Capítulo 7 Ele já estava esperando por mim
“Tá perdida, playboy?” gritou o cara com o cigarro. A voz dele ecoou naquele espaço cavernoso. O tom não era amigável. Era um aviso para eu dar meia-volta.
Eu não olhei para ele. Eu não conseguia. Se eu quebrasse o foco, eu ia sair correndo. Mantive os olhos presos totalmente no carro preto. Em Ryder.
Ele não parou de brincar com o isqueiro, mas inclinou a cabeça só um pouquinho. Ele sabia que alguém estava se aproximando. A postura relaxada do corpo dele sumiu. Os músculos dos braços se contraíram, como cabos grossos esticados sob a pele.
Eu continuei andando. Cinco jardas. Três jardas. O cheiro de óleo de motor velho e ozônio ficou mais forte, misturando-se ao traço fraco e cortante de hortelã que eu lembrava da secretaria só vinte minutos atrás.
Parei a sessenta centímetros do para-choque dianteiro do carro dele.
Meu coração martelava frenético contra as costelas, um pássaro preso se atirando contra as grades de uma gaiola. Eu cerrei os dentes, mordendo com força a parte de dentro da bochecha até sentir o gosto metálico e agudo de sangue. A dor ajudou a dissipar a névoa de pânico na minha cabeça.
Ryder enfim parou com o isqueiro. A mão grande dele se fechou sobre o metal prateado, engolindo-o por inteiro. Ele não ergueu o olhar de imediato. Apenas ficou encarando os nós dos dedos, machucados e ralados, apoiados na coxa.
O silêncio se esticou entre nós, grosso, pesado e sufocante. Os caras sentados na caixa elétrica atrás de mim ficaram quietos como mortos. O único som era o ronco distante de um cortador de grama do outro lado do campus e o sangue correndo nos meus próprios ouvidos.
Obriguei minha garganta seca a funcionar.
— Com licença.
Minha voz saiu alta demais. Educada demais. Frágil demais. Era a voz da garota que levantava a mão na aula de História Avançada, não de uma garota ali na terra batida, negociando uma mentira.
Ryder levantou a cabeça devagar.
As sombras sob a arquibancada recortavam linhas profundas e duras no rosto dele. De perto, os estragos da briga no refeitório eram ainda mais óbvios. O lábio inferior estava rachado, uma linha fina de sangue seco marcando o canto da boca. Os olhos dele se fixaram nos meus.
Eram aquela mesma mistura alarmante de verde e dourado. Cacos de vidro. Não havia calor nenhum ali, nenhuma luz acolhedora. Ele me pregou no lugar com um olhar que parecia totalmente físico. A indiferença absoluta e pesada na expressão dele fez meu peito doer.
Ele não disse nada. Não perguntou o que eu estava fazendo ali. Só me olhou, deixando eu me afogar no silêncio, esperando eu quebrar.
Eu fechei as mãos em punhos apertados, cravando as unhas curtas na carne das palmas até a ardência me ancorar.
— Eu sei que você acabou de ser suspenso — comecei. As palavras saíram um pouco rápido demais, movidas pela adrenalina. — E eu sei que você não liga pra nada do que acontece lá dentro daquele prédio.
Apontei vagamente por cima do ombro, na direção do campus principal. O olhar de Ryder não acompanhou minha mão. Ele nem sequer piscou. Manteve os olhos completamente fixos no meu rosto, observando o pânico tremeluzir na minha expressão.
— Mas eu tenho uma proposta pra você — insisti, a voz ganhando um tom desesperado e áspero. — Um acordo. É... pode ser bom pros dois. Ou, pelo menos, eu posso fazer ser bom pra você. Eu só preciso que você me escute por dois minutos.
Uma gota de suor escorreu pela nuca, deslizando sob a gola engomada da minha blusa. O calor preso sob a estrutura de metal acima de nós era insuportável. Eu sentia como se não conseguisse puxar oxigênio suficiente para os pulmões.
Ryder se mexeu sobre o capô do carro. O metal rangeu num protesto grave, metálico, sob o peso dele. Ele se inclinou para a frente, apoiando os antebraços nos joelhos, encurtando a distância física entre nós. O movimento foi lento, calculado e inteiramente predatório.
Ele me examinou de cima a baixo. Não foi um olhar rápido. Foi uma avaliação lenta, agonizante. Observou minha postura rígida, o pulso frenético saltando visível na base da minha garganta, a força com que eu agarrava a barra da saia, os nós dos dedos esbranquiçados. Ele não me olhava do jeito que garotos adolescentes costumavam olhar para meninas. Não havia constrangimento, nem flerte fácil.
Ele me olhava como se eu fosse um quebra-cabeça que ele já tinha resolvido havia muito tempo.
Abri a boca seca para me apresentar. Para dizer meu nome, minha série, algum tipo de contexto para justificar por que a garota quieta da bolsa de estudos, do percurso de honra, estava ali, na terra, implorando pela atenção do maior pária da escola.
— Meu nome é...
— Raisa Petrova.
As palavras cortaram o ar pesado e úmido. A voz dele era baixa, áspera, coberta por uma camada de rouquidão.
Eu congelei. O ar escapou dos meus pulmões num suspiro brusco.
Encarei-o, a mente correndo para acompanhar. Eu nunca tinha falado com ele. Nem uma vez em todos os três anos em que frequentamos a Crestview Prep. Não tínhamos nenhuma aula em comum. Não existíamos no mesmo universo social. Eu era invisível, e ele era infame.
Ainda assim, meu nome saiu da boca dele com facilidade. Sem esforço. As sílabas soaram naturais na língua dele, como se ele estivesse incrivelmente acostumado a dizê-las.
Ele inclinou a cabeça, os olhos cor de avelã prendendo-se aos meus com uma intensidade súbita e cortante. Não havia confusão na expressão dele. Nenhuma surpresa por eu tê-lo encontrado no canto mais escuro e mais sujo do campus.
Os lábios dele se entreabriram, e um olhar sombrio, denso, de quem já sabia, se acomodou sobre o rosto machucado. Ele não parecia incomodado com a minha presença. Não parecia confuso.
Ele parecia estar me esperando.
