Capítulo 3

Depois de duas semanas seguidas de trabalho sem parar, as reformas da nossa casa finalmente ficaram prontas.

O lugar parecia um monstro, mas fazia a gente se sentir seguro.

“O que vocês estão se preparando pra quê, pra uma invasão alienígena?”, o nosso vizinho Bob gritou, rindo da nossa cara.

Meus pais estavam com uma aparência horrível.

Minha mãe era uma pessoa boa. Mesmo sendo zombada, ela ainda baixou a voz e tentou alertá-lo. “Bob, me escuta. Vem aí uma onda de frio catastrófica. É melhor você ir comprar comida e suprimentos de inverno agora, antes que seja tarde demais.”

“Um apocalipse de congelamento?”, Bob caiu numa gargalhada exagerada. “Meu Deus, Mary, é agosto. O serviço meteorológico diz que as temperaturas vão passar dos cem graus na semana que vem. Vocês enlouqueceram de vez?”

Ele balançou a cabeça, lançou pra gente aquele mesmo olhar que as pessoas dão a doidos e voltou para dentro.

Nas últimas duas semanas, o sol continuava castigando lá fora, e o noticiário estava cheio de alertas de onda de calor no verão. Não havia um único sinal de que qualquer suposto apocalipse congelado estivesse chegando.

E, com o quanto eu tinha andado ocupado correndo atrás de comprar suprimentos, eu mal tinha tido tempo de conversar direito com meus pais.

Por fim, encarando nossas contas bancárias esvaziadas e a montanha de suprimentos empilhada por toda parte, eles não conseguiram mais guardar.

“Filho”, disse meu pai, com as sobrancelhas cerradas de preocupação, “sua mãe e eu colocamos cada centavo das nossas economias de aposentadoria, e todo o seu prêmio de cinquenta milhões de dólares também foi embora. Mas... você tem certeza absoluta de que esse apocalipse realmente vai acontecer? A gente não viu nem um floco de neve.”

Os olhos da minha mãe estavam vermelhos quando ela segurou meu pulso. “Exatamente. E se não acontecer nada? Como é que a gente vai viver depois disso?”

“Pai, mãe, não entrem em pânico. Vai acontecer, com certeza”, eu disse, tentando tranquilizá-los. “O Mark me contou. Vocês me viram crescer — sabem que ele é meu melhor amigo. Ele nunca brincaria com uma coisa dessas.”

Para deixar meus pais completamente tranquilos — e, sinceramente, para me tranquilizar também — eu liguei para o Mark.

O telefone tocou por um bom tempo antes de ele atender.

“Mark, sou eu. Aqui em casa tá tudo pronto. Me diz na lata: faltam mais ou menos quantos dias pra esse clima extremo chegar? Meus pais estão muito ansiosos agora. Eles precisam de algo certo.”

Silêncio.

Um silêncio morto, total.

Então, alguns segundos depois, uma gargalhada selvagem explodiu no alto-falante.

“Mark? Do que você tá rindo?”, eu franzi a testa com força, sentindo meu coração despencar de repente.

“Meu Deus... você fez mesmo isso?”, Mark ria tanto que mal conseguia respirar, a voz pingando deboche e maldade. “E ainda arrastou a aposentadoria dos seus pais pra isso? Você é um idiota completo. Não existe apocalipse.”

O sangue sumiu do rosto dos meus pais.

“O-o que você disse?”, minha mente ficou em branco. Até minha voz tremia.

“Imbecil! Eu menti pra você!”, Mark cuspiu, venenoso. “Não tem apocalipse nenhum. Eu inventei isso na hora. Achei que talvez você fosse entrar em pânico e comprar uns caminhões de comida enlatada, mas em vez disso você enfiou os cinquenta milhões inteiros nisso. Jesus, isso não tem preço.”

Eu me afoguei em raiva e confusão. Berrei no telefone: “Por quê? Mark, a gente foi como irmãos por mais de dez anos! Por que você estragaria a minha vida com uma mentira dessas?”

“Irmãos? Não me faz rir.” A voz do Mark ficou selvagem. “A gente comprou aquele bilhete de loteria junto naquela loja de conveniência naquele dia. Então por que a sorte escolheu você? Por que você ganhou cinquenta milhões de dólares enquanto eu não ganhei nada? E mesmo assim, eu até poderia ter deixado pra lá — mas como você me tratou depois que ganhou? Como se eu fosse um mendigo na beira da estrada. Você me jogou dez mil dólares como se fosse caridade. Dez mil! Isso não é nada perto de cinquenta milhões! Você nunca me tratou como irmão coisa nenhuma!”

Eu me senti como se tivesse sido atingido por um raio. Eu não conseguia acreditar que aquelas palavras estavam mesmo saindo da boca do Mark.

A voz fria dele cortou a sala de estar como uma faca.

“Agora você tá quebrado de novo. Pior do que antes, na verdade. Ah, e mais uma coisa—”

Aí veio a última frase, cruel:

“Bem patético, né? Você não arruinou só você — arrastou seus pobres pais direto pra falência junto com você. Vai lá curtir o verão na sua fortalezinha, milionário.”

A ligação caiu.

A sala de estar mergulhou num silêncio mortal. Eu encarei, vazio, a tela escura do meu celular e, depois, devagar, virei e vi o rosto lívido dos meus pais.

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