Capítulo 3 Capítulo 3

Kane

Mason Hart tinha os olhos dela.

Foi a primeira coisa que notei três anos atrás, quando ela apareceu em um dos jogos dele.

O mesmo olhar escuro. A mesma boca teimosa.

Naquela época, ela parecia mais nova. Mais suave.

Agora?

De suave, não tinha nada.

Agora ela me olhava como se quisesse me botar fogo.

Justo.

— Você é a irmã do Mason Hart — repeti.

Ela ergueu o queixo de leve. Defensiva já.

— E você é observador.

Sarcástica.

Interessante.

A maioria das pessoas ficava nervosa perto de mim. Algumas se calavam. Outras se esforçavam demais para me impressionar.

Lena Hart parecia pronta para cometer um assassinato.

Quase respeitei isso.

As luzes da arena se refletiam no gelo atrás dela enquanto os jogadores se movimentavam ao nosso redor, barulhentos, mas, de algum jeito, ela ainda prendia toda a minha atenção.

Casaco preto.

Bolsa de câmera.

Um colar prateado dos Ravens descansando na garganta dela.

O colar do Mason.

Ver aquilo de novo foi como levar um soco nas costelas.

Desviei o olhar antes que ela percebesse.

— O que você quer? — perguntei.

— Uma entrevista.

— Não.

Ela piscou uma vez, como se não esperasse uma resposta tão rápida.

Sinceramente, isso me irritou.

O pessoal de Blackthorn estava acostumado demais a conseguir coisas de mim. Entrevistas. Fotos. Atenção.

Eu odiava tudo isso.

— Eu escrevo pro jornal dos alunos — explicou, com a voz tensa. — O professor Bennett me mandou.

— Continua sendo não.

Comecei a andar em direção ao vestiário.

Passos me seguiram.

Persistente.

— Eu só preciso de vinte minutos.

— Não.

— Você nem ouviu as perguntas.

— Não me importo.

— Você é sempre tão grosseiro?

Parei de andar.

Virei devagar para encará-la.

Ela quase trombou direto no meu peito antes de se conter.

Perto demais.

Por um breve segundo, nenhum de nós se mexeu.

Ela cheirava a baunilha e ar de inverno.

Uma combinação perigosa.

— Você devia parar de me seguir — eu disse, baixo.

Em vez de recuar como uma pessoa normal, Lena cruzou os braços.

— Você devia parar de agir como um criminoso.

Vários jogadores por perto se calaram na hora.

Idiotas, quase pararam de respirar.

Porque ninguém falava comigo daquele jeito.

Ainda mais em público.

Mas Lena não parecia assustada agora.

Com raiva, sim.

Assustada, não.

Minha mandíbula se retesou um pouco.

— Você viu o vídeo — eu deduzi.

— Eu vi você quase matar alguém.

— Ele encostou numa garota.

— Isso não faz de você juiz, júri e carrasco.

— Não — concordei, calmo. — Só capitão.

Os olhos dela se estreitaram imediatamente.

Aí estava.

Ódio.

Ódio de verdade.

Eu reconheci porque já tinha visto antes no rosto do Mason.

A lembrança veio com mais força do que eu esperava.

Vestiário.

Sangue no chão.

Mason me empurrando para longe.

“Você devia ter contado pra alguém.”

Eu empurrei o pensamento para baixo na mesma hora.

Agora não.

Lena me estudou com cuidado, como se estivesse tentando resolver alguma coisa.

— Você nem nega que é violento — ela disse.

— Eu sou violento.

A honestidade pareceu desequilibrá-la por um segundo.

Bom.

As pessoas esperavam desculpas.

Eu não dava.

Um dos assistentes técnicos se aproximou de nós, nervoso. — Ravenwood. O técnico quer você no escritório dele.

— Diz pra ele que eu vou em cinco minutos.

O assistente hesitou, como se quisesse discutir, e então, com sabedoria, foi embora.

Lena percebeu também.

O medo.

Todo mundo ali tinha medo de mim.

Menos ela.

Provavelmente esse era o problema.

— Você gosta disso, não gosta? — ela perguntou de repente.

— Do quê?

— Das pessoas terem medo de você.

Eu a encarei por um instante.

A maioria das pessoas não teria coragem de fazer essa pergunta.

Mas Lena Hart claramente não sabia a hora de parar.

— Eu não me importo o suficiente pra gostar.

— Isso é pior.

Talvez.

Ela ajustou a bolsa mais alto no ombro. “Olha, eu só preciso de uma história.”

“Você já tem uma.”

“O que isso quer dizer?”

Inclinei-me um pouco mais para perto.

“A jornalista pobrezinha foi obrigada a entrevistar o capitão de hóquei malvado.” Minha voz continuou neutra. “O campus ia devorar isso.”

As bochechas dela coraram na hora.

Raiva.

Não constrangimento.

Bonito.

Pensamentos perigosos.

Dei um passo para trás antes que meu cérebro ficasse ainda mais idiota.

Lena soltou o ar com força, como se estivesse tentando retomar o controle da conversa.

“Você acha que é engraçado?”

“Não.”

Pelo menos concordávamos em alguma coisa.

O silêncio entre nós se estendeu de um jeito estranho.

Percebi pequenas coisas sem querer.

O jeito como ela batia os dedos na alça da câmera quando se irritava.

A cicatriz minúscula perto da sobrancelha.

O cansaço escondido por trás da atitude.

Ela parecia exausta.

Não fisicamente.

Emocionalmente.

Eu conhecia bem demais esse tipo de exaustão.

“Então”, ela disse por fim, “você conhecia meu irmão.”

A pergunta caiu como uma lâmina.

Ao nosso redor, os jogadores continuavam se movimentando pela arena, rindo alto depois do treino.

Normal.

De repente, tudo pareceu normal demais.

“Eu o conhecia”, respondi com cuidado.

“O que aconteceu?”

Direto ao ponto.

Claro.

Desviei o olhar por um instante para a pista vazia.

“Não vou falar sobre o Mason com você.”

“Por quê?”

Porque eu me lembrava dele sangrando.

Porque a culpa era uma doença que eu carregava em silêncio.

Porque, se ela soubesse toda a verdade, me odiaria ainda mais.

“Ela merece saber”, sussurrou uma voz na minha cabeça.

Ignorei.

A expressão de Lena se endureceu. “Sabe o que é engraçado?”

“Provavelmente não.”

“Meu irmão nunca fala daquela noite. Nunca.” A voz dela ficou mais afiada. “Mas toda vez que o seu nome aparece, ele fica com cara de quem quer quebrar alguma coisa.”

Algo frio se instalou no meu peito.

É.

Fazia sentido.

“Você devia perguntar a ele por quê”, eu disse.

“Eu perguntei.”

“E?”

“Ele disse que você destrói tudo o que toca.”

As palavras acertaram mais forte do que deveriam.

Porque não estavam completamente erradas.

Encarei-a em silêncio.

Ela achava que eu arruinei a vida do Mason.

Se ao menos ela soubesse quantas noites eu revivi aquele momento na minha cabeça, me perguntando se eu poderia ter impedido.

Se eu deveria ter impedido antes.

“A entrevista acabou”, eu disse enfim.

“Ela nem começou.”

“Exatamente.”

Passei por ela em direção ao vestiário antes que aquela conversa piorasse.

Ou ficasse mais perigosa.

“Covarde”, ela gritou atrás de mim.

Eu parei na hora.

O corredor inteiro pareceu congelar de novo.

Devagar, virei de volta para ela.

A expressão de Lena vacilou levemente, como se tivesse percebido tarde demais o que disse.

Garota esperta.

Meu temperamento já estava ruim hoje.

E ela continuava cutucando.

Voltei até ela devagar.

Um passo.

Dois.

Três.

A respiração dela mudou quase imperceptivelmente.

Mas ela não se mexeu.

Também não correu.

Interessante.

Quando parei de novo bem na frente dela, a tensão entre nós parecia afiada o bastante para cortar pele.

“Você devia ter cuidado, Lena.”

A primeira vez que eu disse o nome dela.

O pulso dela saltou visivelmente na garganta.

“Você não me assusta”, ela sussurrou.

Mentira.

Inclinei-me um pouco mais.

Perto o bastante para ver a raiva nos olhos dela.

Perto o bastante para notar que ela estava tremendo um pouquinho.

“É”, eu disse baixo. “Esse é o seu primeiro erro.”

E então fui embora antes de fazer alguma coisa imprudente.

Como tocar nela.

Ou contar a verdade.

Porque, no segundo em que vi o colar do Mason no pescoço dela ontem…

Eu percebi uma coisa perigosa.

Eu vinha me esforçando muito para não pensar em Lena Hart nos últimos três anos.

E, de repente, eu estava falhando.

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