Capítulo 6 O admirador secreto
Para a maioria dos alunos do último ano, absolutamente nada importava mais do que sobreviver ao inferno das inscrições para a faculdade e à ameaça iminente do SAT. Mas estudar do amanhecer ao anoitecer era praticamente uma violação dos direitos humanos, então todo mundo — meninos e meninas — dava um jeito de se distrair nos intervalos de suas rotinas brutais.
Depois do apagar das luzes, os dormitórios masculinos inevitavelmente descambavam para fofocas sobre garotas.
O nome de Julie Carven era o que mais aparecia. Em parte por orgulho defensivo da Turma Três, os garotos concordavam por unanimidade que, entre todo o grupo de exatas do último ano, ela era de longe a mais bonita. Claro, sempre havia algumas vozes fracas de discordância — atração era subjetiva, afinal. Até as maiores estrelas de Hollywood, universalmente consideradas deslumbrantes, tinham quem achasse que eram feias.
Gary Blacker abriu um sorriso enorme, ainda se sentindo incrivelmente lisonjeado pelo pedido de Julie. Embalado por aquela euforia, ele nem ligou para o fato de seu filho ingrato, Warren Gale, ter acabado de chutá-lo na canela.
Os dois garotos saíram da sala de aula e seguiram para a escadaria mais distante.
"Por que você acha que ela me pediu especificamente para pegar café para ela?", Gary perguntou, com um sorriso bobo e idiota estampado no rosto.
Warren: "..."
Ele perdeu completamente a noção.
"Tem alguma coisa errada com o seu cérebro?", Warren perguntou friamente.
"Vai se foder!"
Insultos à parte, a alfinetada certeira trouxe Gary de volta à realidade enquanto eles desciam as escadas correndo. Tudo bem se permitir uma ou outra fantasia delirante, mas era preciso manter os pés no chão. Modéstia e autopercepção eram virtudes. Ele não ia contrair alguma doença e começar a alucinar um grande romance só porque uma garota bonita tinha lhe pedido um favor.
"Ainda assim, ela tá se esforçando pra caramba este ano", observou Gary, agora num tom mais sério. "Eu tomei um Frappuccino nas férias de verão e, literalmente, não consegui dormir até as três da manhã." Ele estremeceu só de lembrar. Ainda bem que não tinha aula no dia seguinte. "O último ano realmente muda as pessoas."
Julie Carven definitivamente não era uma aluna de baixo nível, mas também nunca tinha feito parte do grupo assustadoramente obcecado por desempenho.
Ela costumava ser brincalhona. No segundo ano, saía disparada da sala no segundo em que o sinal tocava, correndo atrás de qualquer drama ou fofoca que estivesse rolando nos corredores.
Se até ela estava recorrendo a injeções de cafeína para sobreviver, a atitude naturalmente relaxada de Gary de repente pareceu muito inadequada. "Quer saber? Dane-se. Seja lá qual livro preparatório você vai comprar, eu também vou comprar um!"
Warren lançou a ele um olhar de lado profundamente desanimado. "Melhorar sua nota em inglês faria mais por você do que qualquer outra coisa."
Gary gemeu, esfregando as têmporas. "Juro, eu odeio essas línguas estrangeiras."
Warren o ignorou. Os dois chegaram ao térreo e se misturaram ao mar de estudantes saindo às pressas do prédio acadêmico.
O refeitório da escola tinha muitas janelas e uma variedade decente, mas comer lá todo santo dia era como comer em casa — uma hora, você enjoava. Beth Meier e suas colegas de quarto tinham fugido da fila do almoço para comprar lámen instantâneo. Julie, porém, continuava perto de Tania. Tudo parecia novo para ela naquele momento. Quando ela realmente tinha dezessete anos, reclamava sem parar da comida do refeitório. Só depois de se tornar uma engrenagem corporativa percebeu como aquilo era genuinamente maravilhoso.
"O que você vai pegar?", Tania perguntou, com a carteira na mão.
Julie estava faminta. Ao olhar para as bandejas fumegantes atrás do vidro, ela quis comer tudo que via pela frente.
No fim, pegou uma enorme coxa de frango braseada, do tamanho da própria mão, e uma tigela gigantesca de macarrão frio. Tania pediu um prato padrão.
Encarando a bandeja de Tania, carregada de broto de feijão salteado e ovos mexidos, Julie franziu a testa. — Por que você não pegou carne?
Tania apanhou um pedaço de ovo. — Isso é carne.
Na rígida hierarquia alimentar de Julie, ovos não tinham absolutamente nenhum direito de ser classificados como carne. Ela foi a primeira a protestar. — Quero dizer carne de verdade...
— Em casa, durante o verão, eu comi carne em todas as refeições. Já enjoei completamente.
Era uma desculpa perfeitamente válida, mas Julie ainda parecia profundamente desconfiada. Se fosse qualquer outra pessoa, ela talvez pensasse que estivesse com problemas com a mesada. Mas Tania? Era muito improvável.
O Sr. Graf e o pai de Julie, Aaron Carven, ambos trabalhavam no setor de segurança pública, e a Sra. Graf tinha um emprego estável numa agência do governo. Pelos padrões locais, a família de Tania estava indo incrivelmente bem. Julie quis insistir no assunto, mas, vendo como Tania devorava feliz os brotos de feijão, engoliu as palavras. Em vez disso, pegou os hashis, soltou com facilidade a carne macia do frango braseado do osso e despejou metade diretamente no prato de Tania.
— Está braseado perfeitamente. Você tem que provar, Tania~
Tania piscou, completamente pega de surpresa, antes de um sorriso caloroso se abrir em seu rosto. — Tá bom!
As duas garotas dividiram o almoço alegremente e voltaram para o dormitório de braços dados. O intervalo de almoço de duas horas existia justamente para que os alunos tirassem um cochilo e recarregassem as energias. Se não dormissem, virariam praticamente zumbis nas quatro brutais aulas da tarde.
O campus inteiro logo mergulhou num silêncio pesado e absoluto.
Julie enxaguou a boca rapidamente e subiu às pressas a escada até o beliche de cima. Ela tinha toda a intenção de memorizar algumas palavras de vocabulário em inglês antes de dormir. Em vez disso, seus olhos se fecharam, e em menos de dois minutos ela já estava morta para o mundo. Bem antes de perder a consciência, fez uma última e desesperada oração para acordar com vinte e sete anos.
Aos dezessete anos, o metabolismo de um garoto adolescente significava que ele realisticamente podia comer uma vaca inteira e ainda continuar com fome.
A ruazinha logo do lado de fora dos portões do campus era um campo de batalha caótico de barracas de comida barata. A concorrência era brutal; se um lugar fosse caro demais ou a comida tivesse gosto de lixo, fechava em um mês. Gary arrastou Warren para um apertado restaurante coreano com um cardápio violentamente colorido. Warren odiava perder tempo analisando opções de comida, então seu dedo longo e elegante simplesmente apontou para o prato mais vendido, o número um: bibimbap na panela de pedra.
— Tania disse que esse lugar é incrível — disse Gary, passando os olhos pelo cardápio. — Você vai pedir só arroz mesmo? Acrescenta um frango frito coreano aí.
Warren balançou a cabeça. — Não se preocupa comigo. Eu não quero.
Gary continuou folheando o cardápio, fortemente tentado pelos bolinhos de arroz apimentados, vermelhos vivos, e pelo ensopado de carne. Depois de uma breve luta interna, pediu o ensopado de carne e uma porção de frango frito. O restaurante estava completamente lotado, e o único atendente estava se afogando em pedidos. Warren já estava profundamente arrependido de ter deixado Gary arrastá-lo até ali. Apoiou o cotovelo na mesa, descansou o queixo na mão e baixou os olhos para o relógio, com a paciência se esgotando rápido.
Perfeito.
Já fazia trinta minutos desde que tinham feito o pedido.
O estômago de Gary estava praticamente se digerindo sozinho, mas, como tinha escolhido o restaurante, ele defendeu sua decisão com teimosia. — Todas as garotas da nossa turma adoram vir aqui, então tem que ser bom! Talvez, depois que a gente provar, vire freguês.
O tom de Warren era completamente neutro. “Eu nunca mais vou voltar aqui uma segunda vez.”
Aquilo foi pura crueldade. Gary revirou os olhos. “Não fala cedo demais.”
Talvez fosse porque estavam basicamente morrendo de fome, mas, quando a comida finalmente chegou à mesa, as expectativas deles foram lá em cima. Gary deu uma golada enorme no ensopado de carne. As papilas gustativas dele explodiram. “E aí? Tá bom?” perguntou, com a boca completamente cheia.
Warren misturou o bibimbap e deu uma mordida. A expressão dele não mudou nem um pouco. “Mediano.”
Como tinham perdido tempo demais esperando a comida, tiveram de praticamente sair correndo até a livraria para pegar os materiais de preparação para o SAT. A última parada deles foi o café do campus. Havia uma variedade decente de bebidas, e os Frappuccinos ainda estavam no cardápio de verão. Gary puxou a carteira, percebendo que tinha gastado todas as moedas no almoço. Só restavam notas grandes, de cem dólares.
A caixa, uma garota jovem, parecia extremamente estressada.
O café custava só seis dólares. Cinco minutos antes, alguém tinha pago com uma nota de cem. Se ela tivesse de trocar outra agora, o caixa ia ficar completamente sem troco.
“Eu pago.”
Warren, com naturalidade, entregou o valor exato. A caixa parecia que ia chorar de gratidão enquanto pegava o dinheiro, colocava o café na sacola e o entregava.
Os dois atravessaram a rua e voltaram para o campus. Gary tinha acabado com o ensopado apimentado de carne, e o excesso de sal e pimenta começou a cobrar o preço. A garganta dele parecia uma lixa. Antes mesmo de chegarem ao prédio acadêmico, ele parou e deu um tapinha no ombro de Warren. “Esse sal tá me matando. Preciso correr na loja de conveniência pra comprar água. Vai na frente sem mim.”
Sem esperar resposta, ele se virou e disparou em direção à loja, com a velocidade surpreendente de um cara grande, atlético e ágil.
Warren obviamente não ia ficar parado esperando. Ele levou a sacola com o café para a escadaria. O prédio estava estranhamente silencioso; o silêncio era quebrado apenas pelo eco constante dos próprios passos dele. Se não tivesse desperdiçado tanto tempo esperando aquele almoço completamente mediano, estaria dormindo no dormitório agora.
Já eram 13h30. Não tinha mais sentido voltar para os dormitórios.
Ele subiu as escadas, passando por várias salas vazias. A Turma Três era praticamente uma cidade fantasma. Ao espiar pela porta dos fundos, que estava aberta, viu só dois ou três alunos largados sobre as mesas, apagados. Ele de propósito suavizou os passos, sem querer acordar ninguém.
Ele estava a exatamente um passo da mesa de Julie Carven quando outro garoto — alguém totalmente desconhecido — de repente se aproximou pelo corredor ao lado.
O garoto estendeu a mão. Ele segurava uma geleia de fruta grande, em formato de coração.
Os olhos deles se encontraram.
No exato mesmo segundo, Warren colocou o café gelado, bem embalado, diretamente sobre a mesa de Julie, bem ao lado da pilha bagunçada de cadernos coloridos.
O garoto congelou por completo.
Ele sabia que aquela era a mesa de Julie. Tinha se infiltrado na sala mais cedo, no intervalo do almoço, justamente para deixar um lanchinho para ela.
A geleia era barata, então ele não pretendia deixar nome. Era só um gesto doce, anônimo.
Mas que porra estava acontecendo agora?! Deixando de lado qualquer relação que o assustador representante de turma tivesse com Julie, do ponto de vista estritamente financeiro, uma geleia de fruta barata não tinha a menor chance contra um café gelado caro do café de fora.
Foi só uma fração de segundo, mas o cérebro do garoto entrou em atividade máxima. Movendo-se com uma velocidade e agilidade assustadoras, ele puxou a mão de volta de forma brusca, largou a gelatina em formato de coração na carteira logo atrás da de Julie e praticamente saiu correndo pela porta dos fundos.
Warren ficou sozinho no corredor entre as fileiras. Ele desviou lentamente o olhar do garoto em retirada para a gelatina brega em formato de coração em cima da carteira de Dan Butler.
Ele conseguia imaginar com facilidade exatamente o que tinha acabado de acontecer.
Achando a situação profundamente ridícula, Warren soltou um bufar baixo e divertido e voltou para o próprio lugar.
Enquanto isso.
Julie bateu a mão com violência no despertador, xingando entre os dentes enquanto se arrastava escada abaixo da cama de cima. As janelas do dormitório estavam escancaradas, e a brisa úmida fazia as páginas dos livros nas mesas tremularem. As garotas se acotovelavam diante da pia, jogando água no rosto. Nenhuma delas tinha dormido o suficiente, mas se lavavam e enfiavam os sapatos nos pés com uma velocidade assustadora, recusando-se a desperdiçar um único segundo.
Julie ainda irradiava pura fúria corporativa assassina quando correu de volta para a sala de aula.
Mas, no segundo em que seus olhos pousaram na própria carteira, todo o humor dela mudou.
Ali estava um Frappuccino lindamente gelado, com o chantilly começando a derreter. Um sorriso genuíno surgiu em seu rosto. Ela rapidamente tirou o canudo do saquinho plástico, furou a tampa e deu um gole desesperado.
Era incrivelmente doce. Ela precisou se concentrar de verdade para encontrar qualquer vestígio de sabor de café enterrado debaixo de tanto açúcar.
Mas, sinceramente, era melhor do que nada.
Ela ergueu a cabeça e olhou pela sala. Gary ainda não tinha voltado para a carteira dele. Ia ter que perguntar quanto custou depois da aula e devolver o dinheiro.
Ao lado dela, Beth estava praticamente morta, apoiando o queixo na mão e pescando de sono.
"Ah! AHHHH!"
De repente, um grito literalmente digno de uma marmota explodiu bem atrás delas. As duas levaram um susto violento e viraram a cabeça para encontrar Dan Butler encarando a própria carteira, o rosto contorcido em puro choque absoluto.
"Você tá maluco?!" praguejou Beth, levando a mão ao peito.
Julie lançou para ele um olhar profundamente irritado.
Dan segurava a enorme gelatina de frutas em formato de coração com as duas mãos, a voz tremendo de verdade. "Quem deixou isso aqui?"
Ele olhou de Julie para Beth e de Beth para Julie com uma expectativa intensa e desesperada.
Obviamente, ele não esperava que tivesse sido uma das duas. Do jeito impiedoso como elas o tratavam, as duas deixavam muito claro que não sairiam com ele nem se ele fosse o último homem da Terra. Ele esperava plenamente que negassem, o que significaria que uma admiradora secreta e desconhecida tinha entrado na sala só por causa dele.
Julie piscou, desviando o olhar para encontrar o de Beth.
No segundo seguinte, Beth parecia pronta para cometer um assassinato. Ela passou as mãos pelos cabelos com agressividade. "Julie Carven, por que diabos você tá olhando pra mim desse jeito?!"
Julie imediatamente voltou a olhar para Dan, recaindo no reflexo corporativo de pedir desculpas. "Sinto muito, chefe. Por favor, me perdoe, eu ainda não acordei direito..."
Dan ignorou completamente a troca gelada e devastadora entre as duas. O coração dele estava praticamente saltando do peito, e sua confiança disparava para níveis máximos.
"Alguém", anunciou Dan, apertando a gelatina contra o peito como se fosse uma relíquia sagrada, "está secretamente apaixonado por mim."
