Capítulo 4
Ponto de vista da Rainey
O sinal tocou.
Amy ainda estava em sua carteira, guardando lentamente sua calculadora e seus materiais. Ela não parava de olhar para a frente da sala de aula, onde Sarah levava todo o tempo do mundo para organizar sua bolsa de grife.
— Desculpe, Rainey — Amy sussurrou, com a voz carregada de culpa. — Eu queria ter te dado um lenço mais cedo, quando sua testa estava sangrando, mas a família da Sarah... eles têm muito poder por aqui.
Ela lançou outro olhar nervoso para Sarah, que agora passava gloss com precisão ensaiada. — Nenhuma de nós pode se dar ao luxo de bater de frente com ela.
Enfiei meu livro de cálculo na minha mochila surrada. — Tudo bem. É sério. Você pode ficar longe de mim e ficar fora disso.
Amy mordeu o lábio, parecendo querer dizer mais alguma coisa, mas então começou a falar rápido, com as palavras saindo atropeladas. — Olha, talvez se você apenas... mantivesse uma certa distância do Benjamin no grupo de estudos? Digo, todas as garotas que a Sarah perseguiu antes foram as que chegaram perto demais dele. Ela e o Benjamin são amigos de família desde crianças, e...
— Rainey.
A voz de Benjamin cortou o falatório nervoso de Amy, e eu levantei os olhos para vê-lo se aproximando da frente da sala. — Rainey? A Sra. Smith quer ver você na hora do almoço.
Sarah se aproximou antes que Benjamin pudesse chegar até mim. — Eu estava pensando se não poderíamos estudar matemática para o SAT juntos na biblioteca hoje à noite. Só nós dois?
A expressão de Benjamin suavizou ao olhar para o cabelo loiro perfeitamente arrumado dela. — Claro, parece uma boa ideia. Na verdade... — Ele olhou de relance para mim através da janela. — A Rainey devia ir com a gente. Ela é incrível em matemática, e todos nós poderíamos nos ajudar a estudar.
A temperatura na sala pareceu cair dez graus.
O sorriso doce de Sarah vacilou por um segundo.
O sinal tocou de novo, com seu som estridente cortando a tensão.
— Tenho aula de Química Avançada no próximo horário — Benjamin disse, checando o relógio antes de sair.
Amy e eu estávamos juntando nossas coisas para a próxima aula quando Sarah e seu séquito nos pararam na porta da sala, bloqueando totalmente a nossa saída. Brad e Devon a flanqueavam como guarda-costas pessoais, com seus corpos robustos preenchendo o espaço estreito.
— Indo a algum lugar, garotas? — Sarah perguntou docemente, inclinando a cabeça com uma falsa inocência.
Amy apertou sua mochila com mais força.
O sorriso de Sarah se alargou, mas não chegou aos seus olhos. — Amy, preciso ter uma conversinha particular com a Rainey.
Amy olhou de Sarah para mim, claramente dividida. — Mas nós íamos...
Quando Sarah falou de novo, sua voz havia perdido todo o fingimento de doçura.
— Desde quando vocês duas são tão amigas assim? Se você quiser ficar por aqui e defendê-la, talvez a gente devesse ter uma conversa com nós três.
O rosto de Amy ficou pálido. Ela me lançou um olhar de desculpas antes de passar apressada por Brad e Devon para fora da sala.
Para falar a verdade, eu não a culpava.
Agora éramos só eu, Sarah e seus dois capangas.
E, pelo visto, mais uma pessoa.
No canto do fundo da sala, Sunny ainda estava debruçado sobre a sua carteira.
Sarah seguiu meu olhar e deu um sorriso cínico. — Não se preocupe com a bela adormecida ali atrás. Isso é entre você e mim.
Brad esbarrou de propósito no meu ombro ao se mover para bloquear a porta completamente, me fazendo tropeçar para trás, de volta para dentro da sala.
— Então, Rainey — Sarah disse, com a voz pingando falsa preocupação. — O Benjamin convidou você. Você deve estar empolgadíssima.
Apertei as alças da minha mochila, tentando manter a voz firme. — Eu não planejava aceitar.
— Mentira. — Sarah deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. — Eu vi aquele olharzinho patético nos seus olhos. Você estava praticamente babando por ele.
Meu coração martelava contra as costelas, mas me forcei a manter a calma.
— Eu juro que não estava...
— Não minta pra mim, porra! — A voz de Sarah estalou como um chicote, ecoando nas paredes da sala de aula vazia. — Eu sei muito bem o joguinho que você está fazendo. Se fazendo de sonsa, tentando chamar a atenção dele.
Ela agarrou a frente do meu suéter.
— Escuta aqui, sua vadiazinha — ela sibilou, o rosto a centímetros do meu. — Pense no que aconteceu com a Jessica.
Meu sangue gelou quando me lembrei da Jessica do semestre passado — a garota que tinha ficado amiguinha demais do Benjamin na aula de laboratório de química. Ela havia misteriosamente "caído da escada" e sofrido uma concussão que a obrigou a mudar de escola.
Foi então que ouvimos um barulho alto de algo arrastando.
Sarah se virou e viu Sunny empurrar a cadeira para trás e se levantar lentamente. Ele tirou um dos lados do fone de ouvido, parecendo totalmente irritado enquanto avaliava a cena.
— Dá pra fazerem menos barulho, porra? — ele falou arrastado, a voz carregando o mesmo tom perigoso que eu me lembrava do dia anterior. — Tem gente tentando dormir.
Sarah se virou totalmente para ele, medindo-o de cima a baixo com desprezo.
— Ah, olha só, o aluno novo e misterioso acha que é herói de novo.
Ela caminhou a passos lentos até a carteira dele, os saltos estalando no chão de linóleo.
— Eu tentei ser legal ontem, mas pelo visto você não entende como as coisas funcionam por aqui. — Ela se encostou em uma carteira próxima, cruzando os braços. — Quer se formar sem problemas? Pare de meter o nariz onde não é chamado.
— Não entendi — ele disse simplesmente.
O clima na sala mudou, como no momento que antecede uma tempestade. Até Brad e Devon pareceram sentir que havia algo errado.
A confiança de Sarah vacilou por um breve instante, mas logo sua raiva voltou a inflamar.
— Brad, Devon... acho que o nosso amiguinho novo precisa de uma lição de respeito.
Brad deu um passo à frente, já erguendo o punho.
O que aconteceu em seguida foi tão rápido que mal consegui acompanhar.
Sunny nem se mexeu de onde estava encostado na parede. Ele apenas estendeu a mão casualmente e segurou o punho de Brad no meio do soco, e então torceu o pulso dele com o que pareceu ser zero esforço. Brad começou a urrar de dor imediatamente, sua pose de durão desmoronando no mesmo instante.
Devon tentou agarrar Sunny por trás, mas Sunny parecia ter olhos na nuca. Ainda segurando o pulso de Brad, ele usou o impulso do cara maior para jogá-lo com tudo contra Devon. Os dois caíram em um emaranhado de braços e pernas no meio de carteiras viradas.
Devon se levantou num pulo e avançou de novo, mas dessa vez Sunny se mexeu. Em um movimento fluido, ele se colocou de forma protetora na minha frente.
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, Sunny já havia imobilizado Devon contra a carteira. O rosto de Devon estava pálido de terror.
— Por favor — Devon sussurrou —, não...
Sem pensar, estendi o braço e coloquei a mão no pulso de Sunny.
— Pare — eu disse com firmeza.
Os olhos brilhantes de Sunny se cravaram nos meus e, por um segundo, achei que ele fosse voltar aquele foco mortal para mim.
— Você vai me impedir?
Minha voz estava trêmula, mas não recuei.
— Você vai ser expulso. — Apertei mais os dedos ao redor do pulso ardente dele. — Não vale a pena. Não por eles.
— Não é da sua conta — ele rosnou, e o brilho dourado em seus olhos se intensificou. — Me solta.
Em vez de soltar, coloquei a outra mão no pulso dele também.
— Solta ele primeiro. Aí eu te solto.
