Capítulo 2 Capítulo 2
Lena
— De jeito nenhum.
Zara quase engasgou com o café gelado. — Você nem ouviu a ideia ainda.
— Não preciso. — Enfiei o laptop na bolsa e me levantei da mesa da biblioteca. — Se a sua ideia envolve Kane Ravenwood, alguma atividade ilegal ou dano emocional, a resposta é não.
— Isso é literalmente todas as minhas ideias.
— Exatamente.
Ela me acompanhou para fora da biblioteca, com um sofrimento dramático estampado no rosto. — Você é tão difícil, pra alguém com um rosto tão bonito.
Eu a ignorei.
O ar de outubro do lado de fora da Blackthorn University trazia aquele frio cortante que atravessava a roupa e deixava todo mundo miserável. Os estudantes cruzavam o campus às pressas, enrolados em moletons enormes, enquanto folhas laranjas cobriam as calçadas.
Enquanto isso, faixas gigantes do time de hóquei Ravens pendiam de quase todos os prédios, como se a faculdade adorasse mais o time do que a educação de verdade.
Patético.
— Sabe — Zara disse, casualmente —, a maioria das pessoas ficaria animada por Kane Ravenwood ter reparado nelas.
Eu parei de andar na hora.
— Ele não reparou em mim.
— Ele encarou você como se você tivesse ofendido ele pessoalmente.
— Essa é só a cara dele.
Ela riu. — Não, sério. Aquilo foi estranho.
Voltei a andar mais rápido. — Você está imaginando coisas.
Mas, sinceramente?
Eu tinha pensado nisso a noite inteira.
O jeito como os olhos dele se fixaram nos meus.
A expressão estranha no rosto dele quando viu o colar do Mason.
A culpa.
Não fazia sentido.
Kane Ravenwood não sentia culpa por nada.
— Talvez ele conheça seu irmão — Zara sugeriu.
Eu lancei um olhar para ela.
— O Mason literalmente jogou nos Ravens — ela se defendeu. — É possível.
Possível, sim.
Provável? Não.
Mason raramente falava dos antigos companheiros de time depois de tudo o que aconteceu. Sempre que eu mencionava hóquei, a expressão dele mudava por completo. Como se as lembranças doessem fisicamente.
Especialmente quando o nome de Kane aparecia.
Apertei a alça da bolsa com mais força.
— Esquece — murmurei.
Infelizmente, a Blackthorn University claramente tinha outros planos.
Porque, no instante em que chegamos ao prédio de jornalismo, o caos explodiu.
Estudantes lotavam o corredor.
Celulares na mão.
Sussurros.
Alguém gritando.
— O que aconteceu? — Zara perguntou.
Uma garota se virou para nós, empolgada. — O Kane se envolveu em outra briga.
Claro que se envolveu.
Eu abri caminho pela multidão até a TV grande presa perto do lounge dos estudantes.
Um vídeo passava na tela.
A qualidade tremia, filmado no celular de alguém do lado de fora de um clube perto do campus.
Kane estava no meio do estacionamento, todo de preto, com sangue espalhado pelos nós dos dedos enquanto a segurança tentava contê-lo.
Um cara estava caído no chão ali perto.
Imóvel.
Meu estômago afundou um pouco.
Gritos soavam ao fundo enquanto Kane se debatia contra os seguranças, que seguravam seus braços.
Ele parecia furioso.
Não.
Não furioso.
Selvagem.
— Encosta nela de novo — Kane rosnou para o cara inconsciente — e eu te mato.
O vídeo terminou ali.
O silêncio tomou o corredor por meio segundo antes de todo mundo começar a falar ao mesmo tempo.
— Meu Deus.
— Ele é insano.
— Aquele cara vai pro hospital.
— Ouvi dizer que tinham olheiros da NHL lá.
— Ele tá acabado.
Cruzei os braços, com força.
Comportamento típico do Kane.
Violência primeiro. Pensar depois.
De repente, o professor de jornalismo entrou no corredor, com uma expressão tensa. — Lena.
Eu pisquei. — O quê?
— Minha sala. Agora.
Ótimo.
Zara fez “boa sorte” com os lábios enquanto eu seguia o professor Bennett pelo corredor.
A sala dele cheirava a café e papel velho. Pilhas de trabalhos cobriam todas as superfícies.
Ele fechou a porta atrás de mim com um suspiro.
— Preciso de um favor.
— Essa frase nunca termina bem.
— O jornal dos estudantes quer uma matéria exclusiva sobre o Ravenwood.
Eu quase ri.
— Não.
— Você nem me deixou terminar.
— Não preciso.
O professor Bennett tirou os óculos, cansado. — Lena, você é uma das melhores escritoras deste departamento.
— E?
“Ninguém mais consegue se aproximar dele.”
“Isso me parece um problema pessoal.”
“É uma oportunidade profissional.”
“É Kane Ravenwood.”
“Exatamente.”
Fiquei encarando-o, sem acreditar.
Será que todo mundo no campus era secretamente insano?
“Você sabe que eu não escrevo artigos sobre esportes.”
“Isso não é mais sobre esportes”, ele disse com cuidado. “A universidade está preocupada. Os patrocinadores estão ameaçando cortar o financiamento depois da noite passada.”
Ótimo.
“A administração quer uma cobertura positiva da mídia antes que isso vire um escândalo maior.”
Franzi a testa devagar.
“Espera. Você quer que eu faça ele parecer bonzinho?”
“Entreviste-o.”
“Não.”
“Lena—”
“Não.”
Desta vez, a palavra saiu mais afiada.
O professor Bennett me observou em silêncio por um momento.
“Você ainda culpa ele pelo Mason.”
A tensão na sala engrossou na mesma hora.
Fui a primeira a desviar o olhar.
“Meu irmão perdeu tudo por causa daquele time.”
“Não foi isso que eu perguntei.”
Engoli em seco.
A verdade era feia.
Eu culpava Kane especificamente?
Talvez não inteiramente.
Mas, às vezes, o ódio precisa de um rosto.
E o rosto de Kane Ravenwood era fácil de odiar.
O professor Bennett suspirou de novo. “Olha, eu não estou te obrigando. Mas esse artigo pode ajudar no seu portfólio. As inscrições para estágio abrem em breve.”
Merda.
Ele sabia exatamente onde atingir.
Os estágios de jornalismo eram brutalmente concorridos em Blackthorn.
E eu precisava de um.
Muito.
“Apenas uma entrevista?”, perguntei com cuidado.
“Sim.”
“Um artigo.”
“Sim.”
Hesitei.
Todos os meus instintos gritavam não.
Mas havia outra parte de mim — a parte teimosa e curiosa — que queria respostas.
Queria saber por que Kane parecera culpado ontem.
Eu queria entender o que realmente tinha acontecido três anos atrás.
O professor Bennett percebeu meu silêncio imediatamente.
“Isso não é um sim”, ele disse.
“Também não é um não.”
Um sorriso lento surgiu no rosto dele. “Vou considerar isso um sim.”
Soltei um gemido baixo.
Grande erro.
Enorme erro.
Duas horas depois, eu estava do lado de fora da Ravens Arena, questionando cada decisão que me levara até ali.
O prédio parecia mais silencioso durante o dia. Menos caótico. Ainda assim, intimidador.
Apertei o casaco em volta do corpo antes de entrar.
O ar frio me atingiu na mesma hora.
O som dos patins cortando o gelo ecoava pela arena imensa.
Treino.
Alguns jogadores se moviam pela pista enquanto os técnicos gritavam instruções da lateral.
Então eu o vi.
Kane.
Mesmo de longe, ele se destacava.
Rápido. Agressivo. Controlado.
Como violência envolta em talento.
Ele lançou outro jogador contra a barreira com força suficiente para fazer o vidro tremer.
O técnico gritou alguma coisa.
Kane o ignorou completamente.
Típico.
Desci com cuidado os degraus em direção à pista.
Um dos assistentes técnicos me notou primeiro.
“Perdeu alguma coisa?”
“Estou aqui para entrevistar Kane Ravenwood.”
O homem pareceu surpreso.
Depois, divertido.
“Boa sorte com isso.”
Maravilha.
Antes que eu pudesse responder, um apito ecoou com força pelo gelo.
O treino parou.
Os jogadores patinaram até os bancos enquanto tiravam os capacetes.
Kane puxou o dele devagar, o cabelo escuro úmido de suor.
E então os olhos dele me encontraram de novo.
Instantaneamente.
Como se ele tivesse sentido minha presença antes mesmo de olhar.
O ar mudou.
Um companheiro de time se inclinou na direção dele, claramente dizendo alguma coisa.
Kane não respondeu.
Nem piscou.
Apenas ficou me encarando do outro lado da pista com a mesma intensidade fria.
Meu Deus.
Aquilo era perturbador.
Ele saiu do gelo.
Devagar.
Quanto mais se aproximava, mais intimidador ficava.
Alto.
Ombros largos.
Hematomas recentes perto da mandíbula.
E aqueles olhos cinzentos aterrorizantes presos nos meus como lasers.
Todos os instintos de sobrevivência no meu corpo despertaram de uma vez.
Mas me recusei a me mexer.
Kane parou bem na minha frente.
De perto, ele parecia ainda pior.
Não feio.
Perigoso.
Havia diferença.
“Você é a irmã de Mason Hart”, ele disse por fim.
Não era uma pergunta.
Meu coração falhou por um instante.
Então ele sabia exatamente quem eu era.
