Capítulo 9 “O que eu ganho com isso?”
— Tem um boato — eu disse. As palavras tinham gosto de cinza. Eu odiava dizê-las em voz alta. Dizer aquilo para ele era como arrancar minha armadura e ficar completamente nua no frio.
Ryder não riu. Não pareceu achar graça. Apenas esperou, o olhar pesado e contundente exigindo o resto da verdade.
— Harper Vance começou isso — continuei, minha voz baixando para um sussurro áspero. — Ela disse à mãe dela que eu... que estou dormindo com o sr. Harrison para manter minha posição no ranking da turma.
Apertei os olhos por uma fração de segundo, incapaz de olhar para ele enquanto confessava a mentira feia e nojenta. O silêncio se estendeu. Esperei pelo deboche. Esperei que ele desse um sorrisinho, pedisse detalhes, fizesse uma piada vulgar às minhas custas. Era isso que os caras de Crestview faziam. Encontravam uma fraqueza e afundavam os dedos nela até sangrar.
— E está?
Meus olhos se abriram num estalo. Lancei um olhar fulminante para ele, um pico súbito e ardente de raiva genuína atravessando meu medo.
— Não! — retruquei, minha voz ecoando nas vigas de metal acima de nós. — Não, claro que não. Ele me entregou ontem uma pasta com correções de crédito extra, e Sarah viu pela janelinha da porta. Só isso. Essa é toda a base do boato. Mas não importa qual seja a verdade. A mãe da Harper ligou para a orientadora. Se eu não provar até segunda de manhã que o boato é completamente falso, o conselho de ex-alunos vai cortar minha bolsa. Eles vão me expulsar para evitar um escândalo.
Ryder absorveu a informação devagar. Pela primeira vez, desviou o olhar de mim, deixando-o cair para o concreto rachado sob os meus sapatos. Ergueu a mão, o polegar roçando distraidamente a pele partida e arroxeada do lábio inferior.
— Então diga a eles que ela está mentindo — ele disse, em tom neutro.
— Eu tenho zero capital social — rebati, minhas mãos se fechando em punhos ao lado do corpo. — Eu não tenho fundo fiduciário. Não tenho pais que possam ameaçar o conselho escolar com um processo. Se for a minha palavra contra a de Harper Vance, eu perco. Todas as vezes. Eu preciso de um álibi. Preciso de uma prova de que minha atenção está em outro lugar. Em outra pessoa.
Puxei um suspiro fundo e trêmulo, enchendo os pulmões com o cheiro de terra seca e escapamento. Era isso. A beira do precipício. Não havia volta depois que aquelas palavras saíssem da minha boca.
— Eu preciso de um namorado.
Ryder parou de tocar o lábio. Lentamente, virou a cabeça de volta para mim, os fragmentos de verde e dourado em seus olhos se aguçando em pontas minúsculas e letais.
— Um namorado — ele repetiu. A palavra soou completamente estranha vinda dele.
— Um de mentira — corrigi depressa, meu coração se arremessando contra as costelas. — Só um acordo. Uma distração temporária para mudar a narrativa. Se o conselho da escola achar que eu estou envolvida com alguém da minha idade, o boato sobre Harrison morre. Eles encerram a investigação.
— E você escolheu a mim. — Não era uma pergunta.
— Eu preciso de um espetáculo — admiti, a verdade feia e crua escapando antes que eu conseguisse filtrá-la. — Se eu escolher alguém normal, alguém da sociedade de honra, as pessoas vão dizer que estou traindo ele com o professor. Eu preciso de alguém cuja reputação seja mais barulhenta que a minha. Alguém que chame tanta atenção que a escola inteira não consiga olhar para outra coisa.
Engoli em seco, obrigando a mim mesma a sustentar o olhar dele. — Se a garota da bolsa de estudos de repente estiver namorando o cara que manda as pessoas para o hospital e é suspenso numa terça-feira... essa vai ser a única história com que alguém vai se importar. Isso apaga completamente o boato.
Parei de falar. Meus pulmões queimavam. Eu tinha posto todas as minhas cartas sobre o capô do carro dele, todo detonado. Eu praticamente o tinha insultado na cara, dizendo que a reputação dele era tão terrível que poderia servir de escudo para a minha.
Esperei a rejeição. Preparei meu corpo para ele rir, dizer que eu estava louca e ir embora.
Em vez disso, o metal enferrujado do capô gemeu em um protesto grave e ecoante.
Ryder se afastou do carro.
Ele não ficou em pé de uma vez. Moveu-se com uma lentidão deliberada, desenrolando seu corpo alto e se afastando do para-choque. A terra rangeu sob suas botas pesadas.
Ele deu um passo na minha direção.
Eu congelei, cada músculo do meu corpo travando com força. Minha respiração falhou, presa no fundo da garganta.
Ele deu mais um passo.
Agora ele estava perto demais. A presença física dele era avassaladora. Ele se erguia sobre mim, largo e sólido, bloqueando as frestas de luz do sol que cortavam as arquibancadas. O cheiro dele me envolveu — couro gasto, o toque forte de hortelã e o calor inconfundível, masculino, irradiando da pele dele.
Tive de inclinar a cabeça para trás para continuar olhando para o rosto dele. O hematoma recente, roxo-escuro, na maçã do rosto parecia doloroso de tão perto. O corte no lábio estava em carne viva. Ele era o retrato da violência, e eu tinha acabado de pedir que ele segurasse a minha mão no corredor.
Ele olhou para mim, os olhos cor de avelã descendo dos meus olhos arregalados e em pânico para minha boca trêmula, e depois para o jeito como eu agarrava a barra da minha saia xadrez com os nós dos dedos brancos. Ele enxergava através do blazer e das notas perfeitas. Via a garota desesperada e aterrorizada por baixo de tudo aquilo.
Ele se inclinou.
O movimento foi suave, completamente sem pressa. Ele fechou a distância que restava até seu rosto ficar a centímetros do meu. O calor da respiração dele roçou minha bochecha, enviando um choque súbito e aterrorizante de eletricidade direto pela minha coluna. Minha pele se arrepiou. Eu não conseguia me mover. Não conseguia piscar. A intensidade pesada e sombria da presença dele comandava cada molécula de oxigênio no espaço entre nós.
Ele inclinou levemente a cabeça, a boca pairando logo além da minha orelha.
— Então — sussurrou, a voz áspera e grave arranhando meus sentidos, fazendo um arrepio descer fundo pelos meus ossos. — Você pode manter sua vida perfeita. Você ganha seu escudo.
Ele virou o rosto de volta só o bastante para nossos olhares se prenderem outra vez. O cálculo afiado e predatório no olhar dele fez o sangue rugir nos meus ouvidos.
— O que eu ganho com isso?
