Capítulo 1
Ponto de vista de Demi
Meu marido é um anjo em provação na Terra. Toda vez que ele sente algo por mim, ele aguenta uma punição divina — como se o peito dele estivesse sendo rasgado por dentro.
Mas ele me disse que aceitaria aquela dor de bom grado, desde que fosse por mim.
Ele deixou uma marca na minha clavícula. Ative quando estiver em perigo, ele disse, e eu vou rasgar qualquer coisa para chegar até você.
Eu acreditei.
Aí veio uma missão em que fui agarrada por uma gangue de foragidos armados e mantida num galpão abandonado por três dias seguidos de tortura e abuso.
Sem água. Sem dormir. Os tendões das minhas mãos e dos meus pés cortados, um por um.
Meio morta, usei o resto da minha força para ativar a marca.
E eu o ouvi falando com seu companheiro anjo.
— Beckett, por que você deu a localização da Demi para aquelas pessoas? Você sabe o que eles vão fazer com ela.
Ele nem piscou.
— Ela vai ficar bem. Ela é a Escolhida — não pode morrer. Eles estavam atrás da Macie. Eu não tinha escolha. Quando essa missão acabar, eu posso pedir para ficar na Terra. Eu vou compensar a Demi. Ela entende.
Então esse é o preço de ser compreensiva. Morrer por dentro numa armadilha que ele armou para mim.
Meu coração simplesmente se estilhaça. E eu paro de lutar.
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— Capitã Hartwell. Não tá tão durona agora, né? Você derrubou um monte dos meus caras. Já pensou que ia acabar assim?
Os foragidos fazem um círculo à minha volta, rindo.
Eu estou pendurada de cabeça para baixo numa corrente pesada, os tendões das minhas mãos e dos meus pés já seccionados, sangue pingando das pontas dos meus dedos no chão de concreto.
Um homem com uma cicatriz funda atravessando o rosto segura um vergalhão aquecido ao rubro e o balança devagar diante do meu rosto.
Sem hesitar, ele enfia aquilo contra a minha coxa, chamuscando a pele.
A queimadura atravessa cada nervo de uma vez. Eu mordo o lábio e enfio o grito de volta goela abaixo.
— Garota durona. Nem vai gritar? — Ele puxa o vergalhão para trás e sacode a mão como se não fosse nada. — Beleza. Vamos de novo.
A barra desce no mesmo lugar.
Dessa vez eu não consigo segurar. Um som baixo, estrangulado, escapa de mim.
As risadas ficam mais altas.
Três dias.
Três dias sem água, três dias sem dormir. Eu já não consigo distinguir onde uma dor termina e a outra começa. Cada centímetro do meu corpo é uma dor surda e implacável, como um pano esfregado e pisoteado vezes demais.
Eu só aguento. Continuo aguentando. Continuo dizendo a mim mesma para resistir.
Mas minha concentração vai escorregando, e a dor vai me puxando para o fundo.
Então, meio consciente, a marca na minha clavícula esquenta. A voz do companheiro de Beckett atravessa.
— Beckett. Você consegue ver o que está acontecendo com ela. Três dias. Você vai mesmo continuar deixando isso acontecer?
A voz de Beckett vem em seguida, calma como se ele estivesse falando de algo que não tivesse nada a ver com ele.
— Eu não tenho escolha. Se não fosse ela, teria sido a Macie. Ela salvou a minha vida. Eu tenho que fazer isso.
— Você continua repetindo isso para si mesmo. — A voz do companheiro baixa, e não dá para esconder o cansaço nela. — Você diz que deve à Macie, mas você sabe a verdade. Você sabe quem realmente salvou você naquela época. Foi a Demi.
Um longo silêncio. Então Beckett fala:
— A Macie é apaixonada por mim há anos. Eu escolhi a Demi, e isso já está destruindo a Macie por dentro. Eu não posso fazer ela passar por isso também.
Eu fico ali, balançando, completamente vazia.
Três anos atrás, durante uma operação de perseguição federal, Beckett ficou preso sob uma estrutura que desabou. Eu tirei os escombros com as mãos nuas, desenterrei ele pedaço por pedaço e o carreguei quase três quilômetros nas costas. Eu desmaiei bem do lado de fora do perímetro de segurança, totalmente exaurida.
Quando eu acordei, ele me disse que a Macie tinha salvado ele.
Eu achei que ele estava confuso, que tinha entendido errado. Tentei explicar, continuei tocando no assunto. Ele só me olhou, calmo como sempre, e disse:
— Demi, não. A Macie é a pessoa mais corajosa que eu já conheci.
Eu achei que era um engano. Nem uma vez passou pela minha cabeça que ele estivesse fazendo aquilo de propósito.
Mas ele sabia. Sempre soube.
A Macie o amava havia anos, então a dor dela valia a minha vida para ele.
E eu?
O que eu sequer significava para ele?
Quase dá vontade de rir.
A dor está anestesiada agora. Meu coração também. Eu paro de lutar.
O homem da cicatriz percebe algo morto nos meus olhos e para, inclinando a cabeça.
— Ué, vai desistir de mim?
Ele sorri e enfia a bota com força no meu estômago.
Meu corpo inteiro balança na corrente.
Alguma coisa se rasga dentro de mim, lá no fundo, diferente de tudo o que veio antes. Eu olho para baixo. Um vermelho-escuro está se espalhando pela parte interna da minha coxa, pingando no chão.
O homem da cicatriz fica imóvel.
Ele encara o sangue no chão, depois levanta o olhar para o meu rosto.
— Espera... ela tá grávida?
