Capítulo 7 Tranque a porta
Julie encarou a carteira.
Beth encarou a carteira.
As duas ficaram completamente em silêncio.
O entusiasmo de Dan Butler, porém, não podia ser abatido. Ele estava praticamente radiante enquanto analisava a situação para elas. “Isso não é uma gelatina qualquer. É em formato de coração. Sério, se você parar pra pensar, faz todo sentido. Quem é que escreve carta de amor hoje em dia? Todo mundo dá comida. Tá quente demais agora, chocolate só ia derreter. Mas gelatina? Gelatina é genial.”
Como não recebeu os suspiros satisfeitos de concordância que queria, ele pegou o potinho em forma de coração e começou a interrogar as pessoas ao redor. “Foi você? Tom Stait, foi você?”
“...” Tom parecia que ia engasgar. “Vai se foder.”
Dan perguntou a todo mundo ali por perto, mas ninguém assumiu. Ele interrogou os alunos que tinham ficado na sala durante o intervalo do almoço. “Vocês viram quem deixou isso aqui?”
Um colega bocejou, balançando a cabeça. “Não. Sinceramente, acho que alguém só colocou na carteira errada.”
Dan rejeitou completamente essa possibilidade. Sentou de novo, encarando o potinho de gelatina como se ele guardasse os segredos do universo, e então chutou a parte de trás da cadeira de Julie. Mantendo a voz baixa antes que o professor entrasse, sussurrou: “Julie, eu vou te dar uma missão gloriosa e difícil—”
Antes que ela sequer pudesse assentir, ele balançou a cabeça, resmungando só para si mesmo. “Não, assim não dá. Ela vai ficar com vergonha.”
Beth ainda encarava, em pura incredulidade. “Como é que alguém, pelo amor de Deus, tem uma paixão secreta por você?”
Não era que Dan fosse feio ou repulsivo. Contanto que não estivesse agindo como um palhaço completo, o rosto dele até conseguia enganar alguém a achar que ele era mais ou menos decente. O problema era que ele era um palhaço. Ele era o golden retriever da sala — amigo de todo mundo, totalmente incapaz de levar qualquer coisa a sério. Associar a expressão “paixão secreta” a Dan Butler era o bastante pra deixar qualquer um morrendo de vergonha alheia.
Dan passou a mão no cabelo, com uma cara absurdamente convencida. “O que eu posso dizer? Eu sou popular assim mesmo.”
Julie soltou uma risadinha pelo nariz. “E o que você vai fazer sobre isso?”
Essa pergunta realmente pegou ele. Dan pensou, amassando o rosto em agonia. “Acho que vou passar essa de namorar. Minha mesada não é grande o bastante pra duas pessoas gastarem.”
Só alguns dias atrás, ele estava sofrendo para ver como negociar com os pais um aumento na ajuda de custo. Namorar não era só conversar. Ele tinha que comprar lanchinhos pra uma garota? Bebidas? Presentes? No instante em que fez as contas na cabeça, o coração dele gelou. “Eu não sou fácil. Só porque alguém gosta de mim não quer dizer que eu vou me abalar.”
A algumas carteiras dali, Warren Gale conseguia ouvir a agitação. Ele olhou por cima do ombro.
Julie ria com brilho, os olhos curvados em luas.
Ele desviou o olhar com indiferença, abrindo o livro didático, enquanto a mão direita girava com habilidade uma caneta entre os dedos longos.
Talvez fosse a soneca, ou talvez fosse o café fazendo efeito, mas Julie não estava nem um pouco cansada na primeira aula. Todo o conhecimento que ela tinha aprendido no ensino médio estava jogado na lixeira de reciclagem do cérebro. Ela escolheu acreditar que era só uma exclusão temporária — se cavasse fundo o suficiente, conseguiria restaurar os arquivos mais cedo ou mais tarde.
O sinal finalmente tocou.
Julie estava esperando ansiosamente. No segundo em que o professor de biologia saiu pela porta, ela se levantou e foi, de mansinho, até a carteira de Gary Blacker. “Gary, quanto foi aquele café? Eu te pago agora mesmo.”
“Acho que foi seis dólares”, disse Gary, sentando-se com a coluna perfeitamente ereta.
Ele sabia muito bem que uma garota linda como Julie não teria interesse nele nem se fosse cega, mas, ainda assim, o corpo dele honestamente corrigiu a postura na presença dela.
Julie já estava enfiando a mão no bolso quando Gary acrescentou: “Você não precisa me pagar. O Warren pagou.”
Ela piscou, surpresa, e olhou para Warren.
Warren estava lendo. Ao ouvir o próprio nome, seus pensamentos se desprenderam por um instante do mar de questões de treino. Pelo canto do olho, ele viu uma mão apoiada na beirada da carteira — pálida, com veias finas e azuladas visíveis sob a pele delicada. Ergueu os olhos escuros e encontrou o olhar de Julie, claro e brilhante como água.
Julie estava totalmente pronta para entregar o dinheiro, mas um lampejo repentino de inspiração a atingiu. Ela puxou a mão de volta. “Eu não tenho trocado certinho! Faz assim, Warren, eu te dou antes do estudo noturno.”
As relações humanas funcionavam exatamente assim. Você começa longe, mas traça uma linha do ponto A ao ponto B, uma interação ligando na outra, até que se construa uma ponte sólida.
Ela olhou para ele com um sorriso leve e luminoso.
Se ele dissesse “Tá”, ela teria uma desculpa perfeitamente válida para voltar mais tarde naquela noite e puxar assunto, meio sem jeito.
Se ele dissesse “Não se preocupa com isso”, então ela poderia simplesmente pagar alguma coisa para ele na próxima vez que se encontrassem na loja do campus.
O segredo do networking era não bajular de forma agressiva demais. Investimentos lentos, constantes, de longo prazo — essa era a verdadeira estratégia de negócio.
Warren, sinceramente, quis dizer “Não se preocupa com isso”. Ele não era exatamente caloroso com os colegas, mas, se encontrasse alguém na loja e estivesse de bom humor, comprava uma bebida. Ele se lembrava claramente da garrafinha de água mineral que ela praticamente tinha enfiado nele à força — e que ele já tinha terminado.
Ele não recusou. Só soltou um “Hm” baixo.
“Obrigada, Warren~”
Julie voltou flutuando para o lugar dela, totalmente satisfeita consigo mesma.
Gary virou a cabeça para acompanhar as costas dela se afastando, depois olhou para Warren. Tinha alguma coisa esquisita, mas ele não conseguia apontar exatamente o quê.
“O que você tá olhando?” perguntou Warren, franzindo a testa ao ver Gary continuar encarando-o como um idiota.
Gary abriu um sorriso, inclinando-se para perto. “Só tô olhando pro meu filho.”
Esse comentário, naturalmente, rendeu uma cotovelada seca nas costelas, vinda de Warren. Os dois começaram a “brigar” — um soco aqui, um chute ali — o entretenimento padrão dos garotos do ensino médio durante aqueles dez minutos de intervalo entre as aulas.
Aquela única xícara de café arrastou Julie à força por duas aulas de biologia. Lembrando que física vinha em seguida, ela foi ao banheiro jogar água fria no rosto. A pura desgraça de tudo aquilo desabou sobre ela. Quem sabia das coisas diria que ela estava assistindo à aula; quem não sabia ia achar que ela estava sendo torturada num centro clandestino da CIA.
Julie Carven, ah, Julie Carven. Seu nome do meio é Miséria.
O momento mais feliz do dia inteiro acabou sendo o jantar no refeitório.
Ela se lembrava de que, nessa época da sua vida passada, seu apetite tinha sido enorme. Devorou uma tigela barata e gigantesca de salada com carne, depois arrastou Tania até a lojinha do campus para comprar salgadinhos. Tania entrou no embalo e comprou dois pacotes de macarrão ramen instantâneo seco.
O tempo estava lindo hoje. O corredor do lado de fora da sala de aula estava completamente dourado pela luz suave e dourada do pôr do sol. A natureza realmente era a maior artista; a cena era de uma beleza de tirar o fôlego.
Warren estava ajudando o representante da turma a levar de volta da sala dos professores a mais recente leva de provas. Enquanto caminhava pelo longo corredor, viu uma garota apoiada casualmente no corrimão. A pose deixava à mostra um pedaço de sua cintura pálida e fina. Ela apoiava o queixo sobre os braços enquanto olhava para o céu, com o pôr do sol avermelhado iluminando o lado do seu rosto.
Ele desviou o olhar em silêncio, ajustou a pegada na pilha grossa de provas e entrou na sala para deixá-las sobre a mesa do professor.
Ao anoitecer, a temperatura finalmente tinha caído alguns graus.
A luz escapava pelas janelas do prédio acadêmico. O som dos alunos rindo e fazendo bagunça ecoava pelos corredores, misturando-se às músicas pop que tocavam na rádio do campus. A hora emo de Julie tinha chegado ao fim. Ela se sentou novamente à carteira, com o rosto apoiado nas mãos e uma expressão mortalmente séria, como se estivesse contemplando o destino do universo.
Seu olhar vagou sem rumo.
Alguns segundos depois, voltou de repente e pousou nos ombros largos de Warren. Isso. Ela ainda devia seis dólares a ele.
Rapidamente, ela tirou do bolso uma nota amassada de cinco dólares, alisando-a com agressividade sobre a mesa, depois pescou uma moeda de um dólar do estojo.
Ela se levantou, deu dois passos, então congelou e voltou. Enfiando a mão fundo no compartimento da carteira, seus dedos tocaram seu estoque de lanches.
— Warren!
Warren estava com a cabeça baixa, totalmente concentrado em um jogo de corrida no celular. O chamado repentino o assustou, fazendo seu polegar escorregar. Ele estragou a derrapagem. Lentamente, levantou a cabeça. Como ele estava sentado e Julie em pé, do ângulo dele, ela estava completamente recortada pela luz fluorescente da sala.
— Dinheiro do café.
Julie praticamente usou a mesma postura profissional que reservava para entregar documentos importantes à diretoria executiva. Ela colocou os seis dólares com cuidado sobre a mesa dele.
Warren assentiu e disse casualmente:
— Certo.
Ele abaixou os olhos, querendo salvar a corrida antes que o carro batesse de vez. Nem percebeu quando Julie foi embora. Mas, quando o sinal de alerta tocou e ele saiu do jogo com responsabilidade, lançou um olhar para baixo.
Perfeitamente em cima da nota amassada de cinco dólares, havia um Kit Kat.
“...”
Por instinto, Warren virou a cabeça para olhar para Julie.
Naquele momento, ela estava conversando com Beth Meier, rindo tanto que estava completamente debruçada sobre a carteira.
— De onde veio isso?
Gary tinha ficado de limpeza hoje. Ele e outro cara levaram o lixo para fora, e Gary lavou as mãos nada menos que cinco vezes, voltando com um semblante carregado. Mas, quando viu o Kit Kat na mesa de Warren, pareceu genuinamente surpreso.
As pessoas da turma viviam pedindo favores a Warren — ajuda com a lição, passar recados — e os mais espertos geralmente compravam uma bebida ou um lanche para suborná-lo. Mas ele quase nunca aceitava. Qualquer um minimamente familiarizado com ele sabia que não gostava de doces nem de porcarias.
Warren não respondeu à pergunta. Em vez disso, disse:
— Pega, se você quiser.
Gary recusou na hora.
— Isso é literalmente a coisa de que eu menos gosto neste mundo.
Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, o professor entrou. Em questão de segundos, a sala ficou num silêncio absoluto. O lugar de Warren chamava bastante atenção, e sua mesa perfeitamente arrumada fazia a embalagem vermelha viva do Kit Kat se destacar ainda mais. Antes que o professor olhasse para lá, ele agarrou a barra de chocolate e a enfiou bruscamente no bolso da calça de moletom, com um rápido lampejo de frustração impotente cruzando seu rosto.
As provas foram devolvidas. Julie escreveu o nome no alto da folha e, em seguida, o cérebro dela simplesmente desligou.
Ela leu as perguntas uma por uma. Se alguém pudesse ouvir seus pensamentos naquele momento, seria submetido a um uivo puro e sem filtro: Que tipo de sofrimento humano é esse?!
Mas ainda vinha mais sofrimento pela frente.
Esse tipo de prova surpresa dependia inteiramente da honestidade dos alunos — com consulta, sem consulta, isso ficava por sua conta. Mas Julie não tinha honestidade nenhuma. Ficava folheando o livro didático sem parar debaixo da mesa, tão nervosa que, sem querer, arrancou completamente o elástico do cabelo. No fim do primeiro período de estudo noturno, ela se arrastou para fora da sala, fraca, indo em direção ao banheiro.
Ela torcia desesperadamente para que ninguém estivesse prestando atenção nela; caso contrário, iam mesmo suspeitar que ela tinha algum problema de controle da bexiga. Quem vai ao banheiro em absolutamente todos os períodos como se estivesse batendo ponto num turno de trabalho?
Depois que escureceu, o corredor que levava aos banheiros estava silencioso. Não havia salas de aula em nenhum dos lados, e a iluminação era fraca. Ela deu alguns passos e ouviu uma voz masculina familiar. De repente, percebeu que o cara andando poucos metros à sua frente era seu futuro chefe, Warren Gale.
— Qual é a do Sr. Jenkins? — uma voz masculina risonha ecoou da escadaria. — Ele imprimiu a prova errada? As perguntas estavam fáceis demais. Que tédio. Perda total de tempo.
Julie: “?”
Warren também não parecia especialmente satisfeito, mas respondeu:
— Ele provavelmente sabe que a gente ainda não entrou totalmente no ritmo.
Julie: “??”
Hahahaha.
Eu vou matar vocês dois. Vou matar vocês dois com as próprias mãos.
— O que foi? — perguntou o amigo.
Warren estava com uma das mãos enfiada no bolso. Seus dedos roçaram na embalagem do Kit Kat. Os ombros dele enrijeceram por uma fração de segundo.
— Nada.
No máximo, ele só estava um pouco curioso. Exatamente quão grande era o favor que ela ia pedir a ele?
Ela estava tentando matar o estudo da manhã? Ou escapar da sessão noturna?
Era o último ano do ensino médio. Se ela ia pedir uma autorização, era melhor ter uma desculpa decente dessa vez, e não como antes, quando ficava na frente dele, com as bochechas perfeitamente rosadas e saudáveis, e dizia: “Não estou me sentindo bem.”
