Capítulo 3
Ponto de vista de Emma
Ele estava no gramado, tremendo com o vento noturno.
Eu encarei com frieza aquela bagunça patética do lado de fora da minha janela, sem me dar ao trabalho de abri-la imediatamente.
Incontáveis noites da minha vida passada tinham sido exatamente assim. Ele se metia em encrenca, os pais o trancavam para fora, e ele vinha às escondidas bater na minha janela. Todas as vezes, sem exceção, eu amolecia e deixava ele entrar, fazia curativo nos cortes, enfiava na mão dele o dinheiro da minha mesada.
Mas, desta vez, eu apenas fiquei ali parada por dois minutos inteiros. Só quando ele pareceu pronto para jogar pedras no vidro é que empurrei a janela e abri devagar.
—Emma! Até que enfim! —Luke disse, desesperado. —Rápido, eu preciso das chaves do Honda da sua mãe e de quinhentos dólares! A Casey se meteu numa encrenca num bar lá do South Side... eu tenho que ir até lá e salvar ela!
Ele nem perguntou se eu estava dormindo. Nem pediu desculpas por me acordar. Na cabeça dele, eu ainda era o caixa eletrônico particular e a rede de segurança dele, disponível vinte e quatro horas por dia.
Eu olhei para o arranhão ainda sangrando no rosto dele e senti o cheiro de bebida barata e cigarro impregnado nele.
—Chaves do carro? Quinhentos dólares? —Cruzei os braços, olhando para baixo, na direção dele. —Luke, alguém arrancou o seu cérebro na porrada?
Luke parou, congelado. Claramente não conseguia acreditar que eu estava falando com ele desse jeito.
—Emma, para com essa merda... isso é questão de vida ou morte! —Ele agarrou o peitoril da janela, frenético. —O ex da Casey achou ela, e eles estão com ARMAS! Se eu não levar dinheiro pra tirar ela de lá, eles vão matar ela! Só me empresta a grana, tá bom?
—Não. —Duas palavras, limpas e simples.
—O que foi que você disse? —Os olhos de Luke se arregalaram, como se eu estivesse falando outra língua.
—Eu disse não. —Inclinei o corpo um pouco para frente, sustentando o olhar chocado dele. —A sua Casey irritou uns bandidos... esse é um problema DELA. Você querer ir morrer por ela... é escolha SUA. O que isso tem a ver comigo? Por que eu deveria torrar o dinheiro que eu suei pra ganhar no buraco sem fundo que vocês dois idiotas cavaram pra vocês mesmos?
O rosto de Luke ficou vermelho-escuro, a raiva deixando ele burro.
—Emma, como é que você consegue ser tão SEM CORAÇÃO?! A Casey é um ser humano! Você não era assim antes... você era BOAZINHA! Você tá com ciúme dela? Ciúme porque eu amo ela e não você?!
Ciúme? Eu quase caí na risada.
—Luke, o que te faz pensar que você vale a pena alguém ter ciúme? —Revirei os olhos. —Um babaca que jogou o futuro fora por causa de uma vagabunda, um parasita que não consegue nem se sustentar, mas se fantasia de herói nas próprias fantasias. Me diz: o que, exatamente, em você merece um segundo olhar?
—Você...! —Luke ergueu a mão como se fosse esmagar a janela.
—Eu te desafio, porra. —Eu encarei ele, sem expressão. —No segundo em que esse vidro quebrar, eu chamo a polícia. Invasão de propriedade mais dano ao patrimônio... você acha que vão te jogar na cadeia junto com a sua namoradinha encrenqueira?
A mão de Luke travou no ar. Ele me olhou, e medo e confusão foram entrando nos olhos dele. Finalmente entendendo que essa Emma não era a mesma trouxa que costumava apoiar cada decisão idiota dele.
—Tá... tudo bem. TUDO BEM. —Luke recuou, com os dentes cerrados, apontando para mim com ódio. —Emma, lembra do que você disse hoje à noite. Mesmo que você fique de joelhos e implore depois, eu nunca mais vou falar com você! Acabou!
—A melhor notícia que eu ouvi o dia inteiro. —Eu disse, fria, e então bati a janela com força, cortando completamente o chilique patético dele.
No dia seguinte, a escola explodiu de fofocas.
Aparentemente, Luke tinha roubado dois mil dólares do cofre do pai para ir “resgatar” a Casey naquele bar do South Side. Não só os bandidos ficaram com o dinheiro, como quebraram três costelas dele. Quando a polícia apareceu, encontraram um saco cheio de metanfetamina na bolsa da Casey.
Luke foi preso como cúmplice. O conselho escolar da Redwood High convocou uma reunião de emergência e expulsou ele na hora.
O antigo queridinho, quarterback de ouro, tinha virado a maior piada da cidade.
Naquela mesma tarde, a FedEx entregou um envelope grosso na minha porta.
No canto superior esquerdo, estava o icônico logo da árvore vermelha da Universidade de Stanford.
Eu rasguei o envelope e vi aquela palavra linda: “Parabéns”.
Finalmente. Tinha acabado.
Para sair na frente na vida universitária, eu me inscrevi no programa preparatório de verão de Stanford e decidi ir embora mais cedo dessa cidade de merda.
O dia em que eu parti estava claro, brilhante, sem uma nuvem.
Coloquei a mala no porta-malas do táxi e abracei meus pais em despedida.
—Liga todo dia quando chegar na Califórnia —disse a mamãe, com os olhos marejados.
—Não se preocupa. —Sorri e dei um tapinha nas costas dela, então entrei no carro.
—Aeroporto, por favor —eu disse ao motorista, com calma.
A paisagem ia ficando para trás do lado de fora da janela enquanto meu celular não parava de vibrar no banco do passageiro. O nome de Luke acendia na tela.
Eu soube que os pais dele tinham pago a fiança dele ontem. Ele estava enfrentando acusações graves.
Mensagem atrás de mensagem inundou a tela:
“Emma! Você tá MALUCA?! Como assim você vai pra Stanford?!”
