Capítulo 1
Minha filha, Sophia, não conseguia dormir, então veio me procurar.
— Mãe, por que o papai não tem vindo pra casa ultimamente? — a mãozinha dela se agarrou com força à manga do meu pijama, e a voz vinha carregada de confusão.
Eu ainda não sabia como explicar que o pai dela estava passando todas as noites com outra mulher.
Puxei Sophia para os meus braços, escondendo o gelo no meu olhar, e menti com doçura:
— O papai só está trabalhando muito.
— É mesmo? O Natal tá chegando. O papai vai passar com a gente?
— Claro. — alisei seus cachinhos e tentei confortá-la com a voz mais suave que consegui. — Agora fecha os olhinhos, meu amor. Tenta dormir.
Sophia piscou e, por fim, pareceu aceitar minhas palavras.
No meu abraço, a respiração dela ficou lenta e regular, e a mãozinha foi soltando, aos poucos, a manga do meu pijama.
Vendo-a dormir, uma onda de amargura me invadiu.
Nove anos atrás, contra a vontade da minha família, eu abri mão do meu lugar de herdeira da família mafiosa mais poderosa da Sicília só para fugir com Marco para esta cidade.
Eu achava que estava correndo atrás da liberdade e do amor verdadeiro, que ele me amaria para sempre e jamais me trairia.
Que piada. Em apenas nove anos, o conto de fadas se estilhaçou.
Enquanto eu calculava em silêncio como poderia ir embora com Sophia sem que ninguém percebesse, a porta do quarto rangeu ao se abrir.
Marco entrou, com cara de exausto.
Quando os olhos dele pousaram em Sophia dormindo na cama, o olhar amoleceu por um instante. Ele se inclinou, querendo beijar a testa dela.
Na penumbra, eu via nitidamente a marca escancarada de batom no colarinho da camisa dele — o tom que Claudia sempre usava.
Nas mangas arregaçadas, riscos recentes de unhas se destacavam, vermelhos e irritados, no antebraço.
Meu estômago revirou. Engoli a náusea.
Por instinto, ergui a mão para impedi-lo.
— Não encosta nela. Ela tá resfriada.
Percebendo que meu tom tinha saído duro demais, acrescentei:
— Eu acabei de fazer ela pegar no sono. Não acorda.
— Como é que ela pegou resfriado? — Marco franziu a testa, um lampejo de preocupação nos olhos. — O pessoal daqui deve não estar cuidando direito. Amanhã eu vou falar com eles.
Ele não pareceu notar meu humor e se virou para me beijar.
Virei o rosto com nojo, deixando o beijo não encontrar nada.
— O seu cheiro me dá enjoo.
Marco ficou rígido e, devagar, sentou na beirada da cama, com a voz cansada e culpada:
— Me desculpa, Elena. Eu sei que tenho te deixado de lado. Mas você sabe como é... o chefe antigo acabou de morrer, e as coisas estão complicadas. A Claudia tem todas as conexões e os recursos mais importantes. Eu tenho que... tenho que conquistar ela.
Claudia Moretti era a viúva do antigo padrinho. Ela se casou com ele aos trinta e, com charme e astúcia, construiu o próprio poder dentro da família em poucos anos. Agora que o velho Don tinha morrido, todo mundo estava atrás da influência que ela carregava.
Como o novo padrinho, Marco queria essa influência também.
Ele ergueu os olhos para mim.
— Confia em mim. Assim que eu pegar o poder e garantir minha posição, eu caso com você na hora. A gente vai fazer um casamento enorme — a cidade inteira vai saber que você é minha esposa.
Eu encarei Marco, sentindo apenas uma ironia amarga.
Ele não sabia que eu já tinha descoberto a verdade: para herdar a fortuna e o território do velho Don, o próximo da linha precisava se casar com a viúva dele. Marco tinha que se casar com Claudia e deixá-la no trono.
— Vai tomar banho. — fechei os olhos, sem vontade de assistir à encenação dele por mais um segundo. — Eu tô cansada.
Vinte minutos depois, Marco tinha acabado de sair do banheiro quando bateram na porta.
Era a governanta de Claudia, com a voz um pouco aflita:
— Senhor, a dona Claudia disse que não consegue dormir e que o coração tá atacando. Ela gostaria que o senhor fosse vê-la.
Marco parou no meio do movimento, toalha na mão, e então disparou, irritado:
— Droga, eu acabei de deixar ela exausta pra ela finalmente—
Ele se cortou na mesma hora.
O ar ficou imóvel.
Marco se virou, alarmado, para olhar para a cama.
Eu estava deitada de lado, de costas para ele, respirando lenta e profundamente, como se já estivesse dormindo há muito tempo.
Ele me encarou por cinco segundos inteiros, se certificando de que eu não tinha reagido, e então soltou um longo suspiro. Vestiu a roupa em silêncio e disse para a governanta do lado de fora:
— Já vou.
A porta se fechou com um clique atrás dele.
No escuro, eu abri os olhos.
Chega. Isso tem que acabar.
Eu preciso sair daqui. Com a Sophia.
