Capítulo 2 Sua amante

Capítulo dois

Depois de descobrir que eu não era a única nos pensamentos de James, viver como se nada tivesse acontecido ficou difícil.

Uma semana se passou. Toda vez que ele chegava em casa exausto, as vezes em que o celular dele tocava e ele se desculpava, e cada vez que ele se afastava de mim, eu me lembrava de todas as mentiras que ele tinha me contado.

Enquanto ele estava fora, mandei grampear a casa inteira, mas isso não foi suficiente para mim. Eu não sabia quando ele ia fazer uma ligação.

Tentei pegar o telefone dele para descobrir quem era a outra mulher. Eu não acreditava nem a pau quando ele disse que estava fazendo sexo por chamada com uma IA. Eu sabia que era possível, mas não acreditava nele.

Numa noite, ele deixou o celular no sofá enquanto assistíamos a um filme. Assim que ele saiu da sala, aproveitei a oportunidade. Digitei a senha que ele tinha me contado uma vez, só para perceber que tinha sido alterada.

Eu não desisti.

A primeira senha foi a minha data de nascimento, e não funcionou. Tentei a data de nascimento dele, que também não funcionou.

Então tive uma ideia. Melissa.

Eles eram muito próximos desde que nasceram.

Tentei a data de nascimento dela e, como eu suspeitava, o telefone desbloqueou. Fui direto nas mensagens, mas, surpreendentemente, não havia nada. A maioria era mensagem de trabalho. Eu ia entrar nas redes sociais dele, mas ouvi os passos.

Coloquei os fones e fingi estar absorta no filme.

James pegou o celular num bote, me lançando um olhar antes de voltar para o andar de cima, resmungando algo sobre precisar ligar para Melissa por causa do trabalho.

Eu não fiquei satisfeita com o que vi.

Talvez ele tenha percebido que eu estava começando a desconfiar, então apagou as mensagens. Aumentei o volume da TV e, depois de um tempo, fui atrás dele para o andar de cima.

Vi ele se esgueirando para um dos quartos vazios, então fui na ponta dos pés atrás dele. Me escondi bem na hora em que ele se virou para fechar a porta atrás de si. Para minha surpresa, ele não só fechou como trancou.

Mas eu já tinha um plano. Fui direto ao meu quarto e peguei o dispositivo de escuta.

— Oi, bebê — ouvi ele chamar, feliz.

Ignorei a dor no peito. Quando foi a última vez que ele me chamou assim?

— Olha, não posso falar por muito tempo; ela está começando a desconfiar — ele disse.

Eu sabia que a “ela” era eu. Houve uma pausa antes de ele continuar.

— Eu sei, eu também estou com saudade — ele suspirou. — Eu te quero tanto agora; faz dois dias que eu não encosto em você por causa dela.

“Ah, então agora eu nem tenho nome.”

Ele disse “dela” com tanto nojo que eu quase duvidei que estivesse falando de mim. Como ele conseguia me olhar com amor e me beijar quando falava de mim desse jeito com outra mulher?

Engoli o nó na garganta.

— Por que a gente não se encontra hoje, rapidinho? — Houve uma pausa antes de ele continuar. — Vamos nos encontrar hoje, no clube. Vou dizer pra ela que vou me encontrar com os caras.

Eu já tinha ouvido o suficiente.

Fechei o notebook e fui para a sala, pedindo uma corrida na hora. James desceu pouco depois, todo arrumado. Enxuguei depressa as lágrimas dos olhos e me virei para ele.

— Kalyssa. Vou pro clube com os caras agora — ele disse sem olhar para mim, pegando as chaves enquanto falava.

Eu queria tentar uma última vez. Queria saber se eu ainda tinha um lugar no coração dele, então chamei.

— James.

Ele parou. Vi ele puxar um fôlego fundo.

— Você quer alguma coisa? — ele se virou para mim. Um sorriso no rosto, mas eu via a tensão.

— Posso ir com você?

Eu esperava que ele aceitasse; aí eu poderia perdoá-lo, então eu poderia contar o que descobri, e a gente poderia dar um jeito nisso.

Meu celular apitou. Meu Uber tinha chegado. Eu podia cancelar; eu só precisava da resposta dele.

James me encarou. O sorriso dele suavizou.

— Eu vou com os caras. Você quer ser a única mulher lá? — ele disse, e começou a andar de costas; era óbvio que estava com pressa.

— Vou sair agora, não posso deixar os caras esperando — ele disse, e em seguida bateu a porta.

Eu não fiquei parada. Eu queria ver com quem ele estava me traindo… então eu fui atrás.

Assim que ele saiu com o carro, entrei no Uber.

— Siga aquele carro.

O motorista do Uber olhou para mim, mas não disse nada. Fiquei feliz por isso.

Chegamos ao clube. Desci do carro e esperei James estacionar. Quando ele terminou, eu o segui.

Ele estava tão empolgado para ver a outra mulher que nem percebeu a minha presença.

Foi direto para uma sala privativa e bateu três vezes. Eu estava longe dele, mas perto o bastante para espiar lá dentro.

Parecia que estavam dando uma festa ali.

“Talvez ele não estivesse mentindo. Talvez tudo não passasse de um mal-entendido”, pensei. Mas isso foi até a porta se abrir de novo. Virei o rosto para que não me vissem.

James saiu com uma mulher. Eles foram embora depressa, com a mão dele na bunda dela.

Eu os segui.

A mulher parecia muito familiar. O bar estava escuro demais para eu ver o rosto dela. Segui os dois até saírem do bar. Meu marido falou no ouvido da mulher, e ela riu.

Meu coração parou ao som daquela voz.

Eu não queria acreditar.

Eles pararam nos fundos do bar, onde havia luz suficiente para eu ver o rosto da amante do meu marido.

Não era outra senão a mulher em quem eu sempre confiava.

Melissa.

— Espero que ela não tenha desconfiado de nada — disse Melissa.

James soltou um riso pelo nariz. Ela ergueu uma das pernas e a enlaçou na cintura dele, enquanto puxava o cinto.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto eu via as duas pessoas em quem eu mais confiava me traírem.

— Ela está ficando desconfiada demais. Só mais um pouco de tempo e eu faço ela assinar a empresa pra mim. Temos que ter cuidado — disse James.

Foi como levar um tiro perdido.

— “Temos”? Você é que não consegue ficar sem mim — Melissa riu e depois gemeu quando ele enfiou nela.

Aquilo era informação demais para processar.

Meu marido estava tendo um caso com a própria prima?

Eu nem percebi que estava recuando até bater na lixeira.

Os dois pararam.

— Acho que tem alguém aqui — disse Melissa, mas meu marido se recusou a soltá-la.

— Deve ser um gato — ele disse, enquanto as investidas ficavam mais rápidas.

— Não, espera... acho que é ela, eu consigo sentir o cheiro dela — disse Melissa.

Meus olhos se arregalaram. Ouvi James fungar.

Decidi que não adiantava correr, então saí do esconderijo.

Eles ficaram chocados ao me ver. Meu marido se afastou depressa.

— Kalyssa, eu...

— Isso é a Ai — rosnei, apontando para Melissa, que cruzou os braços sobre o peito. Os olhos gentis dela tinham sido substituídos por uma expressão de desprezo.

— Não, Kal...

— Eu achei que ela fosse sua prima? — perguntei.

Como ele podia estar dormindo com a própria prima?

Meu marido ia se defender quando Melissa o interrompeu.

— Já chega. Ela ia acabar sabendo de qualquer jeito. Sim, eu sou prima dele — disse ela, sem um pingo de remorso nos olhos.

Virei para ela.

— Mel... eu achei que a gente fosse... amiga. — Eu mal consegui dizer aquela palavra.

— A gente era amiga. Até você começar a se dar melhor do que eu — ela me avaliou de cima a baixo. — Você tem a sua própria empresa, seu próprio carro e casa, enquanto eu tenho que me matar todo dia por uma mixaria. Eu fui a primeira a me apaixonar pelo James.

— Mas vocês são primos, porra! — eu gritei para ela.

— E daí? — ela me empurrou pelo ombro.

Eu não conseguia acreditar. Aquela era a Melissa?

A raiva nublou meus pensamentos. Peguei meu celular e comecei a me afastar. Eu queria ligar para o meu motorista.

— Espera, aonde você vai? — Melissa gritou para mim.

Eu me recusei a olhar para trás. Eu não fazia ideia de que James vinha rápido por trás. Disquei um número aleatório que achei que fosse do motorista. Eu não me importava com quem fosse; eu só queria sair dali.

— Oi, você pode vir me buscar? — eu disse assim que a ligação completou.

Antes que eu pudesse ouvir uma resposta, levei uma pancada na cabeça.

O mundo tombou de lado.

Em questão de segundos, caí de cara no chão. Uma dor lancinante explodiu na minha cabeça. Melissa arfou, mas não se mexeu para ajudar.

— Por que você fez isso? — ela perguntou a James.

— O quê?! Eu entrei em pânico, tá bom? Se a gente deixar ela ir, nossos planos vão por água abaixo — ele disse, enquanto jogava a pedra fora. — Me ajuda, vamos tirar ela daqui.

Cada um pegou um dos meus pés e me arrastaram como se eu fosse lixo.

“O que eu fiz para merecer isso?”

— Por quê? — sussurrei, antes que o mundo ficasse preto.

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