Capítulo 1

Celia alimentava uma paixão proibida pelo irmão, Lex — um segredo que destruiu sua vida.

Trancada num campo de prisioneiros oculto na fronteira com a Suíça, ela sofreu abusos, doença e desespero, chegando até a perder a voz.

Lex, preso por ameaças e mentiras, passou meio ano em agonia antes de descobrir a terrível verdade.

Ele a vingou e pôs fim ao reinado maligno do próprio pai.

Mas então eles descobriram que não eram parentes de sangue. Diante do trauma profundo de Celia e do medo que ainda a assombrava, Lex decide esperar, com paciência.

O amor consegue remendar as cicatrizes deixadas pelo inferno?


Choveu o dia inteiro.

Ajoelhei na lama, vendo o caixão descer para dentro da terra. Lex puxou meu braço. “Levanta.” Eu não me mexi. Ele puxou com mais força, me erguendo até que todo o meu peso desabou contra ele. Eu não conseguia parar de tremer.

“Lex”, consegui dizer, sufocada.

Ele apenas apertou mais o braço ao meu redor e não disse nada.

A multidão foi se dispersando. Quando ergui os olhos, vi Harold parado perto dos portões de ferro trabalhado. Vestia um sobretudo preto impecável, sem um fio de cabelo fora do lugar, um cigarro preso entre os dedos. Havia uma mulher ao lado dele, num vestido cinza-ardósia. Os ombros dos dois estavam próximos. Quase se tocando.

Harold segurava um guarda-chuva preto sobre ela.

Fiquei olhando para a mão dele, firme no cabo. Eu nunca tinha visto ele segurar um guarda-chuva para a mamãe.

“Quem é ela?”, perguntei.

Lex acompanhou meu olhar. A voz dele saiu completamente sem vida. “O pai diz que ela é uma prima distante. Grace Moore. Vai ficar com a gente por um tempo.”

Uma prima distante. Eu nunca tinha ouvido falar dela na minha vida.

Quando o carro se afastou, olhei pela janela marcada por riscos de chuva. Harold se inclinava, sussurrando alguma coisa para a mulher. Ela virou o rosto e ofereceu um sorriso discreto. Era um rosto bonito — do tipo que obriga a gente a olhar duas vezes.

As últimas palavras da mamãe, de repente, voltaram com força, do jeito que os dedos frágeis dela tinham se cravado no meu pulso. “Tome cuidado com o seu pai.”

Na época, eu achei que a doença tinha confundido a mente dela. Agora, eu percebia que ela quis dizer exatamente aquilo.

De volta à propriedade Wentworth, um buquê fresco de lírios estava na sala de estar. Os favoritos da mamãe.

Harold desceu a escadaria ampla, com um copo de uísque âmbar na mão. “Cecilia, vai tomar um banho quente. Não pegue um resfriado.”

Ele apontou com o queixo para o fim do corredor. “Grace vai ficar no quarto de hóspedes do térreo. Vou mandar o pessoal esvaziar o quarto da sua mãe. Por enquanto, não entra lá.”

Minha garganta travou. “Você vai encaixotar o quarto da mamãe?”

"As coisas precisam ser organizadas." Harold deu um gole lento. Seu olhar passou pelo meu rosto sem se fixar.

Lex deu um passo à frente. "Pai, nós a enterramos hoje."

Harold olhou para ele. Eu conhecia aquele olhar. Era a mesma expressão inexpressiva que ele me lançava quando eu não levava para casa um boletim perfeito quando criança. Não era raiva. Era só um frio cortante: Você não vale o meu tempo.

"Eu disse alguma coisa errada?" Harold apoiou o copo no corrimão. "Temos uma hóspede em casa. O que parece, sua irmã chorando descontroladamente?"

"Uma hóspede?" Inclinei-me para fora de trás de Lex. "A mamãe acabou de ser enterrada e já temos uma hóspede?"

O ar no cômodo congelou.

Harold cravou os olhos em mim. Pela primeira vez, uma faísca de calor brilhou em seu olhar.

"Está me questionando?"

Lex puxou minha manga. "Deixa pra lá."

Grace surgiu pelo corredor. Tinha trocado de roupa e vestia um conjunto de descanso claro e bem cortado, embalando uma caneca de chá fumegante. Seu tom era enjoativamente gentil, como quem arrulha para uma criança pequena. "A menina está abalada. É perfeitamente compreensível."

Ela me ofereceu a xícara. Não peguei.

Estudei seu rosto. Sob o brilho quente e âmbar dos lustres da sala de estar, seus traços estavam ainda mais nítidos do que no cemitério. Refinados de forma impecável. Ela tinha a aura de dinheiro antigo, não de alguma parente desesperada procurando abrigo. Pior ainda, a maneira como deslizava pelo ambiente — ela se movia como a dona da casa.

"Obrigada." Lex interceptou o chá e segurou meu braço. "Nós vamos subir."

A voz de Grace veio atrás de nós. "Boa noite, crianças."

Aquela palavra, crianças, fez um calafrio agudo descer pela minha espinha. Ela não era uma Wentworth. O que lhe dava o direito de nos chamar assim?

De volta ao meu quarto, fechei a porta e escorreguei pela madeira pesada até atingir o chão.

"Quem é essa mulher?", perguntei.

Lex se agachou à minha frente. Ficou em silêncio por um longo momento. "Papai diz que ela é uma parente distante do lado dele."

"Você acredita nisso?"

Ele não respondeu.

Eu me levantei e fui até a janela. Os refletores da entrada ainda estavam acesos. A porta do lado do motorista do carro de Harold estava escancarada. Grace estava bem ao lado dela, e Harold estava inclinado para fora do banco. A distância entre os dois era praticamente inexistente.

Ele ergueu a mão e colocou para trás da orelha dela uma mecha solta de cabelo.

O gesto foi leve como uma pluma. Natural. Como se ele já tivesse feito aquilo mil vezes.

Virei o rosto e fechei as cortinas com força. Era o primeiro dia em que minha mãe estava debaixo da terra, e aquela casa já pertencia a outra pessoa.

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