Capítulo 2

Passei as compras mais chatas de suprimentos para a minha mãe.

— Mãe, preciso que você esvazie todo mercado que encontrar. Arroz, carne, farinha, legumes, rações militares, papel higiênico, sabão... Não se preocupe com a aparência. Alugue alguns caminhões e deixe o depósito tão abarrotado que não sobre nem um centímetro livre.

Minha mãe assentiu com seriedade, pegou a lista de compras que passava de uma dúzia de páginas e saiu correndo porta afora.

Quanto a mim, liguei minha picape e me preparei para passar em todas as farmácias num raio de oitenta quilômetros.

Num apocalipse, até uma infecçãozinha podia te matar.

Eu precisava de um enorme estoque de remédios, e o inventário de uma única drogaria não chegava nem perto de ser suficiente. Cheguei até a subornar um distribuidor de suprimentos médicos e levei direto do depósito dele uma caixa inteira de antibióticos e dois concentradores portáteis de oxigênio.

Quando saí da farmácia carregando duas sacolas pesadas, abarrotadas de materiais de primeiros socorros, uma cena do outro lado da rua chamou minha atenção.

Um cara musculoso de regata estava lutando para segurar o cachorro.

Era um malamute-do-alasca enorme, latindo furioso para um gato de rua e quase desequilibrando o dono com um único avanço violento.

Fiquei paralisado ao lado da minha caminhonete como se tivesse acabado de ser atingido por um raio.

Assim que o congelamento pesado começasse, a maioria dos aparelhos eletrônicos ao ar livre e das linhas de energia seria destruída pelo frio.

Se as câmeras de segurança infravermelhas ao redor da nossa casa apagassem, ficaríamos completamente expostos.

E, quando isso acontecesse, os saqueadores notariam que havia algo diferente no nosso lugar e fariam de tudo para roubar nossos suprimentos.

Eu precisava de guardas que continuassem atentos mesmo com temperaturas dezenas de graus abaixo de zero.

Mudei a rota na hora e dirigi direto até um criador de cães de trabalho.

Comprei dois pastores-do-cáucaso adultos.

Esses cães gigantes foram criados para enfrentar lobos e ursos em regiões montanhosas e nevadas.

Com aquelas duas feras guardando o lugar, mesmo que toda a rede elétrica falhasse, qualquer estranho que tentasse se aproximar dos nossos muros teria de passar primeiro pelos dentes deles.

Ao anoitecer, eu mal tinha terminado de acomodar os dois cães quando meu celular tocou de repente.

Era o Mark.

— E aí, cara. Como estão as coisas por aí?

Eu disse:

— Eu já entreguei minha demissão e voltei pra minha cidade. Estou planejando gastar cada centavo que tenho estocando suprimentos e fortificando a casa.

Houve um breve silêncio estranho do outro lado.

— Mark? Você ainda está aí? — franzi a testa.

— Tô... tô aqui, sim. — Mark pigarreou, parecendo estranhamente inseguro. — Você foi rápido... largou o emprego e foi pra casa?

— Você que me disse que, em duas semanas, a gente ia estar morto. Perto da minha vida, dinheiro não importa. — Uma sensação estranha tremeluzia no fundo da minha mente. — Aliás, como está o seu estoque? Quer que eu ajude a contratar uns caminhões?

— Ah... eu tô estocando, sim, claro que tô. — Ele se atrapalhou com as palavras. — Mas eu não tenho seus cinquenta milhões de dólares. Tô sem grana, então só dá pra pegar umas latas e um pouco de água engarrafada.

No instante em que ouvi o quanto ele parecia sem convicção, fiquei inquieto.

Isso não era algo para tratar com leveza. Umas latas de comida não sustentariam ninguém durante um inverno de mais de cem graus abaixo de zero.

— Você está de brincadeira comigo, Mark? — falei, meu tom ficando mais duro enquanto eu acelerava cada vez mais. — Isso é vida ou morte. Quem liga pra dinheiro? Faz um empréstimo. Hipoteca a casa. Estoura todos os cartões de crédito que tiver. Se for pra continuar vivo, até agiota vale a pena. Você não pode ficar sentado aí esperando morrer.

— Chega!

Mark explodiu de repente num rugido furioso do outro lado da linha.

Depois, ele tossiu sem jeito e disse:

— Quer dizer... eu vou dar um jeito. Não se preocupa comigo. Tenho umas coisas pra resolver, então vou desligar.

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