Capítulo 2 Ninguém está do meu lado
O sinal do quarto período ecoou pelo corredor. Eu estava parada do lado de fora do banheiro feminino, com as costas pressionadas contra a parede fria de blocos de concreto pintados. O corredor se transformou num instante, de um túnel vazio e ecoante, em um rio sufocante de blazers azul-marinho e saias xadrez.
O ar ficou pesado. Cheirava a cera de chão, desodorante em aerossol e ao perfume intenso e caro de baunilha que metade das alunas do último ano usava. Armários batiam ao fechar. Tênis rangiam no linóleo. Risadas ricocheteavam no teto, agudas e cortantes. Mantive os olhos fixos nas pontas gastas dos meus mocassins pretos, desejando que meu coração parasse de martelar contra as costelas.
Eu precisava saber até onde o veneno tinha se espalhado. Me afastei da parede e entrei na multidão, mantendo a cabeça baixa, mas os ouvidos atentos. Cada sussurro parecia uma agulha.
"Você viu..."
"...foi um desastre total na..."
"...ouvi dizer que ela..."
Meus ombros se encolheram até perto das orelhas. Mais à frente, avistei Jenna, uma garota com quem eu às vezes dividia anotações em Biologia AP. Não éramos amigas, não de verdade, mas sobrevivíamos juntas às aulas de laboratório. Ela estava perto do bebedouro, fechando a bolsa com o zíper. Caminhei na direção dela, com a garganta apertada, desesperada por uma interação normal. Só um único fio de normalidade para provar que meu mundo não estava realmente desmoronando.
"Oi, Jenna", eu disse. Minha voz saiu fina, áspera, como se tivesse sido raspada até ficar em carne viva.
Jenna ergueu os olhos. Por uma fração de segundo, eles se arregalaram. Foi uma microexpressão, um recuo mínimo, mas, no ecossistema social de Crestview Prep, era uma sirene. O olhar dela foi do meu rosto até um grupo de garotas cochichando perto da vitrine de troféus, então voltou para mim.
"Ah. Oi, Raisa." Ela segurou a alça da mochila, os nós dos dedos pálidos. Não esboçou um sorriso. Não perguntou da lição de casa. Deu meio passo para trás, colocando uma distância física clara entre nós. "Eu, hum, tenho que ir para o refeitório. Grupo de estudo."
Ela se virou e foi embora às pressas antes que eu pudesse responder.
Meu estômago afundou, deixando para trás um vazio gelado e dolorido. Ela sabia. Ou, pelo menos, tinha ouvido o suficiente para saber que ficar ao meu lado era um risco. Contágio social. Se ficasse perto demais, o rumor também a contaminaria.
Eu não fui para o refeitório. Não conseguia suportar a ideia de me sentar sob aquelas luzes fluorescentes fortes, cercada por centenas de pares de olhos me dissecando. Em vez disso, fui para a biblioteca.
A biblioteca ficava no segundo andar, uma sala enorme com tetos abobadados e fileiras de estantes imensas de mogno. Cheirava a papel envelhecido, partículas de poeira e ao leve aroma amargo de café preto vindo da mesa da bibliotecária. Era o meu santuário.
Encontrei um cubículo vazio no canto mais afastado, protegido pela seção de referência. Deixei minha mochila pesada cair no chão acarpetado. Ela aterrissou com um baque pesado e sem vida. Afundei na cadeira de madeira e puxei uma folha em branco de fichário e uma caneta preta.
Controle de Danos. Escrevi as palavras no topo da página. A tinta se espalhou um pouco no papel.
Eu precisava de uma estratégia. Eu era uma aluna exemplar. Resolvia equações complexas. Analisava literatura clássica. Conseguia dissecar um sapo e mapear seu sistema nervoso. Eu podia resolver aquilo.
Tracei uma linha no meio da página.
Opção A: Contar a verdade.
Fitei as palavras. A verdade era que o Sr. Harrison tinha me entregado uma pasta com correções de trabalhos para ganhar pontos extras. A verdade era que eu estava sozinha na sala dele. A verdade era que Sarah, a espiã da Harper, viu exatamente o que disse que viu, mas interpretou completamente errado o contexto.
Quem corroboraria minha história? O Sr. Harrison. Mas, se a mãe da Harper fosse até o diretor, o Sr. Harrison entraria em pânico. Ele era um homem de meia-idade com uma hipoteca e uma esposa grávida. Se o conselho o acusasse de um relacionamento inapropriado com uma aluna, ele não me defenderia. Ele se afastaria. Diria que eu ficava depois da aula. Diria que eu o deixava desconfortável. Ele me jogaria aos lobos para salvar a própria carreira.
Risquei a Opção A com um traço grosso e escuro.
Opção B: Encontrar um aliado.
Mordi a parte de dentro da bochecha até sentir gosto de cobre. Quem? A Jenna tinha praticamente fugido de mim. Meus outros “amigos” eram só parceiros de estudo. A gente se unia por causa de fichas de revisão, não de segredos. Eles não podiam enfrentar Harper Vance. Harper tinha um fundo fiduciário; nós tínhamos passes de ônibus. Se eles me defendessem, a Harper destruiria eles também. Eu tinha zero capital social. Eu era um fantasma que só se materializava na lista de honra. Eu não podia pedir a ninguém que afundasse junto com o meu barco.
Risquei a Opção B. A ponta da caneta cavou o papel, rasgando um buraquinho na linha azul.
Meu peito foi apertando. O ar na biblioteca parecia rarefeito, como se as enormes saídas do ar-condicionado estivessem sugando o oxigênio da sala em vez de empurrar ar para dentro. Pressionei a base da mão contra o esterno, tentando esfregar aquela pressão para fazê-la ir embora.
Uma sombra caiu sobre a minha mesa.
Eu me sobressaltei, erguendo a cabeça de supetão.
Thomas, um aluno do penúltimo ano que ajudava a Sra. Gable, estava ali. Ele segurava um pequeno papelzinho rosa-neon. Os olhos dele evitavam os meus, fixos na lombada de um dicionário na estante ao meu lado.
— A Sra. Gable quer falar com você — murmurou Thomas, deslizando o papel rosa para cima da minha mesa. — Agora.
Ele não esperou resposta. Virou-se e foi embora rápido, o tênis fazendo um som macio no carpete.
Encarei o papel rosa-neon. Era uma convocação para a sala da orientadora.
Já estava acontecendo. A mãe da Harper tinha feito a ligação.
Minhas mãos começaram a tremer. Eu me obriguei a ficar de pé. Não guardei meu caderno; só deixei ali, com as opções arruinadas me encarando de volta. Peguei a mochila, joguei-a em um ombro e comecei a andar.
O caminho da biblioteca até a ala administrativa pareceu como avançar por água funda. O barulho ambiente da escola foi sumindo, virando um rugido surdo e constante nos meus ouvidos. Os cartazes brilhantes anunciando o Baile de Primavera, as vitrines cheias de troféus do time de debate, os pisos perfeitamente polidos — nada daquilo parecia real.
A ala administrativa era completamente diferente do resto da escola. Ali o chão era coberto por um carpete grosso, azul-marinho, que abafava os passos. A iluminação era mais suave, mais quente. O lugar cheirava a aromatizante caro e lustra-móveis de limão. Era tudo pensado para deixar pais ricos confortáveis enquanto escreviam cheques de doação.
Aproximei-me do balcão. A secretária nem levantou os olhos do monitor.
— Pode entrar, Raisa. Ela está esperando.
