Capítulo 4 Capítulo 4

Lena

“Você devia tomar cuidado, Lena.”

As palavras me acompanharam até em casa.

O que era irritante.

E injusto.

Porque eu passei anos odiando Kane Ravenwood perfeitamente bem sem ouvir a voz dele dentro da minha cabeça.

E agora, de repente, eu não conseguia parar de repeti-la.

Empurrei a porta do meu dormitório com mais força do que o necessário.

Zara ergueu os olhos da cama, imediatamente desconfiada.

“Foi tão ruim assim?”

Joguei minha bolsa na cadeira.

“Aquele homem é impossível.”

Os olhos dela se acenderam. “Então você falou com ele.”

“Eu te odeio.”

“Isso quer dizer que sim.”

Tirei os sapatos com os pés e fui até a janela, andando de um lado para o outro.

Lá fora, a Universidade Blackthorn parecia quase tranquila sob o céu do entardecer. Os estudantes atravessavam o campus enrolados em casacos, enquanto o vento frio sacudia as árvores.

Paz do lado de fora.

Caos do lado de dentro.

Zara se endireitou na cama. “Me conta tudo.”

“Não.”

“Lena.”

“Ele recusou a entrevista.”

“Só isso?”

“Isso já devia bastar.”

A expressão dela gritava mentirosa.

Soltei um gemido.

“Tá bom”, resmunguei. “Ele foi grosseiro. Arrogante. Insuportável.”

“E?”

“E o quê?”

“Você está omitindo alguma coisa.”

Virei o rosto.

Infelizmente, Zara me conhecia bem demais.

“Você está corando.”

“Não estou.”

“Meu Deus.” Ela quase pulou da cama. “Está sim.”

O calor subiu imediatamente para o meu rosto.

“Estou irritada”, corrigi.

“Aham.”

“Ele me ameaçou.”

Isso a calou.

Por uns dois segundos.

“Como ele te ameaçou?”

Hesitei.

Porque, tecnicamente... ele não tinha ameaçado.

Não exatamente.

Ele tinha me avisado.

E, de algum jeito, aquilo pareceu pior.

“Ele disse que eu devia tomar cuidado.”

Zara franziu a testa.

“Isso parece assustador.”

“E foi.”

“Você contou para a segurança do campus?”

Lancei a ela um olhar sem expressão.

“Contar o quê?”, perguntei. “Que ele é emocionalmente perturbador?”

Ela riu.

Mas a verdade era que eu não tinha me sentido em perigo.

Essa era a parte estranha.

Intimidada?

Com certeza.

Inquieta?

Definitivamente.

Mas em perigo?

Não.

E eu odiava admitir isso para mim mesma.

Meu celular vibrou.

Peguei-o rápido.

Mason.

Meu peito apertou.

Atendi na mesma hora.

“Oi.”

A voz do meu irmão soou cansada. “Você está ocupada?”

“Não.”

“Ótimo. Passa aqui amanhã.”

Simples.

Direto.

Esse era o Mason ultimamente.

“Está tudo bem?” perguntei com cuidado.

“Tá.”

O que geralmente queria dizer que não.

Fui devagar até a escrivaninha.

“O que houve?”

Silêncio.

Então:

“Só vem aqui.”

A ligação terminou.

Fiquei olhando para a tela.

Zara me observava com atenção. “Seu irmão?”

Assenti.

“Ele está bem?”

“Não sei.”

E, de repente, um pensamento incômodo surgiu.

E se Kane tivesse mandado eu perguntar ao Mason por que aquilo não era sem importância?

Não.

De jeito nenhum.

Eu me recusava a deixar Kane Ravenwood se infiltrar tanto assim nos meus pensamentos.

Eu precisava dormir.

Na manhã seguinte, o ar cheirava a café e más decisões.

Encontrei Mason no apartamento dele, fora do campus.

Ele abriu a porta vestindo calça de moletom e exaustão.

Três anos atrás, meu irmão tinha sido uma das maiores estrelas do hóquei em Blackthorn.

Agora?

Ele parecia mais velho do que vinte e quatro anos.

O apartamento dele parecia silencioso demais.

Vazio demais.

“Você está péssimo”, eu disse.

“Bom dia para você também.”

Mesmo assim, eu o abracei.

Por um segundo, ele me abraçou de volta com força.

Então se afastou.

“Café?”

“Claro.”

O apartamento dele ainda guardava pedaços do velho Mason.

Troféus de hóquei.

Fotos emolduradas.

Um pôster dos Ravens enfiado, meio escondido, atrás de uma estante.

Fantasmas por toda parte.

Sentei no balcão da cozinha enquanto ele servia café.

“Você nunca disse por que me ligou.”

Ele me entregou uma caneca.

“Vi uma coisa na internet.”

Franzi a testa.

“O quê?”

A expressão dele escureceu.

“Kane.”

Claro.

Meu estômago se contraiu.

“O que tem ele?”

“Aquele vídeo da briga.”

Eu me apoiei no balcão. “O campus está obcecado com isso.”

Mason ficou em silêncio.

Silencioso demais.

Então:

“Você tem andado pela arena ultimamente?”

A pergunta me surpreendeu.

“Trabalho para o jornal da faculdade.”

O maxilar dele se contraiu.

“Não quero você perto dele.”

Aí estava.

A tensão de sempre.

“Mason—”

“Estou falando sério.”

“Ele não vai me assassinar.”

“Não é isso que eu quero dizer.”

A voz dele ficou mais cortante.

Fiquei encarando-o.

“Você odeia mesmo ele.”

Mason desviou o olhar.

O silêncio se estendeu.

Então ele disse, baixinho:

“Você não conhece ele.”

Engraçado.

Kane tinha dito quase a mesma coisa sobre o meu irmão ontem.

Algo desconfortável se retorceu dentro de mim.

“O que aconteceu entre vocês dois?”

Os ombros dele se enrijeceram na mesma hora.

“Nada.”

“Isso não é verdade.”

“É complicado.”

Pousei a caneca.

“Você sempre diz isso.”

“Porque é.”

“Não.” Minha frustração escapou. “Você diz isso para não ter que explicar.”

Mason esfregou o rosto, cansado.

“Lena…”

“Ele me conhecia.”

Isso chamou a atenção dele.

“Ele sabia quem eu era.”

A expressão dele mudou.

Quase nada.

Mas o suficiente.

“O que ele disse?”

“Que eu sou a irmã de Mason Hart.”

Silêncio.

E, de repente, eu odiei isso.

Porque as pessoas não reagiam assim por nada.

“Você ainda não me disse por que odeia ele”, falei.

Mason encarou o café em suas mãos.

Então:

“Eu nunca disse que odiava ele.”

Pisquei.

“O quê?”

O maxilar dele voltou a se contrair.

“Eu disse para você ficar longe dele.”

“Isso é basicamente a mesma coisa.”

“Não.” Ele finalmente ergueu os olhos. “Não é.”

A resposta me confundiu mais do que ajudou.

Antes que eu pudesse insistir, o celular dele vibrou.

Ele checou a tela.

A expressão inteira dele se endureceu.

“O quê?”

“Nada.”

“Você está fazendo isso de novo.”

“Fazendo o quê?”

“Se fechando.”

Ele enfiou o celular no bolso.

“Deixa isso pra lá.”

Cruzei os braços.

“Não.”

A paciência dele acabou primeiro.

“Eu disse para deixar isso pra lá, Lena.”

A aspereza me assustou.

Ficamos nos encarando.

Então a culpa atravessou o rosto dele.

Ele soltou o ar.

“Desculpa.”

Desviei o olhar.

“Eu não sou criança.”

“Eu sei.”

“Então para de me tratar como se eu fosse.”

A voz dele suavizou.

“Estou tentando te proteger.”

As palavras ficaram estranhas entre nós.

Me proteger de quê?

Antes que eu pudesse perguntar—

Uma batida forte soou na porta do apartamento.

Mason congelou.

Não nervoso.

Pior.

Tenso.

Ele foi até a porta, e eu o segui.

“Quem é?” ele chamou.

Nenhuma resposta.

Outra batida.

Lenta.

Pesada.

Algo gelado escorreu pela minha espinha.

Mason abriu a porta.

E meu estômago despencou.

Kane Ravenwood estava do lado de fora.

Moletom preto.

Mãos nos bolsos.

Olhos cinzentos, indecifráveis.

Por um longo segundo, ninguém falou.

Então Kane olhou por cima do meu irmão—

—e diretamente para mim.

A expressão dele não mudou.

Mas algo perigoso se instalou no ar.

A voz de Mason ficou dura.

“O que você está fazendo aqui?”

Kane manteve os olhos em mim.

“Precisamos conversar.”

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo