Capítulo 3

Ponto de vista de Demi

Quando abro os olhos de novo, a cirurgia já acabou.

Estou deitada numa cama de hospital, me sentindo oca, como se não tivesse sobrado nada dentro de mim. Eu não consigo nem levantar o braço.

—Demi. Você acordou.

Beckett está sentado ao lado da minha cama, com os olhos vermelhos. Ele segura minha mão enfaixada entre as duas mãos dele, a voz áspera e trêmula.

—Desculpa. A culpa é minha. A missão terminou. Os últimos resistentes estão sendo caçados agora. Acabou.

Ele ergue o olhar, e há algo cauteloso e esperançoso nos olhos dele.

—Depois de tudo isso, eu finalmente posso ficar. Pra sempre. A gente pode simplesmente deixar isso tudo pra trás e ter uma vida normal? Só nós dois?

Antes, eu provavelmente teria apertado a mão dele e dito sim sem pensar duas vezes.

Agora eu só olho para ele. Não tenho nada a dizer.

Ele percebe que eu não respondo, algo mudando na expressão. Está prestes a falar quando passos apressados ecoam no corredor. Macie aparece na porta, com um ar de urgência.

—Beckett, o subcomandante precisa de você. Ele disse que não pode esperar.

Beckett franze a testa e olha de volta para mim, hesitando.

—Já volto. Descanse um pouco.

Eu não respondo.

Ele toma isso como um sim, se levanta e segue Macie para fora.

O quarto fica em silêncio.

Menos de dois minutos depois, passos de novo.

Macie entra sozinha.

A expressão preocupada que ela tinha sumiu completamente. O que aparece por baixo é outra coisa. Relaxada, quase satisfeita, como se estivesse exatamente onde quer estar. Ela vem até o lado da cama e olha para mim do jeito que se olha para algo quebrado e que não vale a pena guardar.

—Dias difíceis, capitã Hartwell?

—O que você quer. —Minha voz sai sem emoção.

Macie dá de ombros.

—Nada. Só dando uma olhada. Dizem que você ficou com aqueles caras três dias seguidos. Mãos, pés, tudo. Não serve pra muita coisa agora, serve? —Ela inclina a cabeça. —Fico pensando se o Beckett ainda vai querer ficar com alguém assim.

Eu olho para ela e solto um sorriso lento, sem humor.

—Deus, isso é patético. Mesmo assim, ele não vai escolher você.

O rosto de Macie se contrai. Então ela ri, curto e frio.

—Ah, é? Você sabia que o Beckett vai colocar o meu nome na condecoração? Por derrubar a gangue. O departamento vai fazer o anúncio amanhã.

Ela se inclina para perto, cada palavra calculada.

—E você vai ficar aqui deitada. Inútil.

A raiva me invade, do tipo que eu não consigo engolir.

Eu liderei aquela missão. A Macie nem deveria estar lá — ela é do pessoal de apoio, não de campo. Ela apareceu mesmo assim e, no segundo em que a coisa ficou séria, sumiu.

Três pessoas da minha equipe morreram naquela operação.

Aquela condecoração é deles. De cada um que sangrou por isso.

E o Beckett simplesmente entregou. Para ela.

—Para de me olhar assim. —Macie enfia a mão no bolso e puxa um pequeno frasco de vidro, com um líquido transparente dentro. —O Beckett vive dizendo que você é a Escolhida. Que você não pode morrer. —A expressão dela se distorce. —Eu não compro essa história. Por que você merece ficar com esse lugar?

Ela agarra meu queixo e força minha boca a abrir, inclinando o frasco até o líquido escorrer pela minha garganta.

Ele desce gelado. Aí começa a queimação, se espalhando por mim de dentro para fora.

—Essa coisinha? Desliga todos os jeitos que o seu corpo tem de tentar se curar. —O sorriso de Macie não chega aos olhos. —Escolhida? Claro. Não pode morrer? Então aproveita cada segundo disso.

Ela sacode as mãos como quem se livra de sujeira e se vira para sair.

Então o prédio inteiro treme.

A janela estilhaça. Fumaça e fogo invadem pelo corredor, placas do teto despencando. Macie grita e se joga no chão.

Uma voz grita do lado de fora, no corredor:

—Beckett! Os membros restantes da gangue detonaram explosivos no porão! A Demi e a Macie ainda estão aí em cima!

O fogo sobe pelas paredes. O teto range e racha sobre nossas cabeças.

O veneno está me rasgando por dentro, e cada respiração parece que alguém está espremendo a vida de dentro de mim. Eu não consigo me mover. Só fico ali, deitada, vendo as chamas se aproximarem.

A porta é arrombada com um chute. É Beckett.

Ele dá uma única olhada para a fumaça e o fogo enchendo o quarto e empalidece.

—Beckett, por favor! —Macie levanta a cabeça do chão, o rosto molhado de lágrimas, o braço estendido na direção dele.

Eu também olho para ele. Meus lábios se mexem. Nada sai.

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