Capítulo 9 A rotina matinal

Nos dois dias seguintes, Julie conseguiu esbarrar com Warren toda santa manhã. Ela prestou atenção no horário — era sempre exatamente entre 6h00 e 6h05.

Numa hora em que a maioria dos estudantes do alojamento ainda travava uma guerra psicológica brutal só para conseguir sair da cama, ele já estava de pé e em movimento.

Até Julie achava aquilo agoniante, mas ele parecia completamente imperturbável.

Ninguém tem sucesso por acaso, pensou ela. Futuros executivos simplesmente são feitos de outro material.

No começo da manhã de sexta-feira, o despertador arrancou Julie dos sonhos mais uma vez. Ela o desligou com eficiência treinada, tropeçando para fora da cama com os olhos semicerrados. Só quando chegou à pia da varanda para escovar os dentes percebeu que uma chuvinha enevoada caía lá fora.

A chuva do início de setembro não trazia frio de verdade, mas o ar tinha um cheiro forte de asfalto molhado e grama fresca.

Com a escova na boca, Julie ponderou se deveria levar um guarda-chuva para a pista. Ela se conhecia bem demais. Tinha conseguido aguentar por três ou quatro dias, mas, se usasse a chuva como desculpa para voltar se arrastando para a cama agora, todo aquele sofrimento anterior teria sido em vão.

Depois de um breve conflito interno, ela chegou a um meio-termo. Não correria na chuva, mas também não voltaria para a cama.

Após uma rotina matinal em velocidade máxima, ela pegou um guarda-chuva e desceu. Olhou em volta por hábito, ficando levemente surpresa ao não ver Warren.

Um segundo depois, revirou os olhos mentalmente para si mesma. Ele não é uma máquina. Não era como se ela fosse esbarrar com ele todos os dias, sem falta. Ela seguiu pelos caminhos silenciosos e úmidos do campus até o refeitório, pegou um sanduíche quente de café da manhã e uma porção de batata hash brown, e foi direto para o prédio acadêmico.

Às 6h15, o prédio estava praticamente deserto.

Estudantes que acordavam vinte minutos mais cedo para tomar café da manhã ou decorar vocabulário eram uma raça rara e assustadora de esforçados compulsivos. A própria Julie não conseguia acreditar que tinha entrado voluntariamente para aquele grupo.

Olha só pra mim. Tô arrasando.

Mais adiante no corredor, Warren Gale descascava um ovo cozido devagar, metodicamente. Ao ouvir o toque rápido — toc, toc, toc — de passos subindo a escada, ele virou a cabeça e lançou um olhar casual.

Quando seus olhos escuros encontraram os de Julie — que se iluminaram de imediato com uma alegria cintilante, descarada —, seus dedos se contraíram involuntariamente.

A casca do ovo, já frágil, se esfarelou por completo na mão dele.

Julie ficou genuinamente radiante ao vê-lo. Ela praticamente foi saltitando até o lado dele, o rabo de cavalo balançando num arco vivo. “Bom dia, Warren~”

“...”

Warren sentiu uma pontada de impotência. Ele tinha saído do alojamento dez minutos mais cedo de propósito naquele dia só para evitar exatamente esse cenário. “Bom dia.”

Logo atrás deles ficava a sala de aula. As portas e janelas estavam escancaradas, mas o cheiro pesado de uma dúzia de cafés da manhã adolescentes diferentes ainda pairava no ar.

Um pensamento repentino e aleatório surgiu na cabeça de Julie: ele está comendo no corredor porque não quer que o cheiro da comida incomode ninguém lá dentro?

Que chefe atencioso. Etiqueta corporativa de primeiríssima.

Ela tinha planejado comer na própria mesa, mas, ao vê-lo parado ali fora, decidiu imediatamente seguir o exemplo. Encostou-se na parede, abriu o saco de papel e deu uma mordida no bolinho de batata. Olhou de relance para o café da manhã apoiado no parapeito da janela ao lado dele: um bagel de bacon com ovo e um ovo cozido. Simples, eficiente.

“O bagel está bom?”, ela perguntou.

A mãe dela, Hettie Carven, era profundamente paranoica com carne de refeitório, e vivia aterrorizando Julie com descrições gráficas do processamento de porco de procedência duvidosa só para acabar com o apetite dela.

Warren, como sempre, economizou nas palavras. “Está bom.”

“Que horas você realmente acorda todo dia?”, Julie perguntou, casualmente. “Não te vi mais cedo, então achei que finalmente tinha batido o seu recorde.”

O olhar de Warren estava escuro e pesado enquanto ele observava a chuva pela janela.

Ele queria muito, muito mesmo dizer a ela que, se precisasse de um favor, era só pedir.

Mas as palavras ficaram presas na garganta. E o silêncio dele não pareceu diminuir em nada a vontade dela de conversar. Julie continuou tagarelando bem ao lado dele. “...Quer dizer, acordar agora nem é tão ruim, mas eu não faço ideia do que vou fazer quando o inverno chegar.”

Warren terminou o ovo e passou para o bagel, e a velocidade com que comia acelerou visivelmente. Ele comeu tão rápido que quase se engasgou.

Percebendo a súbita rigidez na postura dele, Julie pegou imediatamente a caixinha de leite, enfiou o canudo no lacre e a empurrou direto para a mão dele. “Você engasgou? Rápido, bebe isso!”

O corpo dele reagiu mais rápido que o cérebro. Ele pegou. Os dedos dele roçaram nos dela.

Um breve lampejo de pânico atravessou seu rosto normalmente estoico. Ele se afastou alguns centímetros com rigidez, abaixando a cabeça para beber metade da caixinha de uma vez só, antes que sua expressão finalmente voltasse ao normal. Quando virou a cabeça, ela estava olhando para ele com uma preocupação pura e genuína.

A voz de Warren baixou um tom inteiro. “Obrigado.”

Julie soltou um enorme suspiro de alívio. “Desde que você esteja bem~”

O último ano do ensino médio era brutal. Até um gênio certificado como o chefe dela estava correndo tanto que quase se engasgava com o próprio café da manhã só para economizar tempo. O vestibular era um campo de batalha. Ela invejava pessoas como Warren, que alcançariam um sucesso enorme no futuro, mas não sentia ciúme. Pessoas que se esforçavam desse jeito mereciam cada pedacinho da boa vida que conquistavam.

Alguns minutos depois, Gary Blacker entrou na sala de aula como um furacão, chegando por pouco antes do sinal.

O cabelo dele estava um desastre completo. Como normalmente dava muita importância à própria aparência, tirou um pente de dentro da carteira. Enquanto arrumava o cabelo, lançou um olhar para o lado e percebeu Warren arrastando a caneta de um lado para o outro com agressividade sobre uma folha de rascunho, desenhando uma linha grossa e escura.

Gary arqueou uma sobrancelha. “Que tipo de problema de física está te deixando tão estressado assim?”

Ele se inclinou para olhar mais de perto.

Warren se esquivou, a linha afiada da mandíbula absurdamente tensa. “Não me enche. Cai fora.”

Gary: “?”

Certo, então. Meu filho está tendo outra daquelas crises.

Amanhã era sábado. O corpo estudantil inteiro estava eufórico com a expectativa do fim de semana — exceto Julie Carven.

Depois do jantar, enquanto ela e Tania davam uma volta pelo campus para fazer a digestão, Julie ainda tentava agressivamente decorar um poema antigo de Literatura AP, gaguejando nas sílabas arcaicas do inglês antigo.

Tania franziu a testa enquanto a ouvia tropeçar nos versos.

Aquilo era matéria do segundo ano delas. Como ela podia estar indo tão mal assim? Mas, pensando bem, aquela era só a primeira rodada de revisão.

Para Julie, não era algo que ela tinha aprendido dois anos atrás. Era algo que tinha aprendido uma década atrás. Era incrivelmente complicado e, nos últimos dias, só conseguir ler aquilo em voz alta sem travar já tinha sido uma luta enorme.

Shakespeare, eu te odeio com toda a minha alma.

Mas esforço dava resultado. Com Tania soprando dicas, ela mal conseguiu recitar tudo. Por fora, estava sorrindo; por dentro, estava gritando. Ela não aguentava mais um único dia daquela vida estudantil miserável. Seu estado mental era, no mínimo, preocupante, e as amigas já estavam começando a achar que aqueles surtos aleatórios de estudo maníaco tinham ido longe demais.

Tania hesitou, tentando encontrar um jeito gentil de dizer aquilo. “Sabe... as provas ainda estão a mais de meio ano de distância.”

Ela estudava com Julie havia mais de um ano e nunca a tinha visto agir daquele jeito. Em particular, ela, Beth e Dan tinham até feito apostas sobre quanto tempo aquele episódio maníaco ia durar. Aquilo estava começando a assustá-los.

Julie fechou os olhos em agonia. “Eu sei! Só faltam 245 dias!”

Tania: “...”

O que a gente faz? A garota realmente enlouqueceu.

Ela fez uma pausa. “Que tal o seguinte... mais tarde, eu pego emprestados uns quadrinhos de romance com a Sally, e nós duas vamos pedir um atestado para o Warren? Eu fico no dormitório lendo com você.”

Por exatamente um segundo, Julie ficou absurdamente tentada.

Mas balançou a cabeça. Vendo Tania enrugar o nariz como se tivesse acabado de virar um gole de café preto, Julie não conseguiu segurar o riso. Uma sensação quente floresceu em seu peito. Ela segurou o braço de Tania, puxando-a para perto. “Não se preocupa, eu sei o que estou fazendo.”

É só uma prova. Se ela venceu isso uma vez, podia muito bem vencer de novo.

Depois de jogar basquete, Warren voltou correndo para o dormitório para tomar um banho rápido, jantou no refeitório e retornou para a sala de aula se sentindo completamente revigorado. Antes mesmo de se sentar, Gary, que naquele momento estava destruindo um pãozinho com carne desfiada, murmurou de boca cheia: “Alguém veio te procurar mais cedo. Quer pedir uma autorização.”

Ao ouvir aquela frase, o corpo inteiro de Warren relaxou de repente. Ele sentiu uma estranha sensação de “finalmente”.

Sua suposição imediata, instintiva, foi que se tratava de Julie.

Ele puxou a cadeira e se sentou. Warren levava a sério seus deveres como representante da turma, mas, desde que um aluno desse um motivo minimamente aceitável e não fizesse disso um hábito, ele não via problema em assinar uma autorização. Sua testa se descontraiu. Ele pegou o celular para jogar, mas, ao se lembrar da queda desastrosa de alguns dias atrás, tornou a colocá-lo de lado.

Naquele exato momento, Julie e Tania entraram pela porta da frente.

Naturalmente, ela teve de passar pela mesa de Warren. Os olhares dos dois se encontraram sem esforço, e ela lhe lançou um sorriso radiante. — Warren, você já comeu?

Warren assentiu uma única vez, esperando em silêncio que ela continuasse.

Mas ela não parou. Depois de receber a resposta dele, passou direto por Warren e foi até a própria carteira. Por alguns breves segundos, absolutamente ninguém percebeu o lampejo de pura confusão que cruzou o rosto de Warren Gale.

Julie, naquele momento mastigando um canudo, não fazia a menor ideia. Estava extremamente satisfeita com o progresso atual. Se quisesse criar contatos com o futuro CEO, primeiro precisava entrar numa boa universidade. Caso contrário, não atenderia nem aos requisitos mínimos de currículo para trabalhar para ele.

Ela tinha o próprio plano. O próprio ritmo.

Esbarrar no chefe quatro manhãs seguidas já era o bastante. Com o tempo, a impressão mais marcante que deixaria nele seria a de “esforçada”. Se isso não é sair na frente na largada corporativa, então o que é?

— Warren.

Um garoto de óculos grossos de armação preta parou diante da mesa de Warren, com um sorriso descaradamente bajulador estampado no rosto. — Tenho um favorzinho pra pedir!

Warren já sabia exatamente aonde aquilo ia dar. Ele olhou para o garoto com uma expressão assustadoramente neutra, tirando uma prova de dentro da pasta e abrindo-a sobre a mesa. — Fala.

— Quero uma autorização pra sair do estudo noturno.

O rosto de Warren permaneceu completamente sem emoção. — Motivo.

Motivo? O garoto só queria se esconder no dormitório e assistir ao jogo de basquete. Não esperava que fosse dar certo, mas o fato de Warren pedir um motivo lhe deu uma súbita faísca de esperança. Isso significava que ele estava considerando! Só que ele não tinha preparado uma boa mentira. Hesitou, então tentou:

— Eu... não estou me sentindo bem?

Clique.

Warren tampou a caneta. Ergueu os olhos para o garoto, com a voz mortalmente fria. — Volta pro seu lugar. Negado.

O garoto: “...”

Os ombros dele caíram. Ele resmungou:

— Warren, você não tem a menor humanidade.

Mesmo parecendo saudável o bastante para estrelar um comercial de vitaminas, ele tinha dito que não estava se sentindo bem. Por que Warren estava sendo tão cruel assim?

Gary quase cuspiu o salgado. — Que nada. Pelo menos o nosso Warren trata todo mundo igual!

— O que faz dele ainda menos humano. Dá até medo.

Irritado com o barulho, Warren fechou o livro. — Continuem falando. Quero ver.

O grupo se dispersou na mesma hora.

Finalmente, um pouco de paz e sossego.

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