Capítulo 3

De volta ao nosso quarto, a Sophia ainda soluçava nos meus braços.

Eu a deitei com cuidado na cama. Os olhos dela estavam vermelhos e inchados quando ela me encarou, com a voz trêmula. “Mamãe, por que o papai e a vovó me odeiam tanto?”

A pergunta me atravessou como uma faca. Eu me sentei ao lado dela, puxando-a para perto, mas não sabia como responder.

Como eu poderia dizer que o pai dela era um covarde e que a avó nunca a considerou família?

“Meu amor, escuta.” Passei a mão de leve no cabelo dela. “A vovó… talvez ela não ame a gente, mas os meus pais te amam muito. Eles também são seus avós. Eles estão esperando há muito tempo pra te conhecer.”

Sophia levantou o rosto, com um brilho de esperança nos olhos. “Sério?”

“É verdade.” Enxuguei as lágrimas dela. “Sophia, você quer ir embora com a mamãe agora? A gente pode ir conhecer eles.”

Ela mordeu o lábio, pensando com força.

“Mas… mas o Natal já está quase chegando.” ela sussurrou. “O papai prometeu que a gente ia passar o Natal junto.”

Mesmo depois de tudo o que aconteceu naquela noite, eu via que ela ainda se agarrava a uma esperança sobre o Marco.

Eu não podia partir o coração dela de novo.

“Tá bem.” Suspirei. “A gente vai embora depois do Natal.”

No dia de Natal, a casa estava assustadoramente silenciosa.

O Marco não voltou para casa. A Grace não estava em lugar nenhum.

A Sophia vestiu o vestido vermelho favorito dela e ficou sentada na sala a manhã inteira, esperando.

“Mamãe, o papai esqueceu?” ela perguntou enfim à tarde, com a voz baixinha.

Eu já ia consolá-la quando a campainha tocou.

A Sophia pulou de pé, o rosto se iluminando. “É o papai!”

Ela correu até a porta, e eu fui atrás.

Do lado de fora havia um homem de terno preto, educado, mas desconhecido. “Senhora, senhorita, o senhor Romano me enviou para levá-las para celebrar o Natal.”

“O papai está esperando a gente!” Sophia se virou para mim, com os olhos brilhando. “Vamos, mamãe, o papai está esperando!”

Eu tive um pressentimento ruim, mas, vendo a empolgação dela, não consegui dizer não.

O carro nos levou a um hotel de luxo. A Sophia segurava minha mão, quase me puxando pelo saguão.

Mas, no instante em que nos conduziram até o salão de festas, meu sangue gelou.

Aquilo não era uma festa de Natal.

Era a comemoração do noivado do Marco com a Claudia.

A mão da Sophia endureceu na minha.

Ela encarou o Marco e a Claudia se abraçando no palco, e o rosto dela foi perdendo a cor.

“Bem, bem… vejam só quem chegou.” A Claudia nos viu, enlaçando o braço no do Marco enquanto se aproximava, com um sorriso perfeito nos lábios.

O olhar dela passou pelo vestido vermelho da Sophia e então parou em mim. “Que… surpresa.”

“Nós vamos embora.” Apertei ainda mais a mão da Sophia.

“Espera.” A Grace apareceu, bloqueando o nosso caminho. “Já que vocês estão aqui, pelo menos deveriam parabenizar os dois.”

Eu segurava uma taça de champanhe e, quando ela passou por mim, “sem querer” esbarrou em mim. O champanhe escorreu pelo meu vestido, e a taça se estilhaçou no chão.

— Ops, me desculpa. — Ela fingiu surpresa. — Você devia prestar mais atenção.

— Foi você que esbarrou em mim — eu disse, fria.

— O quê? — O rosto dela se fechou. — Como você se atreve a me responder?

Um tapa estalou no meu rosto. Eu não esperava e cambaleei.

— Mamãe! — Sophia gritou.

— Sua vadia, quem você pensa que é? — Grace levantou a mão de novo.

Eu agarrei o pulso dela.

— Chega.

— Como você se atreve! — Claudia rosnou, com a voz gelada. — Você tem coragem de encostar na Grace?

Ela fez um gesto para os seguranças.

— Façam ela se ajoelhar e pedir desculpas.

Dois seguranças se aproximaram — um segurou meu braço, o outro chutou minhas pernas, tirando meu apoio. Fui obrigada a cair no chão.

— Peça desculpas — exigiu Claudia, olhando para mim de cima.

— Eu não fiz nada de errado — eu disse, entre dentes.

Eu levantei o olhar para Marco.

Por um segundo, nossos olhos se encontraram. Eu vi culpa, hesitação… mas ele só ficou ali, sem dizer nada.

Ele escolheu o silêncio.

Naquele instante, o último restinho de esperança que eu tinha morreu.

— Ainda desafiadora? — Grace cuspiu. — Ensinem uma lição pra ela!

O punho de um segurança acertou minha lateral. A dor me fez me curvar, mas eu não soltei um som.

— Pede desculpas! — Grace berrou.

— Não. — Eu ergui a cabeça, sentindo gosto de sangue na boca.

Outro golpe, agora nas costelas. Eu mal conseguia respirar.

— Para! — Sophia avançou de repente, tentando me proteger, mas um segurança a empurrou para o lado.

Ela caiu, ralando o joelho, mas se levantou depressa e correu até Marco.

Então, ela se jogou de joelhos, batendo a testa no chão com força.

— Padrinho! — A voz dela saiu rouca, de dor. — Por favor, deixa a minha mamãe ir! Ela não fez nada de errado! A culpa é nossa! A gente não devia ter vindo!

Marco ficou paralisado.

A filha dele — a Sophia dele — estava chamando ele de “padrinho”.

O rosto de Marco perdeu a cor quando ele viu o sangue na testa de Sophia. Por fim, ele falou:

— Chega.

Os seguranças pararam.

Marco deu um passo à frente, com a voz baixa.

— Deixem elas irem.

— Marco… — Claudia começou.

— Eu disse, deixem elas irem. — O tom dele não deixava espaço para discussão.

Os seguranças me soltaram.

Eu me levantei às pressas e puxei Sophia para os meus braços.

Marco olhou para nós, com uma expressão dividida. Ele baixou a voz.

— Vai pra casa. Eu passo lá hoje à noite… eu vou explicar tudo.

Eu não disse nada. Abraçando Sophia com força, eu fui embora.

Sophia se agarrou ao meu pescoço.

— Mamãe, eu não quero ficar aqui mais. Vamos ver seus pais. Você disse que eles me amam, né?

Minha garganta apertou.

— Sim, meu amor. A gente vai sair agora mesmo.

Naquela noite, eu arrumei tudo o que era meu e da Sophia.

Eu ia tirar ela daquele lugar — para sempre.

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