Capítulo 8 Uma questão de hábito

Enquanto o professor estava no púlpito revisando as respostas da prova, Julie só conseguia agradecer a qualquer deus que estivesse ouvindo por aquilo ser apenas um teste-surpresa. Se fosse a prova do meio do semestre, ela teria ficado em último lugar na turma.

Às 22h10, finalmente tocou o sinal que marcava o fim do estudo noturno obrigatório.

Estar ansioso para chegar à escola não era uma exigência, mas, se você não estivesse ansioso para ir embora, então tinha um problema psicológico sério. Na época em que ela era uma operária corporativa, mesmo Warren Gale e os outros executivos preservando um resquício de decência humana ao realmente pagar hora extra, ela ainda odiava aquilo. A cultura da empresa tinha sido ótima — em sua maioria gente jovem que já tinha enxergado através da ilusão capitalista. Às 17h30, todo mundo já estava discretamente guardando as coisas na mochila.

Cada minuto a mais passado no escritório exigia uma hora de terapia para se recuperar.

A escola não era diferente.

Nem uma aluna exemplar como Tania Graf queria ficar naquela sala um segundo além do necessário. Ela arrumou a mochila, puxou Julie e as duas se espremeram na multidão, escorregando pela escadaria como peixes e disparando em direção aos dormitórios como se a vida dependesse disso.

O dormitório tinha banheiro privativo, mas era dividido entre seis meninas. Se você fosse a última da fila, não ia deitar antes de quase onze!

Julie nem tinha percebido o quão rápido tinha voltado ao modo estudante. Não tinha nem vinte e quatro horas. Ela ainda estava cheia de reclamações, mas já tinha parado de sonhar em acordar magicamente de volta no corpo de vinte e sete anos.

— Lentas demais!

As duas invadiram o quarto do dormitório só para encontrar a porta do banheiro bem fechada. Julie apertou o peito, em absoluta derrota.

Tania desenroscou a garrafinha de água, ofegante, e deu um gole. — Com certeza é a Lara.

Se fosse Lara Rohl, só restava aceitar a perda. Aquela garota se inscrevia, todos os anos, na corrida feminina de 800 metros do torneio de atletismo da primavera e sempre voltava com medalha.

Julie e Tania descansaram um instante, antes de seus corpos entrarem automaticamente no modo corrida contra o relógio. Elas ficaram na pia da varanda para lavar o rosto e escovar os dentes. Tania molhou com cuidado a franja, esfregando nela um tiquinho de xampu. Aquilo era a realidade das garotas do ensino médio: lavar o cabelo uma vez para durar a semana e, quando ficasse oleoso, lavar só a franja na pia para ganhar mais dois dias.

Lara não demorou. Alguns minutos depois, ela empurrou a porta do banheiro, envolta numa nuvem de vapor. — Meu Deus, que calor!

Tomar banho naquele tempo era praticamente a mesma coisa que ficar sentado numa sauna.

Tania, ainda enxaguando a franja, murmurou: — Julie, você vai primeiro.

— Tô indo. — Julie pegou o pijama e entrou depressa.

Lá fora, na varanda, Lara pendurou a calcinha lavada para secar. — Quando é que vai refrescar de verdade? Eu não aguento mais isso.

Tania riu. — Provavelmente só depois de outubro.

Dentro do banheiro apertado, Julie ficou embaixo do chuveiro, deixando a água quente levar embora o cansaço do dia. A felicidade sempre precisava do sofrimento como contraste. Ela finalmente entendeu por que os adultos sempre olhavam para o último ano do ensino médio com uma nostalgia tão intensa. Era porque momentos assim — o cheiro da comida barata do refeitório, as músicas pop ecoando no sistema de som, a sensação da água quente nos músculos cansados — pareciam incrivelmente preciosos.

À medida que você envelhece, seu limiar para a felicidade simplesmente vai ficando mais alto.

Aos vinte e sete, ela tinha sido feliz, mas foi preciso algo gigantesco para fazê-la se sentir do jeito que se sentia agora.

Sou tão sortuda.

O cheiro do sabonete líquido de pêssego dela era barato e doce demais em comparação com os produtos de grife que ela usaria uma década depois, mas, naquele banheiro minúsculo e cheio de vapor, parecia perfeitamente certo.

Lembrando que ainda havia quatro garotas esperando, ela enxaguou depressa a espuma do corpo, se secou e vestiu a camisola.

Ela saiu, e Tania entrou. O aquecedor de água não teve um segundo sequer de descanso.

Julie estava sentada à escrivaninha, espalhando hidratante nos braços, e deu uma olhada casual no celular. Era um modelo antigo que a mãe tinha passado para ela — sem muito espaço de armazenamento, mas indestrutível. Já tinha caído incontáveis vezes e não tinha um arranhão sequer.

Para uma viajante do tempo vinda de 2026, aquele celular não tinha apelo nenhum.

Até que ela viu as mensagens não lidas de Ryan Acker.

[Por que você está me ignorando?]

[Você quer carolinas? Ou aquelas de cookie de cacau?]

[Você deixou o celular no dormitório?]

[Sinto sua falta [Beijo]]

As sobrancelhas de Julie se franziram num vinco apertado. “...”

Ela quase tinha se esquecido dessa confusão toda. Certo. Ela tinha dezessete anos de novo. Tirando a montanha interminável de dever de casa e seu chefe recém-adquirido, seu “passado” era, no momento, seu “presente”.

No segundo ano do ensino médio, ela e alguns amigos tinham ido a uma pista de kart, e foi lá que ela conheceu Ryan. Ele estudava em outro colégio. Tinha a mesma idade que ela, notas completamente medianas, mas era alto, objetivamente bonito e prestativo. Julie quase bateu o kart no dele, mas ele desviou bem a tempo.

No começo, ele tinha ficado furioso. Arrancou o capacete e foi marchando até ela.

Apavorada, Julie começou a pedir desculpas imediatamente.

Mas, no segundo em que viu o rosto dela, ele congelou. Ficou vermelho até a raiz do cabelo. “Não, não, não, não! A culpa foi minha! Eu estava totalmente cego, não estava prestando atenção na pista!”

Depois disso, ele insistiu absolutamente em pagar um chá com leite para se desculpar. Uma coisa levou à outra, e Julie acabou completamente enrolada com ele. Passaram o semestre inteiro rondando um ao outro, a um passo de assumir de vez. Em sua vida anterior, eles começaram a namorar oficialmente logo depois do Gaokao.

Ryan a tratava bem, mas era sufocantemente grudento. Na faculdade, ele frequentemente matava as próprias aulas para visitar o campus dela, ignorando os protestos de Julie até quase ser expulso por falta de presença. Estava sempre paranoico com a ideia de que alguém fosse roubá-la dele, mexendo escondido no celular dela e praticamente querendo que ela apagasse todo e qualquer contato masculino.

Uma vez, uma fotógrafa entrou em contato com Julie para um ensaio. A fotógrafa era mulher, mas tinha um nome um pouco masculino. Sem perguntar nada, Ryan anotou o número e mandou mensagem para ela, avisando “ele” para ficar longe da namorada dele e chamando-o de destruidor de lares barato.

A fotógrafa ficou completamente sem entender. Foi atrás de Julie e lhe mostrou as mensagens em particular. Julie ficou tão envergonhada e furiosa que o cérebro quase entrou em curto.

Mesmo que fosse um homem, simplesmente não se fazia esse tipo de coisa.

Eles brigaram. Gritaram. Julie terminou. Ele implorou para voltar várias vezes, mas ela nunca cedeu, e, no fim, os dois desapareceram da vida um do outro. Alguns romances são como salgadinhos de edição limitada de loja de conveniência — só foram feitos para existir dentro da bolha da escola.

...Então, e agora?

Julie tinha certeza absoluta de que não sentia mais nada por Ryan Acker. Não ia percorrer aquela mesma estrada exaustiva de novo. Rolando o histórico de conversa dos dois, tomou uma decisão imediata e digitou uma resposta:

[As aulas estão lotadas. Sem tempo de olhar o celular. Vamos nos encontrar no sábado, se você estiver livre.]

Não importava o quê, algumas coisas eram melhores de resolver cara a cara.

Ryan respondeu na mesma hora: [Pode atender o telefone?]

Julie se lembrou. Na vida passada, essa era a época em que ele ficava horas e horas no telefone com ela todas as noites. Suas pobres colegas de quarto tinham sofrido com isso. Ela fez uma nota mental de comprar tortinhas de ovo para todas quando voltasse ao campus no domingo, como pedido de desculpas.

Julie: [Apagaram as luzes. Vou dormir. A gente conversa no sábado.]

A decepção de Ryan praticamente atravessou a tela: [Tá bom. Boa noite [Lua]]

Quando o quarto esfriou um pouco, Julie subiu para a cama de cima. Abriu o aplicativo do despertador, o dedo pairando em agonia entre 5:40 e 5:45. Por fim, consolou-se com o pensamento de que ninguém engorda por causa de uma mordida. O importante era manter o ritmo. Devagar e sempre.

Ela ajustou o alarme para 5h45 da manhã.

Às onze, o banheiro ficou em silêncio, e as colegas subiram para a cama. No escuro, Julie ouviu a conversa baixa delas. Alguns minutos depois, as vozes foram sumindo, e todas pegaram no sono.

Bem cedo na manhã seguinte, Julie despertou com um sobressalto por causa do toque polifônico estridente que vinha debaixo do travesseiro.

Ainda meio dormindo, apalpou em busca do celular. Acostumada com as telas sensíveis ao toque perfeitas de uma década depois, seus dedos apertaram os botões desajeitadamente até que, enfim, ela conseguiu silenciar aquele barulho infernal. A essa altura, já estava completamente acordada.

“...”

Depois de uma breve e agonizante luta mental, aceitou seu destino. Pelo menos ainda não era o auge do inverno. Sair da cama não era uma tortura absoluta.

Movendo-se o mais silenciosamente possível, lavou o rosto e escovou os dentes num piscar de olhos, pegou o livro didático e saiu do dormitório na ponta dos pés.

Tania perguntou da cama, sonolenta: “O que você está fazendo?”

Julie fez sinal para ela se calar. “Indo para a pista.”

Tania murmurou: “Você é maluca”, e apagou de novo.

Era maluquice. Uma maluquice assustadora. O Gaokao só seria no ano seguinte, mas as provas de meio de semestre já estavam bem diante dela. Se não começasse a estudar feito louca agora, seus pais iam ter um ataque do coração em conjunto quando vissem seu boletim.

Ao sair do prédio do dormitório, ela esticou os braços acima da cabeça.

O dormitório dos meninos não ficava longe do das meninas. Enquanto descia os degraus, planejando dar meia volta na pista antes de começar a estudar, ela congelou. Caminhando na direção dela pela alameda arborizada, de fones de ouvido, estava Warren Gale.

“Bom dia, Warren~”

Julie não esperava esbarrar nele tão cedo. Olhando melhor, percebeu que, diferente dela, meio morta e acordada à força, ele parecia incrivelmente alerta e revigorado.

Aquilo a fez lembrar do futuro. Bayview já tinha sediado uma maratona da cidade para incentivar os moradores a se exercitarem, e diziam que Warren tinha corrido a prova inteira e ainda levado uma medalha para casa.

Mesmo dali a dez anos, como um executivo extremamente bem-sucedido, ele continuava discreto e disciplinado. Quando os outros caras fumavam, ele corria. Quando os outros caras bebiam álcool, ele bebia leite. Até Gary Blacker já tinha brincado certa vez que Warren tinha esculpido contenção e autodisciplina diretamente nos próprios ossos, chamando-o de um psicopata completo.

Warren parou no meio do caminho.

O primeiro pensamento genuíno dele foi que seu relógio devia estar quebrado. Por que mais ele esbarraria com ela justo agora?

Enquanto a encarava com uma leve incredulidade, Julie também o analisava de cima a baixo.

Ao que parecia, tivesse ele dezoito ou vinte e oito anos, seu uniforme preferido sempre era calça de moletom — preta ou cinza. Os tênis estavam impecáveis. Mas o que realmente chamou sua atenção foi a caixinha de leite na mão dele.

Era de uma marca local de Bayview, com embalagem simples, um design que não mudava havia anos.

Sempre que o encontrava por acaso na copa da empresa, ele estava invariavelmente encostado no balcão, bebendo uma caixinha de leite.

Ela não fazia ideia de que seu chefe bebia exatamente a mesma marca havia uma década.

Será que é tão bom assim?

Seguindo o olhar dela, Warren baixou os olhos para a caixinha em sua mão. Por um raro segundo, pareceu genuinamente sem reação. Sem pensar muito, estendeu-a para ela.

— Se você quiser, pode ficar.

Se ele tivesse esbarrado com literalmente qualquer outro colega de classe hoje, teria feito exatamente a mesma coisa. Na cabeça dele, era uma forma de quitar a dívida do Kit Kat.

Julie apressou-se em acenar com as mãos.

— Não, não, tudo bem! Eu só fiquei curiosa. Você parece estar sempre bebendo essa marca. É tão boa assim?

Sendo moradora dali, obviamente ela já tinha provado antes. Honestamente, tirando o filtro da nostalgia da cidade natal, o gosto era completamente comum.

Será que o paladar dela simplesmente não tinha conseguido captar a grandiosidade daquilo?

Warren, um cara capaz de responder com naturalidade a quase qualquer pergunta complicada jogada na direção dele, ficou momentaneamente sem saber o que dizer. Um lampejo de desconforto surgiu em seu peito.

— É razoável. É só hábito.

Só isso?

Só hábito??

Julie ficou levemente surpresa.

— Ah, entendi...

Se ela não estivesse tão obcecada naquele momento em decorar o conteúdo do livro, com certeza teria arrastado seu chefe para uma conversa mais longa a fim de criar proximidade.

Em vez disso, acenou alegremente.

— Vou primeiro para a pista.

Warren fez um único aceno de cabeça, lançou-lhe um olhar e então seguiu em direção ao refeitório. A luz da manhã começava a surgir quando eles passaram um pelo outro em direções opostas.

Era para ter sido um encontro completamente comum, passageiro.

Só que, depois do estudo da manhã, quando Julie e Tania foram até a lojinha do campus comprar bebidas, Julie viu exatamente aquela marca de leite na prateleira.

Ela e Warren não eram próximos nem um pouco. Como ela já estava fixada na versão futura dele, descobrir que ele mantinha exatamente esse hábito havia mais de dez anos a fez acreditar subconscientemente que tinha que existir um motivo.

Basicamente, ela tinha sido influenciada com sucesso.

Sem pensar duas vezes, movida inteiramente pela mentalidade de “preciso ver o que isso tem de tão especial”, ela pegou uma caixinha e pagou por ela.

Como ainda estava completamente cheia do café da manhã, não enfiou o canudinho de imediato. Levou de volta para a sala de aula e a colocou casualmente no canto da carteira.

Alguns minutos depois, Warren e Gary entraram pela porta dos fundos. Enquanto descia pelo corredor entre as fileiras, o olhar de Warren passou inadvertidamente pelas carteiras e parou na hora.

Se eles não tivessem tido aquela conversa naquela manhã, ele com certeza não teria reparado na caixinha de leite sobre a mesa dela.

Gary quase bateu nas costas dele.

— Você ficou paralisado, foi?

Warren não disse uma palavra. Continuou andando até seu lugar e, com tranquilidade, puxou uma folha de rascunho, com a expressão completamente indecifrável.

Pouco atrás dele, o som de garotas conversando e rindo flutuava pelo ar.

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