Capítulo 5 Capítulo 5

Kane

Mason Hart parecia querer bater a porta na minha cara.

E eu não o culparia.

O corredor do lado de fora do apartamento dele cheirava a tinta velha e chuva. enfiei as mãos mais fundo nos bolsos do moletom e mantive a expressão vazia.

Porque, se eu parecesse tão irritado quanto me sentia, essa conversa terminaria mal.

Mason estava parado na porta, bloqueando a entrada.

“O que você está fazendo aqui?”, ele repetiu.

Atrás dele, Lena me encarava com uma incredulidade escancarada.

Sinceramente?

Essa parte complicava as coisas.

Eu não esperava que ela estivesse aqui.

Ou talvez esperasse.

Eu já não tinha mais certeza.

“Precisamos conversar”, eu disse.

O maxilar de Mason travou.

“Não precisamos.”

“Precisamos, sim.”

A risada dele não tinha humor nenhum.

“Esse trem já partiu há anos.”

A tensão engrossou na mesma hora.

Lena olhou de um para o outro como se tivesse entrado sem querer numa guerra que já estava em andamento.

Ótimo.

Talvez agora ela parasse de achar que o passado tinha sido simples.

“O que está acontecendo?”, ela perguntou.

Nenhum de nós respondeu.

Mason avançou mais para a porta. “Vai embora.”

Eu olhei para ele.

Depois para o hematoma escondido perto do pulso.

Recente.

Meu humor escureceu.

“Você está ignorando as ligações”, eu disse.

“E daí?”

“Você faltou à reabilitação.”

Lena piscou.

“Reabilitação?”, ela repetiu.

Mason me lançou um olhar assassino.

Eu o ignorei.

Porque, agora, constrangimento era o menor dos problemas dele.

“Isso não é da sua conta”, ele disse.

“Tudo que envolve o time vira da minha conta.”

“Eu não faço mais parte do seu maldito time.”

As palavras ecoaram pelo corredor.

O silêncio veio em seguida.

E ali estava de novo.

Aquela velha raiva.

Do tipo sobre a qual nenhum de nós jamais falou direito.

Lena cruzou os braços.

“Alguém quer me explicar o que está acontecendo?”

Mason respondeu primeiro.

“Nada.”

Quase revirei os olhos.

O mesmo Mason de sempre.

Sangrando e ainda fingindo que não estava machucado.

Lena parecia irritada.

“Essa está virando a resposta favorita de todo mundo ultimamente.”

“Você devia entrar”, Mason disse a ela.

“Não.”

A expressão dele endureceu. “Lena...”

“Não”, ela repetiu. “Estou cansada de ver as pessoas agindo de forma estranha toda vez que o nome dele aparece.”

Os olhos dela pousaram em mim.

“Você apareceu no apartamento do meu irmão sem ser convidado.”

“Correto.”

“Por quê?”

Porque alguém estava seguindo Mason.

Porque ele tinha parado de responder às mensagens.

Porque problemas antigos não ficam enterrados para sempre.

Mas nada disso dizia respeito a ela.

Ainda não.

“Mason sabe por quê.”

O olhar dela se estreitou.

“Eu odeio quando você faz isso.”

“Faço o quê?”

“Fala como se estivesse escondendo segredos de Estado.”

Quase sorri.

Quase.

Mason passou a mão pelo rosto.

“Só vai embora, Kane.”

Eu o observei com atenção.

Ele parecia exausto.

Pior do que no mês passado.

Estava claro que a recuperação da lesão não estava indo bem.

“Se você faltar à reabilitação de novo”, eu disse em voz baixa, “o técnico Donovan vai ser avisado.”

Os olhos dele faiscaram.

“Você está me ameaçando?”

“Não.”

Fiz uma pausa.

“Estou te avisando.”

De repente, Lena deu um passo à frente.

“Espera aí.” A voz dela ficou mais afiada. “Você ainda fala com ele?”

Mason enrijeceu.

Eu fiquei em silêncio.

A confusão dela aumentou.

“Você me disse que não tinha mais nada a ver com hóquei.”

“E não tenho”, Mason disse depressa.

“Isso é mentira.”

Os dois olharam para mim.

Eu não gostava exatamente de expor as pessoas.

Mas odiava mentiras ainda mais.

“Ele ainda trabalha com o programa de reabilitação médica ligado à arena”, eu disse.

Lena se virou devagar para o irmão.

“Você nunca me contou isso.”

Mason parecia encurralado.

“É temporário.”

“Quão temporário?”

Ele não respondeu.

O silêncio já disse o suficiente para ela.

Observei as emoções atravessarem o rosto dela.

Confusão.

Frustração.

Traição.

E a culpa me atingiu de forma inesperada.

Não por causa de Mason.

Porque ela parecia magoada.

Mason soltou o ar com força.

“Dá para a gente não fazer isso?”

“Não”, Lena disse. “Pelo visto, deve dar, sim.”

Dei um leve passo para trás.

Essa não era a minha briga.

Só que, de algum jeito, sempre acabava virando.

Mason lançou um olhar fulminante para mim.

“Está feliz?”

“Nem um pouco.”

De repente, o corredor do prédio pareceu menor.

História demais espremida num só espaço.

Lena olhou de um para o outro de novo.

— O que aconteceu entre vocês dois?

Ninguém falou.

Porque a resposta de verdade era complicada.

E perigosa.

Então os olhos dela pousaram em mim.

— Você disse que eu devia perguntar a ele por quê.

Eu me lembrei.

Claro que me lembrei.

Cada palavra que ela tinha dito ontem ficou grudada em mim mais do que deveria.

Mason virou o rosto bruscamente na minha direção.

— Você falou de mim?

— Ela fez perguntas.

— E você respondeu?

— Quase nada.

O maxilar dele se contraiu.

Lena percebeu.

— Então tem alguma coisa.

— Não tem nada — disse Mason.

Eu olhei para ele.

Então falei, com calma:

— Você realmente quer continuar mentindo pra ela?

A expressão dele esfriou.

— Kane.

Movimento errado.

Ele usou meu nome como um aviso.

E, de repente, Lena parecia mais confusa do que irritada.

— Vocês dois agem como pais divorciados — murmurou ela.

Eu quase ri com isso.

Mason não.

— Chega — retrucou ele.

O celular dele vibrou de novo.

Dessa vez, notei o jeito como o rosto dele perdeu a cor.

Nada bom.

Ele olhou a tela e a bloqueou imediatamente.

Tarde demais.

Eu já tinha visto o número.

O mesmo contato desconhecido.

O mesmo de antes.

Meu humor despencou.

Lena percebeu a reação dele.

— O que foi?

— Nada.

Ela soltou um gemido de frustração.

— De novo esse papo de nada...

— Eu disse pra deixar isso pra lá.

A aspereza na voz dele fez Lena se encolher.

E alguma coisa dentro de mim reagiu na mesma hora.

Não foi raiva.

Foi proteção.

Um instinto irritante.

Mason percebeu isso também.

Os olhos dele se estreitaram.

E, de repente, o ar mudou.

— Você devia ir embora — ele me disse.

Eu permaneci onde estava.

— Você sabe que eles estão procurando de novo.

Lena congelou.

— O quê?

Mason empalideceu.

— Para de falar.

— Você acha que ignorar isso vai consertar alguma coisa?

— Eu disse pra parar.

A voz dele saiu mais alta dessa vez, falhando no final.

Lena olhou de um para o outro.

— Quem está procurando?

Ninguém respondeu.

A chuva tamborilava de leve contra a janela do corredor.

Eu olhei para Mason.

Ele olhou de volta.

Uma história antiga pairava entre nós como vidro quebrado.

Então Lena falou baixinho.

— Quer saber? — A voz dela tremia um pouco. — Cansei.

Ela pegou a bolsa da cadeira da cozinha.

— Eu faço perguntas e ninguém me conta nada.

— Lena... — Mason começou.

— Não.

Os olhos dela se voltaram para mim.

E, de algum jeito, aquilo pareceu pior.

— Principalmente você.

Sustentei o olhar dela.

Justo.

Ela passou por nós em direção à saída do corredor.

No segundo em que roçou em mim, senti baunilha de novo.

O mesmo cheiro da arena.

A mesma consciência idiota.

Ela parou na metade do corredor e se virou.

— Se isso envolve a mim ou à minha família — disse ela, tensa —, eu mereço a verdade.

Então foi embora.

O silêncio veio em seguida.

A porta do apartamento continuou aberta.

A chuva continuava caindo lá fora.

Mason parecia exausto.

— Você não devia ter vindo.

— Alguém está seguindo vocês.

A expressão dele escureceu.

— Você acha que eu não sei disso?

— Você acha que manter ela no escuro ajuda?

A risada dele soou amarga.

— Agora você realmente se importa com honestidade?

Isso acertou mais forte do que eu esperava.

Porque talvez eu merecesse ouvir aquilo.

Talvez mais do que ele imaginava.

Olhei para o corredor vazio por onde Lena tinha desaparecido.

— Ela já está envolvida — eu disse.

— É exatamente isso que me assusta.

Algo gelado se instalou no meu peito.

Mason me encarou por um longo momento.

Então disse, em voz baixa:

— Você precisa ficar longe dela.

As palavras me irritaram na mesma hora.

Enfiei as mãos nos bolsos.

— Essa decisão não é sua.

A expressão dele mudou.

E, de repente, ele parecia cansado em vez de bravo.

— Você ainda carrega culpa.

Não respondi.

— Você acha que proteger ela conserta o que aconteceu.

Ainda assim, não respondi.

Porque culpa não era uma coisa que se consertava.

Você carregava.

Todos os dias.

Mason olhou para o corredor também.

— Ela te odeia — disse ele.

Eu sabia.

Eu devia ter ido embora naquele momento.

Devia ter dado as costas e ficado fora disso.

Em vez disso, ouvi a mim mesmo perguntar:

— Pra onde ela foi?

Mason me olhou como se já se arrependesse de ter aberto a porta.

E, sinceramente?

Isso fazia de nós dois.

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