Capítulo 3
“Joy, na verdade, ouvir a sua voz já não me dá dor de cabeça.”
“Isso quer dizer que a minha condição está melhorando. Não é isso que a gente vem esperando esse tempo todo?”
Andrew deu alguns passos na minha direção, com o olhar de repente afiado:
“Por que você fica falando de divórcio hoje? Aconteceu alguma coisa? Ou...”
Ele parou, e a voz subiu de tom de repente:
“Você se apaixonou por outra pessoa?”
A acusação veio do nada.
Deu ainda mais vontade de rir.
Antes que eu conseguisse reagir, Nancy se levantou de repente e disse, aflita:
“A culpa é toda minha. A Joy deve estar chateada porque eu vim hoje.”
A voz dela já vinha embargada:
“Joy, por favor, não fica brava comigo. Me desculpa.”
Nancy se levantou, apressando o passo, e veio direto na minha direção.
No segundo seguinte, o corpo dela se inclinou para trás de repente.
“Ai! Joy, não!” Nancy gritou.
Ela caiu no chão, com os olhos ficando vermelhos na mesma hora:
“Irmã, eu prometo que não faço mais isso. Por favor, não fica com raiva, tá?”
Eu fiquei parada, congelada.
Eu nem encostei nela.
“Mamãe!” Walter gritou e veio correndo, me empurrando com força.
Eu não consegui desviar a tempo, e meu corpo bateu na quina da mesa.
Uma dor aguda me atravessou, mas eu cerrei os dentes e não soltei um som.
Walter e Andrew cercaram Nancy na mesma hora — um segurando o braço dela, o outro verificando se ela tinha se machucado.
O garçom também correu até nós para perguntar se estava tudo bem.
“Você tá bem? Se machucou em algum lugar?” Andrew perguntou, nervoso.
“Pai, foi ela! Ela maltratou a Nancy!” Walter apontou para mim, com os olhos cheios de raiva.
Nancy segurou a manga de Andrew e disse baixinho:
“Não coloca a culpa na Joy. Eu acabei deixando ela com raiva sem querer. Se eu não tivesse vindo hoje, ela não estaria tão chateada.”
Enquanto falava, as lágrimas escorriam pelo rosto.
Andrew ajudou Nancy a se levantar e então virou para mim com um olhar gelado:
“Já que você tem um problema tão grande com a Nancy e está tão insatisfeita com o seu filho, então vá embora. Seu filho não precisa mais de você pra comemorar o aniversário dele.”
Ele fez uma pausa, o tom ainda mais frio:
“Mas esquece esse papo de divórcio. Você vai pra casa e pensa no que você fez!”
“Pai, vamos pro parque de diversões!” Walter puxou a mão de Andrew. “Eu não quero ficar com ela.”
Os três foram embora de mãos dadas.
Walter de repente olhou para cima e perguntou:
“Pai, por que você não casou com a Nancy?”
Andrew parou e olhou para Nancy, com os olhos cheios de ternura:
“Porque eu não fui corajoso o bastante naquela época. Minha audição ainda não tinha se recuperado totalmente, e eu não tive coragem de ir atrás da Nancy.”
A voz dele estava baixa, mas chegou nítida aos meus ouvidos.
Eu olhei para a comida na mesa com um gosto amargo de ironia.
Peguei o celular e liguei para um advogado.
“Alô, eu queria tirar umas dúvidas sobre divórcio.”
Depois de desligar, voltei para casa para arrumar minhas coisas.
Quando encontrei fotos antigas, vi como o Walter era quando criança.
Naquela época, ele sorria e corria para os meus braços, me chamava de “mamãe”, me trazia água quando eu ficava doente, beijava minha bochecha e prometia que ia me amar para sempre.
Eu não sei em que momento tudo mudou.
Meu celular vibrou. Era uma postagem da Nancy.
Na foto, Andrew, Nancy e Walter estavam sentados numa roda-gigante, sorrindo com brilho no rosto.
A legenda dizia: “Dizem que quem anda junto na roda-gigante fica junto pra sempre.”
O primeiro comentário era da mãe do Andrew:
“Que lindo — você e o Andrew combinam perfeitamente.”
Os parentes no grupo da família estavam comentando sem parar.
“Joy, o que deu em você?”
“Você precisa ter um segundo filho, aí seu marido não vai se desviar tão fácil.”
Eu encarei a tela e digitei uma frase:
“A Nancy vai ter.”
Enviar.
Não demorou muito, e Andrew chegou em casa com o nosso filho, furioso.
—Você ficou maluco?! —a voz dele estava carregada de raiva. —Por que você falou aquelas coisas? Você sabia que a Nancy estava no grupo… ela vai ficar muito abalada quando vir. Ela já não está bem emocionalmente!
—E por que eu não posso falar? —perguntei, calma. —Eu só estava dizendo fatos.
Eu completei, com sarcasmo:
—Se você tem coragem de fazer essas coisas, por que não consegue aceitar que as pessoas comentem?
Pá!
O estalo de um tapa ecoou pela sala.
Eu ainda estava tentando entender o que tinha acontecido, com a mão no rosto, quando um objeto duro acertou minha testa.
Uma dor aguda veio, e um líquido quente escorreu pela minha testa.
Era sangue.
—Você fez bullying com a Nancy! Eu te odeio pra sempre! —Walter se virou e saiu correndo escada abaixo.
Andrew olhou para o ferimento na minha testa; um lampejo de pânico passou pelos olhos dele, junto com um medo e um desconforto que até ele percebeu.
Mas logo ele voltou a se acalmar.
Afinal, fui eu que fui atrás dele, e fui eu que prometi ficar com ele para sempre.
Naquela época, ele tinha deficiência auditiva e não conseguia trabalhar em muita coisa. Eu era a única que não ligava para aquilo —eu estava disposta a ficar do lado dele e ajudá-lo durante o tratamento.
A voz dele amoleceu um pouco:
—Do jeito que você trata a Nancy, não é de se admirar que o nosso filho não goste de você. —Ele fez uma pausa. —A Nancy sempre foi frágil e doentinha desde criança. Ela é sua irmã… você não consegue ter um pouco mais de compreensão?
Eu não disse nada; só limpei o sangue da testa com um lenço de papel.
Andrew tentou se aproximar, mas eu dei um passo para trás:
—Não precisa.
A mão dele ficou parada no ar, e a expressão dele se tornou indecifrável.
—Minha condição está melhorando agora, não está? Eu não vou mais ser sensível à sua voz. Daqui pra frente, nós três podemos viver bem juntos, e eu também vou manter distância da Nancy.
Eu olhei para ele e, de repente, sorri.
Principalmente ao lembrar do chupão no pescoço do Andrew na foto que a Nancy postou.
Se fosse antes de eu saber a verdade, talvez, ouvindo isso, eu realmente o teria perdoado.
Mas agora, é impossível.
Eu não consigo aceitar anos de enganação.
E não consigo entender por que, mesmo agora, ele ainda não admite que mentiu para mim.
Antes de o advogado me mandar o acordo, eu não me mudei imediatamente. Eu não queria correr o risco de depois atrasar tudo só porque não estávamos morando juntos.
Na manhã seguinte, Andrew vestiu um terno recém-comprado e ainda borrifou perfume.
Ele sempre odiou quando eu usava perfume e também não gostava que eu comprasse colônia para ele. Dessa vez, parecia que ele tinha algo muito importante para fazer.
Ele ajeitou a gravata diante do espelho, com um ar bem-humorado.
Eu sabia o motivo: ele ia ao show da Nancy.
Ele olhou para mim e disse:
—Não esquece de fazer o café da manhã pro nosso filho.
Eu estava sentada no sofá, jogando no celular, sem levantar os olhos.
—Você me ouviu? —Andrew elevou a voz. —O Walter precisa tomar café!
—Não tô a fim —eu respondi, seca.
Andrew pareceu atônito, como se não esperasse que eu recusasse.
Walter saiu correndo do quarto, furioso:
—Eca! Mamãe ruim! Eu te odeio!
Eu continuei encarando a tela do celular, sem sequer piscar.
Andrew puxou Walter para fora e, antes de ir embora, me avisou:
—É melhor ter jantar pronto quando a gente voltar hoje à noite, ou eu e meu filho não vamos mais falar com você.
Ele achou que essa ameaça ia me fazer desistir de resistir.
Mas eu só lancei um olhar indiferente para a luz do sol do lado de fora da sacada.
Quando a porta se fechou, a casa finalmente ficou em silêncio.
Meia hora depois, o telefone tocou de repente.
—Sra. Bell? Aqui é do banco —a voz do outro lado foi educada. —Seu marido acabou de vir retirar um conjunto de joias que a senhora mantinha guardado aqui. Conforme a nossa política, preciso notificá-la.
Minha mão, segurando o telefone, se apertou devagar.
Aquelas joias eram a lembrança que minha mãe tinha deixado para mim.
Ele estava tirando… para quem?
