Capítulo 3 Minha bolsa de estudos está em jogo

Caminhei até a porta marcada com Margaret Gable, Conselheira Sênior. Bati duas vezes. A madeira era maciça, pesada.

— Entre.

Empurrei a porta para abrir. O escritório da Sra. Gable estava sufocantemente quente. Um aquecedorzinho de ambiente zumbia sob a mesa dela, assando o cheiro do café de baunilha velho e o lavanda enjoativo do aromatizador na parede. Ela estava sentada atrás de uma mesa enorme, com tampo de vidro, as mãos cruzadas sobre uma pasta.

A minha pasta.

— Sente-se, Raisa — disse ela. A voz veio perfeitamente medida, sem nenhum traço de calor.

Abaixei-me na cadeira de couro à frente dela. O couro rangeu alto no silêncio do cômodo. Coloquei minha mochila no chão e entrelacei as mãos no colo, enfiando as unhas dos polegares nos indicadores para conter o tremor.

A Sra. Gable ajustou os óculos prateados de armação fina. Me encarou por um longo instante. Não era um olhar de preocupação. Era o olhar de alguém avaliando uma peça de propriedade danificada.

— Raisa, você é uma das nossas alunas mais brilhantes — começou, num tom suave e ensaiado. — Seu histórico acadêmico é impecável. No momento, você é a favorita para oradora da turma.

— Obrigada, Sra. Gable. — Minha voz saiu como um sussurro rouco. Limpei a garganta e tentei de novo. — Obrigada.

— No entanto — continuou, ignorando minha interrupção com facilidade —, a Crestview Academy espera mais dos seus alunos do que apenas notas altas. Esperamos um certo padrão de conduta. Um compromisso com a integridade da instituição.

Ela bateu a unha bem-feita na pasta.

— Acho que não entendi — menti. Mantive o rosto completamente neutro. Uma máscara de confusão educada.

— Chegou ao conhecimento da administração que talvez haja algumas... distrações... afetando seu julgamento. — A Sra. Gable recostou-se na cadeira, unindo as pontas dos dedos. — Sussurros. Rumores desagradáveis sobre suas interações com um membro do corpo docente.

As paredes do pequeno escritório pareceram se fechar. O cheiro de lavanda ficou sufocante, agarrando na parte de trás da minha garganta. Lutei contra a vontade de engasgar.

— Rumores são só rumores, Sra. Gable — eu disse, tentando manter a voz firme. — Eu nunca me comportei de maneira inadequada com ninguém nesta escola.

— Talvez não — ela concordou depressa demais. — Mas percepção é realidade em Crestview, Raisa. Quando o comportamento de uma aluna atrai esse tipo de escrutínio, isso reflete mal em todos nós.

Ela abriu a pasta. Lá dentro, vi meu contrato de bolsa de estudos. Os parágrafos densos de juridiquês que ditavam a minha sobrevivência.

— Vou ser perfeitamente clara — disse a Sra. Gable, abandonando o tom diplomático. Os olhos dela endureceram, duas lascas de sílex. — Sua bolsa é financiada por um fundo de ex-alunos. Aquele conselho exige que os beneficiários mantenham uma reputação impecável — academicamente e socialmente. Se houver sequer a sombra de um escândalo, se os pais dos alunos pagantes manifestarem desconforto com a sua presença aqui, o conselho vai cortar seu financiamento. Imediatamente.

O ar saiu dos meus pulmões de uma vez. Fiquei tonta, com a cabeça leve.

— Eu não fiz nada de errado — repeti, mas as palavras soaram fracas, patéticas.

— Isso é irrelevante — ela retrucou, num estalo baixo. — O que importa é o que as pessoas estão dizendo. E, neste momento, estão dizendo que você troca favores por notas. Se essa narrativa continuar, se isso chegar oficialmente à mesa do Diretor Acadêmico... eu não vou poder proteger você.

Ela fechou a pasta e a empurrou até o centro da mesa, bem na beirada, como se estivesse afastando de si o meu futuro.

— Você tem até o fim da semana para garantir que essa narrativa mude, Raisa. Você precisa provar para os alunos e, por extensão, para os pais deles, que esses rumores são totalmente infundados. Precisa mostrar que sua atenção está voltada para onde deve estar. Para alguém da sua idade.

Encarei-a.

— Você quer que eu...

— Quero que você conserte a sua imagem — ela interrompeu, a voz descendo para um sussurro áspero. — Dê um jeito de fazer com que eles olhem para outra coisa. Porque, se esse boato ainda estiver respirando na manhã de segunda-feira, você vai estar esvaziando o seu armário. Entendeu?

Uma pedra fria e pesada se acomodou no fundo do meu estômago. Ela não estava pedindo a verdade. Estava pedindo um espetáculo. Não importava se eu era inocente; só importava que eu ficasse quieta.

— Entendi — sussurrei.

— Ótimo. — A Sra. Gable esboçou um sorriso tenso, artificial. — Pode ir.

Eu me levantei. Minhas pernas pareciam de chumbo. Peguei a mochila, o peso puxando meu ombro para baixo. Virei e saí do escritório, pisando de volta no carpete azul-marinho grosso.

Andei pelo corredor como quem não enxerga. O sinal tocou para a quinta aula, mas eu não liguei. Empurrei as pesadas portas duplas que levavam ao pátio dos alunos, precisando de ar fresco antes de sufocar.

O sol do fim da manhã bateu no meu rosto, forte e cruel. O pátio estava quase vazio, exceto por alguns alunos matando aula perto das arquibancadas. O ar cheirava a terra úmida e grama cortada.

Desabei num banco de concreto sob um grande carvalho. Puxei os joelhos contra o peito, abraçando as pernas, tentando me manter inteira.

Dê um jeito de fazer com que eles olhem para outra coisa.

Eu precisava de uma distração. Eu precisava de uma mentira tão estrondosa que abafasse Harper Vance. Eu precisava que os alunos acreditassem que eu estava envolvida com outra pessoa. Alguém completamente incompatível com um professor de matemática de meia-idade.

Apertei os olhos, e uma única lágrima quente escapou e desceu pela minha bochecha. Eu a enxuguei com força, espalhando-a na pele. Eu não podia me dar ao luxo de chorar. Chorar era para quem tinha uma rede de segurança. Se eu caísse, não haveria nada para me amparar.

Eu precisava de um namorado.

Não de qualquer namorado. Eu precisava de alguém cuja reputação fosse mais barulhenta que a minha. Alguém que chamasse tanta atenção, tanto medo ou fascínio, que a escola inteira virasse o pescoço para olhar para ele em vez dos boatos sobre mim.

Abri os olhos, encarando sem foco a parede de tijolos do ginásio do outro lado do pátio.

Eu não tinha capital social nenhum. Ninguém da sociedade de honra ia me ajudar. Ninguém do grupo dos populares ia encostar em mim.

Mas havia uma pessoa em Crestview que existia completamente fora da hierarquia social. Alguém que não jogava pelas regras deles, que não ligava para as fofocas deles, e cujo próprio nome fazia as pessoas atravessarem o corredor para não passar perto.

Eu me levantei do banco, a pedra fria do desespero se solidificando no meu peito. Eu não sabia como ia fazer aquilo, mas sabia exatamente a quem eu tinha de pedir.

Eu só precisava torcer para que ele não risse na minha cara.

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