Capítulo 6 Capítulo 6
Lena
Eu não sabia o que me irritava mais.
O fato de Kane ter aparecido no apartamento do Mason como se fosse o dono—
Ou o fato de eu ter ido embora antes de conseguir respostas.
O vento gelado estapeou meu rosto enquanto eu atravessava o campus.
Blackthorn parecia diferente quando você estava com raiva.
Os prédios antigos de tijolo pareciam mais pesados.
Os caminhos pareciam mais longos.
E cada estudante rindo, de repente, passava a irritar.
Meu celular vibrou.
Zara:
Você sumiu. Tá viva?
Respondi na hora.
Eu:
Por pouco.
Três pontinhos apareceram.
Zara:
Esse tipo de drama geralmente vira fofoca. Me encontra no Ash Café.
Sinceramente?
Um café parecia necessário.
—
O Ash Café ficava perto do prédio de jornalismo.
Luzes quentes.
Mesas cheias.
Música baixa o bastante para dar pra ignorar.
Encontrei Zara já esperando com duas bebidas.
Ela me olhou uma vez e endireitou a postura.
“Foi tão ruim assim?”
Eu me joguei na cadeira.
“Sabe de uma coisa?”, eu disse. “Eu oficialmente cansei de homens misteriosos e segredos emocionais.”
As sobrancelhas dela se ergueram.
“Kane?”
“E o Mason.”
Isso a surpreendeu.
“O que o seu irmão fez?”
Esfreguei a testa.
“Eu nem sei.”
E esse era o problema.
Contei tudo pra ela.
Ou quase tudo.
Kane aparecendo.
A discussão.
Mason agindo estranho.
As ligações.
O jeito como os dois ficavam rodeando a verdade em vez de dizerem de uma vez.
Zara ouviu com atenção.
Então se recostou.
“Tá.”
“Tá o quê?”
“Definitivamente aconteceu alguma coisa entre eles.”
“Não me diga.”
“E parece sério.”
Fiquei olhando para o meu café.
“É isso que me assusta.”
Porque Mason nunca agiu assim.
Protetor?
Claro.
Reservado?
Sempre.
Mas tenso?
Cheio de segredos?
Isso parecia novo.
Ou talvez não fosse novo.
Talvez eu só tivesse ignorado por tempo demais.
“Você acha que Kane sabe de alguma coisa?”, Zara perguntou.
Olhei para a janela do café.
Lá fora, a neve ameaçava cair.
Nuvens cinzentas, baixas, pesadas.
“Acho que ele sabe demais.”
E, de algum jeito, isso me incomodava mais do que deveria.
Porque Kane Ravenwood agia como alguém carregando uma história que não queria ver mexida.
E, estupidamente—
Uma parte de mim queria saber o porquê.
Zara abriu um sorriso de repente.
Eu estreitei os olhos.
“Por que você tá sorrindo?”
“Você fica dizendo o nome completo dele.”
“O quê?”
“Kane Ravenwood.”
“E daí?”
“Isso geralmente significa que você tá pensando em alguém.”
Quase engasguei com o café.
“Não.”
“Ah, isso é maravilhoso.”
“Eu te odeio.”
“Você não me odeia.” Ela apontou o canudo pra mim, dramática. “Você odeia ele.”
E talvez ela tivesse razão.
Porque ódio parecia mais seguro.
Mais seguro do que admitir que Kane me deixava inquieta.
Mais seguro do que admitir que a voz dele continuava repetindo na minha cabeça.
Mais seguro do que lembrar o quão perto ele ficou ontem.
Eu empurrei o pensamento para longe.
Meu celular vibrou de novo.
Número desconhecido.
Franzi a testa.
Desconhecido:
Pare de fazer perguntas.
Meu estômago despencou.
Encarei a tela.
“O quê?”, Zara perguntou.
Mostrei pra ela.
A expressão dela mudou na hora.
“Isso não tem graça.”
“Eu sei.”
Outra mensagem chegou.
Desconhecido:
Alguns segredos ficam enterrados por um motivo.
Um frio percorreu meu corpo.
Por um segundo, eu só fiquei ali sentada.
Então Zara agarrou meu pulso.
“Bloqueia.”
Olhei de novo.
Sem foto.
Sem nome.
Só a mensagem.
E, de repente, o rosto do Mason lampejou na minha mente.
Você não conhece ele.
Aí Kane:
Você devia ter cuidado.
Meu peito apertou.
“Provavelmente é uma brincadeira”, eu disse.
Mas nem eu soei convencida.
Zara parecia inquieta.
“Lena…”
“Eu tô bem.”
“Você não tá com cara de bem.”
Forcei um sorriso.
“Parabéns. Você tem olhos.”
Ela não riu.
E, sinceramente?
Nem eu.
—
No fim da tarde, o tempo tinha virado de vez.
Vento.
Neve fraca.
As luzes do campus brilhando contra o céu escuro.
Eu devia ter voltado pro dormitório.
Em vez disso, segui na direção do prédio de jornalismo.
Porque se distrair parecia melhor do que pensar demais.
O corredor do andar de cima estava quase vazio.
A maioria dos estudantes já tinha ido embora.
Empurrei a porta da sala do jornal e encontrei o professor Bennett organizando papéis.
Ele ergueu o olhar.
— Hart.
— Por favor, me diga que o senhor tem trabalho pra mim.
Ele ajustou os óculos.
— Você parece estressada.
— Trabalho, professor.
Um sorrisinho.
— Talvez eu tenha alguma coisa.
Ele me entregou uma pasta.
— Matéria de campus.
Passei os olhos pelos papéis.
Então congelei.
Meu humor azedou na hora.
— Nem pensar.
Ele pareceu divertido.
— É uma tarefa simples.
— É hóquei.
— E?
— É dos Ravens.
— O jornal dos alunos também cobre esportes.
Larguei a pasta em cima da mesa.
— O senhor está fazendo isso de propósito.
— Você ainda não entrevistou o Ravenwood.
Claro.
Cruzei os braços.
— Ele se recusa.
— Isso é uma pena.
— O senhor me mandou falar com um iceberg humano.
O sorriso dele aumentou.
— Jornalistas persistentes conseguem resultados.
Encarei-o.
Depois soltei um suspiro.
— Eu odeio a vida acadêmica.
— Amanhã — ele disse, calmo. — Dia de imprensa do time.
Meu estômago afundou.
— Não.
— Sim.
— Professor—
— Você quer recomendações de editor sênior? — A voz dele continuou gentil. — Faça por merecer.
Eu odiava quando adultos tinham razão.
Ele me devolveu a pasta.
— Sala de imprensa. Meio-dia.
Ótimo.
Maravilhoso.
Saí da sala me sentindo pior.
E com mais frio.
O prédio de jornalismo dava para uma passarela lateral estreita que levava ao estacionamento do campus.
Normalmente era seguro.
Normalmente era movimentado.
Hoje à noite?
Quieto demais.
Minhas botas rangiam de leve na neve.
O vento puxava meu casaco.
E, na metade do caminho até o estacionamento—
Percebi passos.
Lentos.
Atrás de mim.
Eu me virei.
Nada.
Só escuridão.
Meu pulso acelerou.
Não seja dramática.
Provavelmente era outro estudante.
Continuei andando.
Os passos voltaram.
Mais perto.
Apertei a alça da bolsa.
Virei de novo.
Ainda ninguém.
Agora meu coração parecia estupidamente alto.
As mensagens desconhecidas, de repente, já não pareciam tão engraçadas.
Levei a mão ao celular—
E uma sombra se mexeu perto da entrada do estacionamento.
Parei.
Minha respiração travou.
Uma figura estava parcialmente escondida perto do muro de concreto.
Homem.
Alto.
Observando.
O medo subiu pela minha espinha.
— Alô? — chamei.
Sem resposta.
A figura deu um passo à frente.
Meu estômago despencou.
E antes que eu pudesse reagir—
Uma segunda sombra apareceu atrás dele.
Então uma voz familiar cortou a escuridão.
— Que porra você está fazendo?
O primeiro homem enrijeceu.
Virei bruscamente.
Kane.
Jaqueta preta.
Neve salpicando os ombros.
Olhos cinzentos frios o bastante para congelar sangue.
O estranho recuou na mesma hora.
Rápido demais.
Como se reconhecesse encrenca.
Kane deu um passo à frente.
O homem sumiu em direção à saída do estacionamento sem dizer uma palavra.
O silêncio veio pesado.
Flocos de neve deslizavam entre nós.
Eu encarei o rastro do estranho.
Depois Kane.
Meu pulso ainda disparado.
— O que—
— Você não deveria estar aqui sozinha.
A voz dele soou calma.
Calma demais.
A raiva chegou antes da gratidão.
— Você está me seguindo?
O maxilar dele se retesou.
— Não.
— Então por que você está aqui?
O olhar dele desviou por um instante para onde o homem tinha desaparecido.
Depois voltou para mim.
— Treino.
A arena ficava ali perto.
Certo.
Mesmo assim—
Alguma coisa parecia errada.
Minha voz ficou mais cortante.
— Quem era aquele?
— Não sei.
— Está mentindo.
A expressão dele continuou indecifrável.
— Você acha que todo mundo mente.
— Você não me deu muitos motivos pra eu achar o contrário.
Por um segundo, nenhum de nós se mexeu.
A neve pousou de leve no cabelo escuro dele.
E, irritantemente—
Ele estava bonito demais ali parado.
Eu odiei perceber isso na mesma hora.
— Você recebeu mensagens — ele disse.
Eu congelei.
Meu pulso tropeçou.
— Como você sabe disso?
Os olhos dele sustentaram os meus.
Então, baixinho—
— Porque o Mason também recebeu.
E, de repente, o frio já não parecia mais só o clima.
