Capítulo 2

No instante em que Walter correu na direção da Nancy, eu vi com nitidez a expressão no rosto dela.

Nada de surpresa, nada de constrangimento — só um sorriso de ternura natural.

Ela se agachou e segurou Walter com facilidade, como se já tivesse ouvido aquele “título” sair da boca dele incontáveis vezes.

— Meu amor, você sentiu minha falta? — Nancy perguntou, baixinho.

Eu fiquei ali, com os dedos se fechando aos poucos.

A mulher que me chamava de “irmã” agora aceitava, sem o menor peso na consciência, o meu filho chamando-a de “mamãe”.

— Mãe, já que você vai se divorciar do meu pai mesmo, por que não deixa a Nancy ser minha mãe? — Walter disse, animado, puxando a mão da Nancy. — A Nancy é tão legal comigo! Da última vez ela me levou pra Disney, eu fui em todos os brinquedos que eu quis e ela me comprou um monte de brinquedos! E ainda me levou naquele lugar que eu ficava pedindo pra ir — o frango frito e a batata frita de lá eram incríveis!

Enquanto falava, ele virou de propósito para me encarar, com os olhos cheios de deboche escancarado.

— Diferente de algumas pessoas — Walter fez bico. — Só ficam me obrigando a comer verdura e não deixam eu comer batata frita. Ficam falando que besteira faz mal — chato demais. Todo dia é dever, dever, dever, e eu só posso brincar quando termino. Nada legal! E a voz da Nancy é bem mais bonita que a sua. O papai deve ter alergia à sua voz de tão ruim que ela é!

Eu vi meu filho encenar aquela carinha de coitado de propósito, sabendo muito bem que aquela criança de seis anos estava usando palavras cruéis de maneira intencional pra me ferir.

Ele queria me ver arrependida, queria me ver desabar chorando e implorando.

— Isso mesmo, mana — Nancy suspirou, olhando pra mim com reprovação nos olhos. — Criança só quer brincar, é da natureza delas. Você é rígida demais com ele. O Walter ainda é tão pequeno. Que criança não gosta de um lanchinho?

O tom dela era suave e carinhoso, mas cada palavra soava como uma acusação de que eu não era uma boa mãe.

Nancy fez um carinho na cabeça do Walter e disse, sorrindo:

— Além do mais, se você continuar sendo assim tão dura, quando você ficar velha o Walter pode não cuidar de você, viu?

As palavras saíram leves, como se não tivessem peso — mas entraram fundo.

Então toda a minha preocupação com a saúde do meu filho, toda a minha ajuda com os estudos… eram apenas motivos pra ele me odiar.

Sim, minha voz não era tão agradável quanto a da Nancy.

Mas se não fossem todos esses anos de silêncio…

Eu quase tinha me tornado cantora!

Andrew ficou de lado, sorrindo enquanto assistia ao filho e à Nancy me acusarem.

Olhando aquela cena harmônica de uma família de três, eu, de repente, ri.

— Tá bom — eu assenti, com uma calma assustadora na voz. — Então você cuida dele.

O sorriso da Nancy congelou.

Eu continuei:

— Nancy, você já pode começar a aprender a ser mãe. Afinal, se você vai cuidar do Walter no futuro, é bom se preparar. Senão, como é que você vai saber o que fazer?

O ar pareceu congelar.

Os olhos do Walter se arregalaram — ele não esperava que eu dissesse aquilo.

O rosto da Nancy empalideceu e, em seguida, ficou vermelho. Os lábios dela se mexeram, mas nenhum som saiu.

Andrew ergueu a cabeça de repente, os olhos presos em mim, com uma expressão complicada.

— Vamos cortar o bolo — Andrew disse de repente, com a voz baixa. — Nosso filho tem que fazer um pedido!

O tom dele foi casual, como se o conflito de instantes atrás nunca tivesse existido.

Ele sempre tinha sido assim — tudo o que ele não queria ouvir, ele simplesmente ignorava.

Quando eu pedia pra ele pegar uma sobremesa pra mim, ele esquecia.

Quando eu pedia pra ele entregar uns documentos pra mim, ele dizia que não viu a mensagem.

Mas quando o assunto era a Nancy…

Se a Nancy sequer comentasse que estava com vontade de comer um bolo de mil folhas de manga, ele dirigia uma hora atravessando a cidade até aquela confeitaria da moda na zona oeste só pra buscar.

Dois anos atrás, ele lembrou que a Nancy gostava de rosas cor champanhe e encomendou 99 delas com três dias de antecedência.

Mas o meu aniversário? Ele nunca lembrava.

À mesa, os três riram e conversaram enquanto começaram a cortar o bolo.

Meu filho fez, em voz alta, um desejo para a Nancy ter saúde e para a carreira do pai prosperar.

Walter deu bolo na boca da Nancy, e os olhos dela se curvaram em meias-luas enquanto sorria.

Andrew observou os dois, com um olhar absurdamente terno.

— Andrew, eu quero um pouco de água — Nancy disse de repente.

Andrew imediatamente virou para mim.

— Vai pegar água.

O tom foi como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, como se eu fosse uma empregada naquela casa.

Eu não me mexi; fiquei apenas ali, olhando aquela cena absurda.

Três pessoas se divertindo, e eu era a sobrando.

De repente, eu senti que tudo aquilo era tão inútil.

Essa farsa precisava acabar.

— Andrew — eu falei, com a voz clara. — Você não disse que ouvir a minha voz te deixava desconfortável e enjoado?

— Como é que agora você só está fingindo que não escuta? — eu sorri de leve. — Pelo jeito você não é só alérgico à minha voz… agora também desenvolveu uma surdez seletiva.

— Então deixa eu dizer mais uma vez — eu disse, palavra por palavra, encarando os olhos dele. — Eu quero o divórcio.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo