Capítulo 6 Entrei em seu território

As pesadas portas de vidro do prédio principal se fecharam atrás de mim, selando para longe o ar frio e climatizado da Crestview Prep. O sol do meio-dia bateu nos meus ombros como um peso físico, assando a lã azul-marinho do meu blazer. Fiquei parada na beirada do pátio de concreto, minha sombra se esticando fina e afiada sobre o pavimento. Minhas pernas pareciam feitas de areia úmida. Todo instinto que eu tinha, todo mecanismo de sobrevivência que construí ao longo dos últimos três anos, gritava para eu dar meia-volta. Ir para a cafeteria, abrir meu livro de Física AP e fingir que o chão não estava cedendo sob os meus pés.

Mas fingir não iria parar Margaret Gable. Fingir não iria impedir que a mãe de Harper Vance fizesse a ligação que arruinaria minha vida.

Eu forcei o pé direito para a frente. Depois o esquerdo.

Os campos esportivos ficavam no extremo oeste do campus, uma imensa extensão de verde perfeitamente aparado. Para chegar lá, eu precisava passar pelo gramado central onde os alunos se sentavam em rodas na grama, comendo saladas em potes de plástico e rindo. Mantive a cabeça baixa, o olhar fixo nos cadarços brancos impecáveis dos meus mocassins de uniforme. Se eu fizesse contato visual com alguém, eu perderia a coragem. Eu desmoronaria ali mesmo, na calçada.

Passei pelas quadras de tênis. O som das raquetes batendo em bolas verde-neon ecoava no ar úmido. O som foi ficando distante quanto mais eu caminhava, substituído pelo estalo da grama seca, amarelada, sob meus pés. Eu estava deixando para trás a versão curada, perfeita para foto, da Crestview. Os caminhos arrumadinhos de tijolos deram lugar a uma estrada de asfalto rachado que os jardineiros geralmente ignoravam.

O ar mudou. O cheiro de perfumes florais caros e de água sanitária da cafeteria se dissolveu. Aqui, o ar era pesado com o cheiro de piche quente, terra seca e o toque metálico de ferrugem.

As arquibancadas se erguiam à minha frente. Pela frente, eram só assentos para os jogos de futebol americano — fileiras de alumínio brilhante voltadas para o campo. Mas a parte de trás das arquibancadas era um ecossistema completamente diferente. Um espaço sombrio, cavernoso, feito de vigas de aço cruzadas e cercas de tela. Um ponto cego. Os seguranças não se davam ao trabalho de checar ali, e os professores fingiam que não existia. Era para lá que os alunos que não se importavam com o histórico escolar iam para matar o tempo.

Parei na borda da cerca de tela que separava a estrada de asfalto da terra sob as arquibancadas. Meus dedos se enrolaram no arame. Estava escaldante ao toque, assando sob o sol do meio-dia. Engoli em seco. O interior da minha boca parecia uma lixa.

As sombras sob as vigas de metal eram densas. Eu conseguia ver a brasa acesa de um cigarro na penumbra. Três caras estavam sentados em cima de uma caixa de transformador elétrico enferrujada a alguns metros de distância, rindo de alguma coisa que passava na tela rachada de um celular. Um deles soltou uma nuvem grossa de fumaça cinzenta. O cheiro acre e cortante de tabaco barato veio na minha direção, assentando amargo e pesado no fundo da minha garganta.

Vasculhei a escuridão. Meu pulso martelava um ritmo frenético e irregular contra a clavícula.

E então eu o vi.

Ryder Steinmann não estava sentado com o grupo na caixa de energia. Ele ocupava o próprio espaço, isolado perto do canto mais fundo e escuro entre as vigas de sustentação. Estava sentado no capô de um muscle car surrado, preto fosco, estacionado ilegalmente, metade sobre a terra rala e metade sobre uma placa de concreto rachado.

Ele tinha tirado a jaqueta de couro. Ela estava largada, amarrotada, sobre o para-brisa ao lado dele. Vestia uma camiseta cinza-chumbo desbotada, colada ao peito e aos ombros largos. As botas pesadas de combate descansavam no para-choque dianteiro do carro. Ele estava ligeiramente inclinado para trás, apoiando o peso do corpo nas palmas das mãos.

Na mão direita, segurava um isqueiro prateado.

Uma chama minúscula, de um laranja vivo, saltou à vida nas sombras, iluminando a linha marcada de sua mandíbula e o hematoma roxo-escuro que florescia sobre a maçã do rosto. Ele fechou a tampa com o polegar. A chama desapareceu.

Meu estômago afundou por completo. Ele não parecia um adolescente. Não parecia alguém preocupado com provas-surpresa ou redações para a faculdade. Sentado ali, na terra e nas sombras, com os nós dos dedos rachados e um hematoma recente no rosto, ele parecia perigoso. Parecia o tipo de problema que minha mãe sempre me avisou para atravessar a rua e evitar.

Fechei os olhos por uma fração de segundo. Imaginei minha mãe. Vi-a de pé atrás do balcão da lanchonete, o avental manchado de gordura, esfregando a lombar com um suspiro cansado. Lembrei exatamente do tom da voz dela quando abriu a carta da Crestview Prep três anos atrás, dizendo que minha mensalidade estava totalmente coberta. Este é o seu bilhete de saída, Raisa. Você vai sair daqui.

Se eu desse meia-volta agora, estaria jogando fora aquele bilhete. Estaria deixando garotas como Harper Vance vencerem só porque nasceram no CEP certo.

Soltei a cerca de arame quente. Passei as palmas úmidas e trêmulas pelas laterais da saia xadrez, tentando limpar o suor frio. Respirei fundo, enchendo os pulmões com o cheiro de terra e escapamento, e saí da luz do sol.

Entrei no covil do leão.

O cascalho rangeu alto sob meus mocassins. O som era ensurdecedor, ricocheteando nas arquibancadas de metal acima de mim.

Os três caras na caixa de energia pararam de rir na mesma hora. O vídeo no celular foi desligado. O cara que segurava o cigarro o abaixou, estreitando os olhos enquanto analisava minha aparência. Minha blusa branca engomada. Meu laço azul-marinho perfeitamente amarrado. A mochila pesada e prática pendurada no ombro direito.

Eu não pertencia àquele lugar. Eu era uma placa de néon brilhando numa viela completamente escura. Minha presença era uma invasão.

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