Capítulo 1 Um boato pode acabar com tudo
A porcelana da caixa acoplada do vaso cravou na minha coluna através da minha blusa fina do uniforme.
Eu não estava me escondendo. Pelo menos, era essa a mentira que eu contava para mim mesma enquanto ficava perfeitamente imóvel no último box do banheiro feminino do terceiro andar. Eu só precisava de dez minutos de silêncio. Dez minutos em que as luzes fluorescentes da Crestview Preparatory Academy não estivessem me fuzilando lá de cima, e o peso esmagador do meu GPA perfeito não estivesse pousado bem no centro do meu peito.
Puxei os joelhos até o peito, deixando o azulejo frio atravessar minha saia xadrez. O banheiro cheirava a body splash barato de baunilha e ao ardor químico do desinfetante de limão. Normalmente ficava vazio durante a quarta aula. Normalmente.
O baque pesado e inconfundível da porta maciça de carvalho se abrindo ecoou pelos azulejos.
Prendi a respiração.
Saltos. Não os mocassins padrão da Crestview. Alguém tinha customizado o uniforme, o que significava alguém com dinheiro suficiente para ignorar o código de vestimenta sem sofrer consequências.
— Eu só estou dizendo, faz todo sentido.
A voz ricocheteou nos espelhos, estridente e escorrendo de certeza absoluta. Harper Vance. Meu estômago deu uma revirada lenta e nauseante.
— Não sei, Harper — respondeu uma segunda voz, mais suave, mas igualmente ansiosa. Chloe. — Tem certeza? É uma acusação enorme.
— Ah, por favor. — O som de água correndo assobiou na pia, seguido pelo rasgo agressivo de uma toalha de papel. — Pensa comigo. De que outra forma um caso de caridade do lado leste mantém um GPA de 4,2 enquanto trabalha nos fins de semana? Ninguém é tão inteligente assim, Chloe. Não sem ajuda.
Meus dedos se apertaram no tecido da minha saia. Caso de caridade. Elas estavam falando de mim.
— Você realmente acha que ela está dormindo com o Sr. Harrison? — A voz da Chloe baixou para um sussurro alto e teatral. — Ele tem, tipo, quarenta. E é casado.
O ar nos meus pulmões virou vidro. Apertei os olhos com força, pressionando os nós dos dedos contra a boca para não fazer nenhum som.
— Eu não só ouvi, eu praticamente vi — Harper zombou. A voz dela se aproximou dos espelhos. Eu conseguia imaginá-la se inclinando sobre as pias, passando aquele gloss rosa translúcido que ela usava todo dia. — A Sarah deixou a garrafa dela no sala de Cálculo AP ontem, depois da aula. Quando voltou para pegar, a porta estava trancada. Ela olhou pela janelinha da porta? A Raisa Petrova estava bem do lado da mesa do Harrison. Ele estava entregando para ela uma pasta parda grossa, e ela estava sorrindo para ele. Tipo, sorrindo mesmo.
— Uma pasta?
— As respostas da prova do meio do semestre, óbvio. E a Sarah disse que a gravata dele estava afrouxada. — Harper jogou a toalha de papel no lixo com um baque surdo. — É nojento. Ela literalmente está trocando favores pra manter a bolsa acadêmica. Isso invalida completamente a corrida pelo título de oradora da turma.
— Espera. — A voz da Chloe subiu, tomada de pânico. — Se ela está colando e ela pega o título de oradora da turma no seu lugar...
— Ela não vai. — O tom da Harper ficou chapado, despido de toda a doçura falsa de sempre. Era a voz de alguém segurando um fósforo sobre gasolina. — Minha mãe está no conselho da associação de pais e mestres. Eu já mandei mensagem pra ela com o que a Sarah viu. Até o último sinal tocar hoje, o Decano vai ter um relatório completo na mesa dele. Eles vão cortar a bolsa dela. Ela vai ser expulsa antes de sexta-feira.
Um zumbido agudo começou nos meus ouvidos, abafando o pinga-pinga constante da torneira vazando na pia ao meu lado.
Expulsa.
A palavra tinha gosto de cobre na minha boca. Minha bolsa de estudos não era só um pedaço de papel; era a minha vida inteira. Eram as horas que minha mãe passava pegando turnos extras na lanchonete só para pagar meus livros. Era o sono que eu deixava de lado, as festas a que eu nunca ia, a exaustão absoluta, entranhada nos ossos, com que eu convivia todos os dias para provar que eu pertencia a esses muros de tijolo cobertos de hera.
— Meu Deus, eu quase fico com pena dela — murmurou Chloe, embora não parecesse nem um pouco com pena.
— Não fique — Harper retrucou, ríspida. — Lixo sempre acaba se jogando fora sozinho. Anda, vamos nos atrasar para o francês.
A porta fez um clique ao abrir, gemeu pesado nas dobradiças e bateu com força ao se fechar.
O silêncio que veio depois foi sufocante.
Eu não me mexi por um bom tempo. Minhas mãos tremiam tanto que, quando finalmente estendi o braço para destrancar a porta da cabine, a tranca de metal chacoalhou alto contra o batente. Empurrei a porta e tropecei para fora, indo até a área principal do banheiro.
Apoiei as mãos no mármore frio das pias e levantei os olhos para o espelho.
A garota que me encarava de volta era um fantasma. Minha pele estava praticamente translúcida, destacando as olheiras escuras, quase arroxeadas, sob meus olhos castanhos. A gravata do uniforme estava perfeitamente alinhada, a gola, impecavelmente engomada. Eu tinha passado três anos construindo uma fortaleza intransponível de perfeição, para que ninguém naquela escola jamais pudesse me olhar de cima.
E, em uma conversa de dois minutos, Harper Vance tinha queimado tudo até o chão.
Dormindo com o Sr. Harrison. O absurdo daquilo fez uma risada oca, histérica, borbulhar na minha garganta. Eu tinha estado na sala dele ontem. Tinha ido pegar as folhas de exercícios de crédito extra que ele me pediu para corrigir porque sabia que eu precisava das horas de serviço comunitário. Ele tinha me entregado uma pasta. Eu tinha sorrido e agradecido.
Mas a verdade não importava em Crestview. Fofoca era a única moeda que tinha algum valor de verdade. Se a mãe de Harper fosse falar com o reitor, eles abririam uma “investigação”. Olhariam para minhas notas perfeitas e para minhas reuniões repentinas e discretas com professores, e distorceriam tudo. A administração não correria o risco de um escândalo com as famílias que mais pagavam. Iriam me pedir, discretamente, que eu saísse, para evitar a má repercussão.
Agarrei a borda da pia até os nós dos meus dedos ficarem de um branco duro.
Eu não podia simplesmente negar. Uma negativa da garota pobre contra a garota rica era uma batalha perdida. Eu precisava de prova de que a minha atenção estava em outro lugar. Eu precisava de um álibi tão incontestável, tão completamente distrativo, que a ideia de eu sequer olhar duas vezes para um professor de cálculo de meia-idade se tornasse a coisa mais idiota que alguém já tinha ouvido.
Eu precisava que a escola olhasse para mim e visse outra coisa completamente diferente.
Afastei-me da pia, pegando minha mochila pesada do chão. A alça afundou no meu ombro, me ancorando. O zumbido nos meus ouvidos foi diminuindo devagar, substituído pela batida constante e frenética do meu próprio coração.
Eu não tinha capital social. Não tinha pais ricos para ameaçar o conselho da escola.
Mas eu tinha lógica. E, logicamente, um escândalo só podia ser enterrado por um escândalo maior.
Empurrei a pesada porta de carvalho e saí para o corredor vazio, banhado de sol. O último sinal do dia estava a exatamente quatro horas de distância. Eu tinha quatro horas para encontrar um escudo.
