Capítulo 2

Ponto de vista de Demi

Sim. Eu estou grávida.

Descobri bem antes de a missão cair no nosso colo.

Eu ia esperar até tudo acabar e surpreender o Beckett. Eu tinha a cena inteira montada na minha cabeça — o jeito como ele me pegaria no colo e me faria girar, o jeito como encostaria a mão na minha barriga, com cuidado, delicado, como se estivesse segurando algo que podia quebrar.

A gente esperou por isso por muito tempo.

Eu costumava imaginar como nós três seríamos. Uma criança com os olhos dele, aquele mesmo olhar límpido e firme. Fins de semana no parque, ele segurando a minha mão, eu segurando a da criança, o sol lá fora e uma brisa leve.

Nada disso é real. Nunca foi. Era só algo em que eu me permiti acreditar.

A marca na minha clavícula esquenta. A voz do companheiro do Beckett vem pelo comunicador.

— Beckett, a Demi não vai aguentar muito mais. Ela…

— Não.

Beckett o corta, e há algo tenso por baixo, como se ele estivesse se forçando a não se importar.

— Eu não aguento mais ouvir isso. Está quase acabando. Vou ligar para a base agora e preparar uma equipe pra tirar ela daí.

— Eu vou compensar ela. Vou.

Os fugitivos se aproximam de mim, sorrindo, com novas ferramentas nas mãos.

Não tenho mais nada com que lutar. Eu só fecho os olhos e deixo acontecer.

A dor está além do que qualquer palavra dá conta.

Eu sinto algo saindo de mim, escapando pedaço por pedaço — uma vida que nem chegou a ter a chance de tomar forma.

Fica frio. Só sangue. E o que quer que eu ainda tivesse pelo Beckett vai junto.

Dor.

Daquelas que não ficam no seu corpo. Entram em tudo. Moem você até não sobrar nada.

São pessoas que já viram de tudo. E até elas não conseguem continuar olhando.

O tempo deixa de significar qualquer coisa.

Então a voz do Beckett corta tudo, urgente, insistindo, atravessando o ruído.

— Demi? Demi, você consegue me ouvir? Eu estou tentando falar com você. Aguenta só mais um pouco. A gente está juntando uma equipe agora. Estamos indo. Não desiste de mim.

— Assim que a gente terminar isso e prender esses caras, eu posso ficar na Terra. Pra sempre. Eu vou até você. Me espera.

Eu escuto. Um sorriso lento e amargo puxa o canto da minha boca.

Se eu não tivesse ouvido o que ouvi antes, talvez eu até tivesse acreditado. Parece tudo tão real. Cada palavra moldada como se tivesse sido feita só pra mim.

Mas agora eu ouço pelo que é. Toda aquela conversa de compensar, de ficar comigo pra sempre — isso é o que você diz pra manter alguém útil e na linha. Eu sou a Escolhida dele. Não posso morrer. Então eu posso ser usada, posso ser esgotada, e ele lida comigo depois, quando o trabalho estiver feito.

Ele achou que eu ainda estaria aqui, esperando.

Os fugitivos me soltam da corrente e me jogam no canto como lixo.

Eu me encolho no chão de concreto gelado, entrando e saindo da consciência, perdendo a noção do tempo.

Então o barulho explode de uma vez do lado de fora. A porta é arrombada com um chute. Tiros. Gritos.

— Ninguém se mexe! Agentes federais!

A equipe da SWAT invade, e os fugitivos que tentam reagir são derrubados rápido.

Beckett é o primeiro a entrar.

Ele varre o galpão com os olhos, me encontra no canto e cruza a distância em poucas passadas. Cai de joelho e me tira do chão.

Os braços dele estão tão quentes quanto eu lembrava. Aquele mesmo cheiro em que eu costumava me sentir segura. Agora, me revira o estômago.

— Demi, me desculpa. Eu devia ter chegado antes. — Ele me aperta contra o peito, a voz instável, e levanta a mão para limpar o sangue do meu rosto. — Acabou. A gente pegou eles. Vamos pra casa.

Eu olho pra ele.

— Você me disse que a marca significava que você sempre saberia quando eu estivesse em perigo. Que viria atrás de mim acontecesse o que acontecesse.

A expressão de Beckett endurece. Ele abaixa o olhar, a voz ficando áspera.

— Eu sei. Me desculpa. Eu entrei em pânico. Eu não estava pensando direito e… esqueci da marca.

Ele sabe o quão horrível isso soa. Nem consegue terminar o pensamento, e não encara os meus olhos.

Ele pega algumas roupas de um dos membros da equipe, enrola em mim com cuidado e me carrega para fora.

Os agentes que me veem ficam em silêncio. São pessoas que viram o pior a carreira inteira. Um por um, desviam o olhar.

Eu sou levada direto para a cirurgia.

Infecção. Perda de sangue. O estrago extenso demais para resolver rápido. A cirurgia se arrasta, uma complicação atrás da outra. A anestesia mal funciona, mas eu também não tenho energia pra emitir um som. Eu só fico ali e deixo a dor vir em ondas.

A última coisa que eu ouço antes de apagar é uma voz baixa na sala.

— Perdemos os batimentos. E o útero… não dá pra salvar. Ela não vai poder ter filhos.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo