Capítulo 4

A um oceano de distância, Lex tinha recebido um punhado de atualizações ao longo dos seis meses anteriores.

Na primeira semana, Victoria lhe encaminhou uma carta, alegando que era da Celia. A letra no papel era meticulosamente caprichada. “Lex, eu cheguei. Aqui está tudo bem, então não se preocupe.” Junto havia uma foto: uma garota em pé num gramado aparado, banhada por uma luz do sol intensa.

No segundo mês, veio outra: “Meus joelhos doem um pouco, mas estou bem. Estou esperando por você.”

Depois disso, as mensagens pararam completamente. Victoria tinha uma desculpa pronta. “A escola é rigidamente administrada. Celulares são proibidos no meio do período.”

Lex não sabia que eu nunca escrevi aquelas cartas; as que foram enviadas eram falsificações habilidosas que Victoria encomendara.

Ele perguntou várias vezes se podia visitá-la. Victoria o rechaçou todas as vezes. “É um campus fechado. Não são permitidas visitas no meio do semestre. Além disso, seu pai deixou claro que ela precisa refletir direito sobre o comportamento dela.”

Com o nome de Harold pesando sobre ele, Lex não conseguiu insistir mais.

Até aquela noite, no sexto mês.

Victoria enviou um pedido de videochamada. “Celia está com saudade de você.”

A tela se acendeu. Uma garota estava sentada a uma escrivaninha, com cabelo curto e uniforme escolar, acenando para a câmera. A qualidade do vídeo não era ruim, e o áudio estava claro.

“Lex, estou com tanta saudade. Eu estou muito feliz aqui.”

Lex encarou o rosto dela.

Ele tinha olhado para aquele rosto durante dezoito anos; conseguia desenhá-lo de olhos fechados. As linhas geométricas do rosto à sua frente eram fiéis, mas o espírito estava completamente errado. Quando Celia sorria, o canto esquerdo da boca se erguia um tiquinho mais que o direito; o dessa garota não. Quando Celia dizia o nome dele, a entonação caía naturalmente no final, como uma mistura de bico e suspiro; a dessa garota não. Mais importante: Celia tinha um brilho particular no olhar; os olhos dessa garota estavam totalmente vazios.

Havia mais um detalhe. Desde pequena, Celia tinha o hábito inconsciente de esfregar o lóbulo da orelha sempre que ficava nervosa. A garota na tela não tocou nas orelhas nem uma vez.

“Celia, você se lembra daquela caixa de ferro que a gente enterrou no quintal quando era criança?”

A garota parou por completo por um segundo, então abriu um sorriso rápido. “Claro que lembro. Tem os desenhos que eu fiz.”

Lex desligou.

Não havia desenhos naquela caixa de ferro. Ela continha um único pedaço de papel escrito por Celia—“Quando eu crescer, vou me casar com você.” Era um segredo que só os dois sabiam.

Ele se sentou no escritório mergulhado na escuridão, espalhando sobre a mesa todas as cartas e fotos que tinha recebido. O papel era fino, a letra obsessivamente caprichada, mas cada palavra parecia cuidadosamente copiada por cima. Celia tinha o hábito de puxar a barrinha dos “t”; essas cartas não tinham esse traço. O rosto nas fotos parecia o de uma pessoa completamente diferente.

Ele pegou o telefone e ligou para o assistente. “Investigue a Shude Academy. Endereço, dados de registro, proprietários. Quero informação de verdade, não aquela merda que enfiaram na nossa cabeça.”

Às duas da manhã, o assistente retornou a ligação.

“Lex, essa escola não tem site oficial, e as informações de registro são totalmente forjadas. O endereço fica enfiado numa ravina na fronteira entre a Suíça e a Alemanha—nem aparece nos mapas. Pedi para um contato local conferir. É um prédio cinzento adaptado de uma fábrica química abandonada. Portões de ferro, cercas altas e uma placa de latão na entrada com ‘Shude Academy’ gravado. Não tem como entrar.”

"E as transferências bancárias?"

"Tudo foi canalizado para uma conta offshore. O beneficiário final é uma empresa de fachada pertencente à família Astor."

O ar pareceu ser sugado por completo do cômodo.

Lex se levantou num impulso. A cadeira pesada tombou para trás com estrondo, mas ele nem tentou segurá-la.

"Reserve o voo mais cedo para Zurique. Agora."

Ele chegou à porta e olhou por cima do ombro para as cartas falsificadas, as fotos forjadas e a tela apagada que exibira a chamada de vídeo fabricada. Ele conversara com alguém que não existia. E a verdadeira Celia… ele não fazia a menor ideia de onde ela estava, do que tinha suportado, ou se estava morta ou viva.

Faróis rasgaram a escuridão. A mansão Wentworth encolheu depressa no retrovisor. Ele socou o acelerador. O avião decolou pouco antes do amanhecer. Do lado de fora da janela da cabine, estava um breu total. Ele fechou os olhos, e sua mente foi imediatamente inundada por lembranças de uma Celia mais jovem puxando a barra da camisa dele.


A milhares de quilômetros de distância. Academia Shude.

A última semana do sexto mês.

Naquela noite, Maggs me arrastou para fora do dormitório e me enfiou no depósito no fim do corredor. Não havia um motivo explícito para aquilo. Talvez ela só estivesse de mau humor.

A porta bateu com força. As luzes permaneceram apagadas.

Agachei num canto, tateando às cegas o colar de estrela ao redor do meu pescoço. Seis meses. Aquelas cartas não receberam uma única resposta. Ninguém veio.

Eu me convenci de que ele só estava ocupado. Eu me convenci de que ele tinha passado a me odiar.

Mais cedo naquela tarde, eu tinha visto um instrutor rindo de um jornal com outro guarda no corredor. Consegui pegar um relance rápido. Era Lex. Lex e Victoria. Uma única manchete atravessava a página: Aliança Wentworth-Astor será selada em casamento no próximo mês.

Ele ia se casar com Victoria.

Eu me agachei naquela escuridão sufocante, repetindo aquela manchete na cabeça três vezes. Então a ficha caiu: eu não tinha mais forças para esperar.

Eu me agarrei ao último desejo da mamãe — “sobreviver” — por seis meses agonizantes. Mas ele não me queria mais; ele nunca tinha planejado vir me buscar. Meus dedos entorpecidos roçaram um pedaço de vidro estilhaçado no chão frio. Devia ter caído da janela, e as bordas eram afiadas como lâmina.

Passos correram pelo corredor. Abafados pela porta pesada de madeira, os sons pareciam estar a quilômetros de distância.

Apertei aquele caco de vidro com força, encostando a ponta mais afiada diretamente no meu pulso.

Uma lembrança emergiu — eu era bem pequena, e Lex segurava minha mão enquanto atravessávamos uma rua movimentada. “Segura firme em mim”, ele tinha dito. “Não se perde.”

Agora, eu finalmente estava soltando.

O vidro cortou fundo a minha pele. O sangue jorrou, grosso e quente. Eu não conseguia ver a cor no breu. Não doeu. Comparado à tortura interminável dos últimos seis meses, não doeu nada.

Encostei as costas na parede fria enquanto minha visão ia se embaralhando aos poucos, meu corpo escorregando devagar para baixo. O baque dos passos no corredor se aproximava cada vez mais, e alguém gritava alguma coisa. Eu não conseguia distinguir as palavras.

A porta de ferro se escancarou com violência, e um par de sapatos de couro polido invadiu minha linha de visão já vacilante.

"É você?"

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