Capítulo 2

Depois do funeral.

A forma como Harold se referia a Grace mudou de “prima distante” para simplesmente “Grace”. Então, certa manhã, durante o café da manhã, ele a chamou de “querida”. A xícara na minha mão ficou suspensa no ar, mas eu não ergui os olhos.

Lex passou os ovos fritos para o meu prato, agindo como se não tivesse ouvido nada.

Um mês depois, eu fiz dezoito anos.

No meu aniversário, Grace preparou uma mesa farta, e Harold estourou uma garrafa de champanhe. Eu me sentei à mesa de jantar, encarando Grace ocupar o espaço que, por direito, pertencia à minha mãe. Meu estômago se revirou.

— Feliz aniversário, Cecilia. — Grace estendeu uma caixa de presente na minha direção.

Eu não peguei. Lex a interceptou por mim, murmurando um educado “obrigado”.

O presente dele para mim foi um colar de prata, com um pingente de estrelinha.

— Vou te proteger de agora em diante — disse ele, num tom mal acima de um sussurro.

Quando eu o peguei, a ponta dos meus dedos roçou o dorso da mão dele, e eu recuei num sobressalto. Mantive a cabeça baixa, fingindo mexer no colar, com as orelhas ardendo. Eu sabia que era errado. Ele era meu irmão. Do meu sangue.

Mas um coração disparado tem vontade própria.

De volta ao meu quarto, depois do jantar, alguns goles de champanhe deixaram minha cabeça agradavelmente tonta. Puxei a gaveta, tirei meu diário, abri numa página em branco e rabisquei uma única frase:

Eu quero me casar com o Lex.

Fiquei encarando as palavras por alguns segundos quando terminei; então fechei o caderno de supetão e empurrei de volta para a gaveta. Fui tomar banho. A água estava escaldante. Eu disse a mim mesma que era só dependência. Não era amor.

Fiquei no banheiro por uns vinte minutos. Quando saí, Victoria estava bem na frente da minha penteadeira.

— Celia, sua presilha é linda. Me empresta? — disse ela, abrindo um sorriso enquanto balançava uma presilha de borboleta na mão.

Eu não pensei muito e disse que tudo bem. Ela me desejou boa noite ao sair, puxando a porta para fechar atrás de si.

Logo na manhã seguinte, Harold me chamou ao escritório dele.

Meu diário estava escancarado em cima da mesa. A página estava dobrada na ponta, e a frase, brutalmente circulada com tinta vermelha.

— O que é isso? — ele perguntou.

— Eu... eu só escrevi sem pensar.

— Sem pensar? — Ele fechou o caderno com força e bateu na mesa. Não foi uma pancada tão forte, mas mesmo assim a xícara de chá tilintou. — Ele é seu irmão biológico. Você sabe exatamente o que isso implica.

As lágrimas transbordaram. Eu não conseguia dizer uma palavra.

A pesada porta de carvalho se abriu. Victoria entrou, com os olhos vermelhos.

— Celia, eu sempre te tratei como uma irmãzinha. — A voz dela tremeu. — Se você ama o Lex, eu posso sair do caminho... Mas vocês dois são irmãos. Isso é errado, você sabe disso, não sabe?

Ela chorou, limpando as lágrimas com delicadeza com o dorso da mão. Ela continuava linda mesmo chorando.

Mas eu reparei que ela não tinha batido antes de entrar.

E o vestido que ela usava naquele dia era exatamente o mesmo que tinha usado quando pegou minha presilha emprestada na noite anterior. Ela nunca tinha ido para casa.

— Eu não gosto mais dele — eu disse, sacudindo a cabeça com violência. — Eu juro que não.

“Tarde demais.” Harold pegou o telefone da mesa. “Mande seu irmão entrar.”

Quando Lex entrou, toda a cor tinha sumido do rosto dele. Ele lançou um olhar para o diário e, em seguida, me encarou. Naquele único olhar, havia agonia e dor, mas absolutamente nenhum nojo.

“Eu vou resolver”, ele disse, baixo.

“Claro que vai.” Harold recostou-se na cadeira. “Primeiro: você fica noivo da Victoria nesta quarta-feira. Segundo: você manda sua irmã para a Suíça. Eu já entrei em contato com uma escola.”

“Que escola?”

“A Prudence Academy. Eles são especializados em corrigir esse tipo de… problema.”

“Pai—”

“Você não tem escolha.” O olhar de Harold passou direto por mim. A voz dele não era alta, mas cada palavra acertava como um prego. “Se você não obedecer, ela pode acabar sofrendo um ‘acidente’. O ‘acidente’ da sua mãe serve como precedente perfeito. Já que eu consegui fazer isso uma vez, não tenho medo de fazer de novo.”

O ar no cômodo congelou.

Os punhos de Lex se cerraram com tanta força que os nós dos dedos estalaram.

Eu me atirei para a frente e agarrei a manga dele. “Lex, do que ele está falando? O que aconteceu com a mamãe?”

Ele não me respondeu. Apenas manteve os olhos fixos em Harold e, lá no fundo daquele olhar, alguma coisa se partiu de um jeito irreparável.

“Eu aceito.” As palavras soaram como se tivessem sido esmagadas para fora do fundo do peito. “Mas Celia continua intocada. Nem um fio de cabelo dela vai ser ferido.”

“Naturalmente.” Harold ofereceu um sorriso fraco e gelado. “Afinal, ela é minha filha.”

Três dias depois, o noivado saiu nos jornais. A notícia da aliança entre as famílias Astor e Wentworth se espalhou como fogo em palha seca. Nas entrevistas, Victoria se declarou “feliz da vida”. Lex não sorriu uma única vez.

Nesse mesmo dia, meu passaporte e uma passagem de avião foram entregues no meu quarto. A partida estava marcada para a segunda-feira seguinte.

À mesa do jantar, Harold disse: “A escola é na Suíça. Ambiente esplêndido. Vá aprender boas maneiras, e você pode voltar em alguns anos.”

Eu permaneci completamente em silêncio. Grace, sentada ao lado dele, colocou uma porção de comida no meu prato.

Na véspera da minha partida, Lex veio ao meu quarto. Parou no vão da porta, recusando-se a cruzar o limiar.

“Estou mandando você para longe para estudar”, ele disse. “Se dedique. Quando você voltar… nós ainda vamos ser um bom irmão e uma boa irmã.”

Eu caí de joelhos, agarrando a barra do casaco dele com as unhas. Minhas lágrimas respingaram direto nos sapatos dele. “Você me odeia agora? Com a mamãe morta… você também está me jogando fora?”

Ele se agachou e foi soltando meus dedos, um a um, numa lentidão dolorosa. As mãos dele tremiam, mas ele nunca deixou que eu visse seu rosto.

“Não”, ele disse, virando a cabeça para o lado. “Seja uma boa menina.”

Na manhã em que eu entrei no carro, olhei para trás. Lex estava na janela do segundo andar, com uma mão espalmada contra o vidro. Eu acenei, mas ele permaneceu perfeitamente imóvel.

Quando o carro dobrou a esquina, eu o vi puxar as cortinas e fechá-las.

Encostei a testa no vidro do carro, com os ombros tremendo sem controle.

Ergui a mão para tocar a estrela prateada repousando no meu pescoço, sussurrando um voto silencioso no coração:

Lex, você precisa esperar por mim.

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