Capítulo 1

Sou casada há sete anos, mas nunca falei na frente do meu marido.

Ele ouve a voz de todo mundo normalmente, mas, sempre que ouve a minha, sente uma dor de cabeça lancinante.

O médico disse que era um distúrbio raro de hipersensibilidade auditiva, sem cura.

Para mudar minha voz, tentei de tudo, até cirurgia nas cordas vocais.

Mas, por mais que eu tentasse, ele ainda levava as mãos aos ouvidos, de dor, quando eu falava.

Eu desabei chorando muitas vezes, sentindo que estava decepcionando ele.

Até naquela vez em que fui atropelada e caí no chão com uma dor insuportável, eu mordi o lábio com força e permaneci em silêncio.

Hoje é o aniversário do Walter Bell. Ao ouvir meu filho Walter e meu marido Andrew Bell abrindo a porta, eu me escondi na cozinha com um bolo nas mãos, pronta para surpreendê-los.

Assim que eles entraram, Walter arrancou o aparelho auditivo da orelha do Andrew e atirou com força no chão.

— Pai, eu posso fingir que tenho sensibilidade a som igual a você? — a voz do meu filho soou alta e clara. — Assim eu posso falar com a Nancy e não preciso ouvir aquela pessoa chata.

O bolo nas minhas mãos quase caiu no chão.

Andrew tentou acalmá-lo com carinho:

— E se a sua mãe descobrir? Aguenta só mais alguns anos. Quando você estiver no ensino médio, aí você diz que, de repente, também desenvolveu sensibilidade a som.

— Ah, para. Ela é tão burra que nunca vai perceber que eu tô fingindo. — Meu filho riu, sem nenhum pudor.

Andrew hesitou:

— Bom... tá. Mas toma cuidado com o jeito que você faz isso.

Meu coração pareceu ser apertado com força.

Todos esses anos, eu levava meu filho para fazer exame de audição todo ano, morrendo de medo de ele ter herdado a “condição” do Andrew.

O médico sempre dizia que a audição dele era normal, e eu, em segredo, sentia um alívio enorme.

No fim, a idiota era eu.

Depois que eles foram para o quarto, eu peguei aquele “aparelho auditivo” e coloquei na minha própria orelha.

Uma música pop animada veio, cristalina e estridente, como se estivesse tocando dentro da minha cabeça.

Eu fiquei completamente destruída.

Naquela noite, nós jantamos num restaurante que tínhamos reservado para comemorar.

De repente, Walter fingiu que estava com dor:

— Mãe, meus ouvidos tão meio doendo. Você pode me levar pro hospital?

Sabendo a verdade, eu não queria mais sustentar aquela encenação de comunicação por gestos.

Pela primeira vez, eu falei na frente do Andrew:

— Eu sei.

Ao ouvir a voz rouca saindo da minha boca, até eu achei incrivelmente estranha.

Walter franziu a testa, como se achasse minha reação calma demais, e ficou visivelmente irritado.

Se eu não soubesse a verdade, eu com certeza estaria chorando agora e correndo com meu filho para o hospital.

Mas, naquele momento, eu só sentia nojo.

— Mãe, como é que você tá falando?! — meu filho levantou a voz. — O pai vai ficar com dor de cabeça de novo. Dá pra você ficar quieta? Sua voz é irritante pra caramba!

Ele parou e, emburrado, completou:

— E agora você nem liga mais pra mim. Antes você fingia que se importava com a minha audição e com a minha saúde, mas era tudo teatro! Do jeito que você tá agindo... nem me dá vontade de comer!

Eu olhei para o meu filho, mas tive a sensação de que só hoje eu estava vendo ele de verdade, com clareza.

— Minha voz é irritante por causa do seu pai, não é? E, depois que a gente terminar de comemorar o seu aniversário, seu pai te leva ao hospital. Eu não tenho tempo.

Como o Andrew era tão sensível à minha voz, eu nunca tive coragem de me impor. Eu me calei e me segurei todos os dias.

Ver o Andrew sofrer de dor sempre que ouvia a minha voz partia meu coração. Eu me sentia tão culpada que, às vezes, eu cheguei a cogitar remover minhas cordas vocais...

Na faculdade, eu fazia parte do coral da faculdade, mas agora eu só consigo produzir sons feios.

Andrew levantou os olhos de repente, pressionando as mãos contra os ouvidos como se estivesse com dor. Ele esfregou a testa e disse, com dificuldade:

— Amor, me desculpa, mas ouvir a sua voz tá me fazendo passar mal de novo. A culpa é minha. Se não fosse por mim, você não seria tão infeliz. Mas o nosso filho pode ter herdado isso de mim. Se um dia ele reagir à sua voz do jeito que eu reajo, por favor, não fica com raiva dele.

Walter pareceu se comover e até abraçou o braço do pai, dizendo:

— Pai, obrigado por me defender.

Assistindo aos dois encenarem daquele jeito, de repente eu achei tudo ridículo.

— Eu não vou ficar com raiva — eu disse, calma. — Mas, depois de sete anos de casamento, você ainda não suporta a minha voz. Talvez a gente nunca tenha sido feito um pro outro.

— Então vamos nos divorciar.

Andrew ficou paralisado, mas meu filho Walter se animou de repente e começou a pular, dizendo:

— Pai, vamos contar a boa notícia pra Nancy agora! Ela vai ficar feliz também!

Nesse momento, minha meia-irmã Nancy se aproximou, carregando um presente.

Walter não se conteve e correu para abraçá-la.

— Mamãe!

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