Capítulo 3 Sua fuga

Capítulo 3

Uma dor pulsante latejava, irradiando da minha cabeça.

O lugar não me era familiar, mas eu tinha certeza de que estava amarrada a uma cadeira, porque não conseguia mexer a mão. O cheiro de poeira e de caixotes de madeira me dizia que eu estava em algum tipo de depósito. Tentei me mover; a cadeira rangeu sob mim, mas não saiu do lugar, e a corda cravou na minha pele.

Então ouvi passos.

A luz entrou por trás de mim e, em seguida, eles estavam lá dentro.

— Ela acordou? — ouvi James perguntar.

— Ouvi ela se mexendo; acho que sim — disse Melissa.

Em poucos segundos, eles estavam na minha frente. James veio primeiro, com os olhos frios, porém cansados, a camisa aberta até o peito.

Melissa cruzou o braço sobre o peito enquanto me encarava com desdém. Eu não recuei. Fuzilei com os olhos a mulher que eu um dia considerei uma irmã.

— O que vocês dois acham que estão fazendo? — rosnei, mas isso só pareceu diverti-los, especialmente Melissa. — Isso é sequestro, porra.

— É, e o que você vai fazer a respeito? Você não devia ter nos seguido, Kalyssa — James suspirou, passando a mão pelo rosto.

Meu estômago se revirou. “O que ele estava dizendo? Por que eles estavam agindo como se eu fosse a errada?”

Eles nem sequer pareciam arrependidos.

— Do que você está falando? — perguntei, alternando o olhar entre os dois.

Melissa se encostou em James; ele passou os braços pelos ombros dela. Senti nojo; como eles podiam agir assim um com o outro?

— Você não devia ter descoberto agora — James disse em voz baixa.

— Quando? Por quê? Como? — perguntei tudo de uma vez. Eu queria saber de tudo.

— Nós sempre fomos apaixonados um pelo outro — James começou. — Mas não podemos ficar juntos abertamente por causa da sociedade e da família.

“Óbvio.”

— Eu te trouxe até ele porque sabia que você não suspeitaria de nada — acrescentou Melissa. O tom dela sugeria que ela me achava idiota.

— E você era rica — completou James.

“Hã? O quê?” Era verdade, eu tinha ouvido eles dizendo alguma coisa sobre a minha empresa.

— Vocês só queriam o meu dinheiro — cuspi.

Melissa revirou os olhos.

— Claro que queremos. Como é que vamos sustentar nosso filho, então?

O mundo parou. Olhei para a barriga de Melissa, e foi aí que notei o pequeno volume. Eu tinha achado que ela só tinha engordado um pouco.

— Sim, eu estou grávida, mas o médico disse que pode haver algumas complicações na gravidez, então precisamos de dinheiro — ela continuou. Seus olhos estavam afiados.

Nada daquilo fazia sentido para mim. Eu só conseguia balançar a cabeça. Não conseguia pensar em nada para dizer.

James tirou do bolso um papel dobrado e uma caneta.

— Aqui. Você tem que assinar isto — disse, largando o papel no meu colo.

— Eu não vou assinar — virei o rosto.

Melissa franziu a testa.

— Seja uma boa menina e assine.

— Só por cima do meu cadáver — cuspi para ela.

De repente, ela riu — um riso maníaco que fez minha pele arrepiar.

— Ah, querida, você não faz ideia. Se você morrer, James assume a empresa automaticamente, então você só vai facilitar as coisas pra gente.

Enquanto dizia isso, James se afastou e voltou um segundo depois com um balde de metal cheio de um líquido transparente.

Algo me disse que aquilo não era água.

— Você é uma garota esperta; eu sei que você sabe que isso não é água, e sim ácido — ela disse.

Meu coração subiu para a garganta. “Eu tenho que sair daqui.”

— Então, qual vai ser? Você quer o jeito fácil ou o jeito difícil? — ela disse, gesticulando com a mão. Havia algo nela que tinha mudado. Os olhos estavam arregalados, selvagens.

— Se eu assinar, vocês vão me deixar ir? — perguntei. Eles trocaram olhares.

— Sim — disse James.

Os olhos de Melissa se voltaram para ele num estalo, com uma carranca. Ela balançou a cabeça para ele, mas ele não olhou de volta.

— Você só precisa assinar, e nós vamos deixar você viver — disse James.

Melissa cerrou a mão ao lado do corpo. A respiração dela acelerou depressa.

Ela não estava feliz com a ideia de me deixar ir.

Eu me debati com a corda atrás das costas, mas ela estava apertada demais.

— Tá bom, eu assino — assenti para ele. James suspirou. Pareceu aliviado com a minha escolha. — Mas vou precisar que você desamarre minha mão.

Ele concordou com a cabeça e foi para trás de mim. Logo, a corda afrouxou. Achei que aquela era uma oportunidade, mas ele rapidamente agarrou minha mão esquerda.

— Pronto, agora você pode assinar — ele disse.

De cabeça baixa, eu não vi a expressão no rosto de Melissa quando James segurou minha mão. Ela mordeu os lábios com força suficiente para tirar sangue.

Sem outra escolha, assinei o documento. Quando terminei, James puxou meu braço para trás e começou a amarrar de novo.

— Não aperta tanto, você cortou minha circulação — eu disse. Ele parou e então continuou, mas desta vez não amarrou tão apertado.

— James — Melissa chamou, mais alto do que o necessário. Nós dois levantamos o olhar e a vimos me encarando com ódio. — Guarde o documento. Eu cuido dela.

James assentiu e pegou o documento. Eu quis chamá-lo enquanto ele se afastava, mas Melissa de repente colocou a mão sobre a minha boca.

— Cala a boca, sua vadia — ela rosnou.

Eu me livrei das mãos dela. — O que você pensa que está fazendo? — perguntei, mas recebi um tapa forte no rosto. Minha cabeça virou para o lado, e senti um gosto metálico na boca.

— Você acha que eu vou simplesmente deixar você viver? Pra você voltar a transar com ele? — ela perguntou.

Ah, por que eu iria querer ele depois de tudo isso?

— Eu não quero ele; pode ficar com ele — revirei os olhos.

— Mentira! — ela gritou. A respiração dela estava pesada. Parecia que ela estava se segurando para não me despedaçar.

— Eu não posso deixar você viver. O James ainda te ama — ela disse, mais para si mesma do que para mim.

— Melissa — eu a chamei; os olhos arregalados dela se voltaram para mim num estalo. Ela estalou os dedos.

— Eu sei, é o seu rostinho bonito — ela disse. Meu coração despencou; balancei a cabeça.

Ela pegou o balde e caminhou com cuidado na minha direção.

— Se eu destruir o seu rosto, ele não vai te querer mais — ela disse e riu.

Ela tinha enlouquecido.

— Não seja idiota, Melissa — eu gritei, apavorada. Tentei me mover para trás, mas não adiantou.

— Eu tenho que fazer isso, é o único jeito de ele ser meu — ela disse, aproximando-se.

Quando estava perto o bastante, ela puxou o braço para trás, pronta para jogar o balde. A raiva tinha nublado o raciocínio dela. Ácido era como água; se ela jogasse o balde daquela distância, com certeza respingaria nela.

O que ela estava pensando?

Antes que ela despejasse, eu chutei as pernas dela; ela caiu para trás, e o balde foi arremessado atrás dela.

Ela gritou quando o ácido escorreu na direção dela; corroeu as costas dela, e ela se levantou e começou a correr descontrolada. Aproveitei a oportunidade para afrouxar a corda.

E então eu corri para fora do galpão, com Melissa gritando atrás de mim:

— Eu vou te matar!

Corri sem olhar para trás. O galpão ficava no meio da mata. Eu não sabia para onde estava indo, mas não me importava. Qualquer lugar era melhor do que ali. O cansaço me alcançou, e eu tropecei duas vezes numa raiz saliente. A noite estava fria.

Ouvi lobos uivando ao longe.

Depois do que pareceu horas, finalmente vi uma estrada. Acelerei o passo, com os pulmões protestando, e ignorei a dor que latejava nas minhas costelas. Quando cheguei à estrada, eu tinha chegado ao meu limite.

O mundo embaçou, minhas pernas cederam, e eu desabei no chão. Mais à frente, havia uma luz forte vindo na minha direção.

“Talvez este fosse o meu fim”, pensei quando o carro parou na minha frente.

A porta se abriu, um sapato de couro desceu e veio na minha direção. O couro brilhava; não parecia algo que James pudesse pagar.

— Olha no que você se tornou — ouvi uma voz grave dizer, quando os sapatos de couro pararam diante de mim.

— Por favor, me ajude — sussurrei para os sapatos antes de o mundo escurecer pela segunda vez, depositando toda a minha esperança naqueles sapatos de couro.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo