Capítulo 2

Às três da madrugada, enfim disquei o número da minha família.

A raiva do meu pai foi exatamente como eu esperava. Quando ele ouviu que eu queria voltar para casa, explodiu. “Aquele desgraçado! Ele te machucou? Se ele encostou um dedo em você—”

Sophia, incomodada com a voz dele, resmungou dormindo. “Mamãe… papai…”

De repente, do outro lado, fez-se silêncio.

“Quem foi isso?” O tom do meu pai mudou, com um traço de incredulidade e esperança aparecendo.

“É… é a Sophia.” Virei para olhar a pequena figura na cama. “Minha filha. Ela tem seis anos.”

“Uma filha? Maria, vem aqui!” Ouvi ele gritando pela minha mãe. “A Elena tem uma filha! A gente tem uma neta!”

Ele insistiu que eu levasse a Sophia para casa no Natal, imediatamente, mas eu pedi mais dois dias — para a minha filha ter um último Natal com o Marco.

Ele não concordou de primeira, mas quando eu disse que nós poderíamos passar muitos Natais juntos no futuro, enquanto a Sophia só teria aquele com o pai dela, ele cedeu, a contragosto.

Depois de desligar, voltei para o lado da Sophia e acariciei de leve a bochecha dela.

Na manhã seguinte, a campainha quebrou o silêncio da casa.

“Vovó!” Sophia correu para a porta, a voz explodindo de alegria.

A mãe do Marco, Grace, entrou com os braços cheios de sacolas, com cara de quem pretendia ficar um tempo.

“Sophia.” Grace assentiu, fria.

Ela nunca gostou de mim nem da Sophia. Para ela, eu sempre fui a estrangeira que seduziu o filho dela, e a Sophia era só o resultado daquele erro.

Sophia tentou puxar conversa, mas as respostas da Grace eram sempre curtas e geladas.

Só quando o jantar estava chegando é que a expressão da Grace finalmente amoleceu.

“Vamos receber visitas hoje à noite.”

Não muito depois, a campainha tocou de novo.

Eu abri a porta e vi o Marco ali, com a Claudia.

Claudia usava um vestido de festa vermelho-escuro, elegante e imponente, nada parecida com uma viúva de luto.

“Boa noite.” Ela sorriu, o olhar calmo passando por mim. “Espero que não estejamos atrapalhando.”

Eu encarei o Marco, mas ele desviou os olhos.

Dei passagem para eles entrarem.

Claudia, distraída, pousou uma mão na barriga.

Grace percebeu. “Claudia, você está com uma aparência ótima ultimamente.”

“Obrigada”, respondeu Claudia, com um sorriso suave. “Talvez seja por causa de uma boa notícia. O médico disse que eu estou grávida.”

Os olhos do Marco se iluminaram, surpresos.

O sorriso da Grace se abriu, sem qualquer contenção. “Que maravilha! Agora você e o Marco podem ficar noivos—”

“Mãe.” Marco a interrompeu, olhando para mim, desconfortável.

“Eu vou ganhar um irmãozinho ou uma irmãzinha?” Sophia perguntou, inocente.

Claudia finalmente reparou nela. “E quem é essa mocinha?”

— Ah, essa é a Sophia — disse Grace depressa. — É uma criança que o Marco adotou. A Elena cuida dela.

— Eu não sou adotada! — Sophia se pôs de pé num salto, a voz tremendo de raiva. — Eu tenho mãe! Eu tenho pai!

Ela apontou para mim e, em seguida, se virou para Marco.

— Mamãe! Papai! Contem pra eles!

Todos os olhares se voltaram para Marco.

Eu observei, esperando.

Ele abaixou a cabeça, recusando-se a encarar o olhar esperançoso da Sophia — ou o meu.

O rosto da Sophia mudou da raiva para a confusão e, depois, para a incredulidade.

Os lábios dela tremeram; os olhos, arregalados e brilhando de lágrimas, como se ela não conseguisse acreditar que o pai amado faria aquilo com ela.

— Papai? — A voz dela foi quase um sussurro, agarrada à última esperança.

Quando Marco continuou em silêncio, Sophia finalmente desabou, e as lágrimas transbordaram.

Meu coração se partiu por ela.

Ela estava provando, pela primeira vez, o gosto da rejeição do próprio pai.

— Vem cá, meu amor. — Eu me levantei e puxei a Sophia, aos soluços, para os meus braços. — Vamos subir.

— Mamãe... — ela soluçou, enterrando o rosto no meu ombro.

— Tá tudo bem. — Fiz um carinho de leve nas costas dela. — Você só vai ter que começar a se acostumar com uma vida sem pai.

Eu me virei para sair da sala de jantar, mantendo minha filha bem apertada contra mim.

Enquanto subíamos a escada, ouvi a voz da Claudia chegar até nós lá de baixo:

— Marco, não tem um colar especial na sua família que só vai pra esposa do herdeiro? Acho que já tá na hora de você me dar.

Os olhos da Grace vacilaram. Ela chamou atrás de mim:

— Elena, traz o colar pra Claudia, sim?

Eu parei e me virei devagar.

O colar repousava quieto contra a minha pele, escondido sob a gola.

— Marco. — Eu olhei para ele. — Você tem certeza disso?

Ele mesmo tinha colocado aquele colar no meu pescoço, nove anos antes.

Naquele dia, ele jurou me amar para sempre e me entregou a joia de família, dizendo que só a verdadeira mulher da casa podia usá-la.

Por causa daquela promessa, eu abri mão de tudo, fugi com ele e escondi minha identidade.

Todos esses anos, os únicos motivos para eu ficar foram a Sophia — e o colar.

Marco finalmente ergueu o olhar, mas não conseguiu encontrar o meu.

— É... é só um colar.

Eu encarei Marco e, por fim, sorri.

— Você tem razão. É só um colar.

Com uma mão, eu desfiz a gola e soltei o fecho do colar que estava comigo havia nove anos.

A safira brilhou, fria, sob as luzes. Olhei para ela uma última vez e então a deixei escorregar por entre meus dedos.

Ela bateu no chão com um som seco e cristalino.

— Já que é só um colar, então deixa com quem realmente precisa dele.

O rosto do Marco perdeu a cor; a boca se abriu como se ele fosse dizer alguma coisa, mas não saiu nenhuma palavra.

Eu não olhei para ele de novo. Apenas apertei minha filha ainda mais contra mim e fui embora.

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