia uma cafeteria boutique em cada esquina. Veteranos do ensino médio com certeza tomavam café, mas geralmente era aquela bebida barata em lata, ou um Frappuccino bem doce de alguma rede de fast-food.

Julie queria desesperadamente um americano gelado, amargo, mas sabia que não podia exigir. “Se tiver americano, pega esse pra mim... mas um Frappuccino também serve. Se não tiver nenhum dos dois, não tem problema!”

Gary concordou na hora. “Pode deixar.”

“Obrigada, Gary!”

“S-Sem problema.”

Assim que Julie entrelaçou o braço no de Tania e se afastou, Warren olhou de lado para Gary, que ainda encarava o nada, abobalhado.

Warren arqueou uma sobrancelha, levantou a perna e deu um chute seco na canela de Gary. “Acorda.”

Que vergonha.

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