Capítulo 4

Ponto de vista de Demi

Beckett está no meio de tudo, o fogo refletido nos olhos dele enquanto o olhar alterna entre mim e Macie.

A fumaça enche o quarto. O teto continua rachando, uma vez atrás da outra. Macie está no chão, soluçando, estendendo os dois braços para ele.

Ele caminha na minha direção.

Ele se agacha e segura meu rosto com a mão, a voz baixa, como se já soubesse que eu vou aceitar.

—Demi, você é a Escolhida. Você vai ficar bem. Só confia em mim nisso. Vou tirar a Macie e volto direto para buscar você.

Eu olho para ele. Não digo nada.

Ele se endireita, pega Macie nos braços e atravessa o fogo.

Estou sozinha.

O veneno não parou. Cada respiração parece que alguém está torcendo minhas entranhas. Eu fico ali, deitada na cama em chamas, olhando o fogo acima de mim e sentindo, estranhamente, uma paz.

Então é isso.

Aí a porta se escancara.

Um dos evacuadores entra correndo, me vê ainda na cama e empalidece. Ele não diminui. Força passagem pela fumaça e chega até mim.

—Capitã! Capitã, fica comigo!

Ele me puxa da cama e sai correndo. Parte do teto desaba e o acerta nas costas. Ele cambaleia, mas não para, se colocando entre mim e tudo o que desaba ao nosso redor.

A gente consegue sair.

O ar lá fora bate no meu rosto.

Os outros se aglomeram, e no segundo em que me veem, todos ficam em silêncio. Não há palavras. Só rostos.

—A gente tem que levar ela agora. Ela não está bem. Ela precisa de um hospital.

Mas só tem um veículo sobrando no estacionamento.

Do outro lado, Beckett está carregando Macie em direção a ele. Um dos meus homens dispara até lá.

—Beckett! A capitã está morrendo. Ela precisa desse carro. Entrega pra ela, agora.

Beckett para e olha de volta para mim, os olhos se estreitando.

—Ela estava estável depois da cirurgia. Vai ficar bem.

—Ela não está estável agora! —a voz do homem falha. —A capitã Hartwell está morrendo!

—Isso não é possível. —A voz de Beckett não vacila nem um pouco. Ele olha para o rosto pálido de Macie e então a coloca no carro.

Depois ele vem até mim.

Ele se agacha ao meu lado e toca meu rosto com cuidado, a voz baixa e firme.

—Demi, espera por mim. Vou garantir que a Macie seja atendida e volto logo. A gente vai cuidar de você, e eu vou ficar. Não vou sair do seu lado.

Ele encosta os lábios na minha testa.

Então volta para o carro e grita para os outros por cima do ombro:

—Deem um jeito. Eu volto assim que ela estiver instalada.

Eu fecho os olhos enquanto ele vai embora dirigindo.

Ele não faz ideia. Aquela mulher que ele acabou de carregar para fora já despejou um frasco de veneno corrosivo pela minha garganta. Cada órgão do meu corpo está queimando de dentro para fora.

O carro se afasta e desaparece na escuridão.

Ninguém da minha equipe diz uma palavra. Alguns baixam a cabeça. Outros viram o rosto.

—Capitã. —Um deles se vira de novo, os olhos vermelhos. —Eu te carrego. A gente pode ir a pé, não me importa o quanto seja longe—

—Não. —Eu abro os olhos devagar e encaro os rostos deles, um por um.

Eu meto a mão no bolso. Exige tudo o que me resta. Eu puxo o celular e estendo para quem está mais perto.

—Tem uma gravação aí. —Minha voz é quase nada. —Guarda isso. Não decepciona os que a gente perdeu. Faz valer.

Ele pega com as mãos tremendo e segura firme.

Eu fecho os olhos de novo.

—Mais uma coisa. —A dor dentro de mim agora está em todo lugar, mas eu consigo esboçar um sorriso pequeno. —Quando eu me for, não deixem o Beckett resolver nada. Eu não quero ver ele de novo.

Depois disso, eu não digo mais nada.

A vida vai embora devagar, como a maré recuando. Silenciosa. Constante. Sem pressa.

No finzinho, eu penso no bebê que nunca teve a chance de existir. Eu penso em todas as coisas que eu acreditava que iam ser reais.

E então não há mais nada.

Minha equipe fica ao meu redor, um por um tirando os capacetes. E então o choro começa, baixo e partido, subindo de todas as direções ao mesmo tempo.


Num hospital ali perto.

Macie está apoiada na cama, pálida, os olhos vermelhos, observando Beckett na cadeira ao lado dela. A voz sai pequena.

—Beckett... você acha que a Demi me culpa? A culpa é minha por ela...

—Não. —Beckett segura a mão dela, a voz reta e pesada. —A Demi não é assim. Ela não culparia você.

Macie baixa o olhar, os cílios tremendo como se estivesse segurando alguma coisa.

Beckett observa, prestes a dizer mais, quando algo atravessa a mente dele. E então uma voz vem em seguida. Familiar. Absoluta.

A voz do Divino.

—A Escolhida, Demi Hartwell, caiu. O manto passa agora para Macie Callahan.

Beckett fica completamente imóvel.

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